quinta-feira, 16 de julho de 2009

EXPOSIÇÃO TEMPOPERMANENTE: MAPA PSICOGEOGRÁFICO DAS OBRAS.

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Esta exposição urbana começa quando o horário comercial acaba.
Começa quando os portões e as grades encerram as vitrines em um abraço blindado.
Quando os carros rareiam e os andarilhos se recolhem.
Dizem as más línguas que a cidade é perigosa. Sempre. Mas à noite, é pior, muito pior. À noite o lobo mau sempre está à espreita, com suas máscaras de ladrão, estuprador, assaltante. Na verdade, eu, Fada de Preto, acredito que, acima de tudo,
O LOBO MAU ROUBOU A NOITE!
E é a noite que esta exposição acontece, quando as obras de uma centena de artistas de escolas, atitudes e talentos BEM diferentes se confrontam, depois do por do sol, nas telas de pedra e de metal que a cidade oferece. Uma exposição temporâria, pois só acontece de noite, e porque as obras são, frequentemente, retiradas do local.
A percepção de que a exposição estava rolando transformou a Fada de Preto em arqueóloga urbana, pois a notícia não foi noticiada pela imprensa local: tornei-me a primeira FdP a DOCUMENTAR TODOS os "AFRESCOS" no melhor estilo pompeiano hiper-realista. A primeira FdP a oferecer o mapa/catálogo da exposição.
Não sei porque não querem que a população local e os turistas eventuais conheçam e desfrutem dessa riqueza.
Para favorecer o FLUXO DE INFORMAÇÃO, com eventual AUMENTO DE CONHECIMENTO por parte do usuário, organizei as obras de maneira temática ao longo de corredores e esquinas que, idealmente, excluem o que está atrapalhando a visão... poder da tecnologia e do cerebelo da Fada.
Como toda exposição que se respeite, vocês, visitantes queridos e públicos curiosos, estão aqui, convidados ao LANÇAMENTO desse CATÁLOGO de PSICOARTE, desse MAPA PSICOGEOGRÁFICO da ARTE MURAL local.
Aproveitem a viagem: vocês estão, agora, entrando na galeria do Museu de Arte da Fada de Preto, recebidos por uma inteira orquestra escocesa (Kilt incluído no Kit).
Imagens de objetos cobiçados aparecem nas paredes, violentas, coloridas, energéticas, ridículas... cada carro & moto com placa VD (Vin Diesel), tem uma correspondência em uma farsa, uma piada de Keith Haring à espreita em todo lava rápido.
O Tromp l'Oeil domina a representação das máquinas. Microondas, condicionadores de ar, aquecedores solares e tanquinhos flutuam em um espaço paradisíaco azul calcinha.
Ninguém repara na pequena jóia gráfica das duas miniaturas bi-cromáticas da maquita e do extintor branco.
Assim como poucos admiram o talentoso artista que destaca uma escada (para o céu? par o teto? para a lua?) preta sobre um fundo amarelo, emoldurado por vermelho e azul... o mesmo artista que ilustra os instrumentos de trabalho desenha, como uma sombra, o homem, o trabalhador, aqui reduzido à mão de obra explorada que representa.
Algumas obras estão assinadas, muitas, assim como na Idade Média acontecia, são anônimas, o resultado de uma jornada de aprendizagem com algum mestre, também desconhecido.
Vale a pena destacar a pintura VELAS? de anônimo, para reconhecer a habilidade em simular a continuidade de um objeto em um espaço descontínuo, no caso o canto do pilar. Outras pinturas revelam a mesma habilidade, como no caso de BAR DO IVAN.
Dobradiças gigantes se alternam a gigantescos cadeados, e a máquina de costura decora o plano como um elegante bordado de moça de internato de freiras...
Tudo isso, enquanto criaturas abomináveis, surgidas de pesadelos infantis, adquirem vida e nos perseguem: chaves de boné, buracos da fechadura de tênis...
Mas eis que de repente, em um dos espaços expositivos, surgem as ROSAS sagradas das catedrais medievais, as MANDALAS místicas do budismo: são as pizzas abstratas, coloridas, que nos devolvem essa forma primordial do círculo radiante, imagem fortemente solar, símbolo do ciclo das estações.
TIM, O SORVETE MAIS SENSUAL da cidade, derrete suas ubertosas formas em uma parede verde & rosa, enquanto a interpretação do KUAT revela, na cobra verde que se torna mão ávida, a metáfora do capitalismo Coca Cola.
A série Carunchão é ambiciosa: um tríptico, composto por FORTE (Fortaleza, a virtude cristã), VITÓRIA e GUERREIRO (como tal carrega a espada salomônica da Justiça, outra virtude cristã). Ao lado do tríptico, as outras quatro virtudes atualizadas para um público contemporâneo, que aprende, assim, a dar uma boa educação para os filhos terem sucesso (e se tornarem ricos):
Andar de Skate
Jogar Tênis
Jogar Basquete
Jogar Futebol
(aliás, esse feijão tem cara de Ronaldo, o que pode, provavelmente, ajudar os historiadores da arte a estabelecer uma data aproximativa para a obra).
As Naturezas Mortas enriquecem essa exposição absolutamente mágica, uma cidade diferente que se descortina com esse por do sol ofuscado pela poeira roxa eternamente suspensa no ar.
São Naturezas Mortas com comidas, bebidas, frutas, dignas do cânone clássico da arte. Novamente, cito aqui o BAR DO IVAN, pois a habilidade ilusória do artista chega à eliminação do canto do pilar que, magicamente, "desaparece" debaixo da cestinha de fruta.
Uma das obras mais interessantes é, a meu ver, o quadro abstrato colorido, que me lembra muito a Tarsila do Amaral da tela GAZ (com um bocado de maquinismo à la Leger).
Um dos artista retoma o estilo da escola francesa da gravura enciclopédica, com detalhes didáticos e, todavia, leves e agraciados: as botas, os cornos, o chapéu de cowboy, a sela, a corda azul, tudo remete também ao fantástico mundo selvagem do VELHO OESTE.
É O VELHO OESTE!
Mas ele já se esvai em uma avoada açucarada de bixigas coloridas, quase um trabalho de Miró, que logo deixa o campo para uma cachoeira de flores, diretamente importados da Viena Fin-de- Siècle na beira do modernismo de Klimt e da loucura freudiana. Não precisa ir para Viena, para conhecer, está aqui, nessa exposição, assim como a PALMEIRA inspirada em Gauguin e, ainda, a esplendorosa sequência musical (sempre Tromp L'Oeil) que "paquera" a DANÇA de MATISSE.
Psiquedélico é o peixe que carrega no ombro (pardon: na nadadeira) um verme que nos mostra, irreverente, a língua, enquanto um certo expressionismo se encherga na visão de vaca da pintura FRIPHÓS (COM CERTEZA um nome GREGO, FRIPHÓS, ligado a alguma divindade bovina & equina.
Uma atestação de sacralidade sacrifical ao animal totêmico da mesa local que contrasta, de maneira não dissonante, da aparência singela e honesta do porquinho Big Frios (será esse o Porquinho Zero do "porquicídio"?).
Uma VACA VIGILANTE aparece no alto de uma casa, de dia percebe-se o olhar maldoso do bicho, enquanto desfilamos pela PAISAGEM ALPINA que ocupa vários metros de paredes, medindo pouco mais de 50 centímetros de altura.
Mais inquietante ainda, de uma inquietação metafísica bem no estilo De Chírico é o FRANGO DENTADO. O que o artista quis dizer, com essa imagem críptica, que nem os frangos são solidários, e que se matam entre si? É o retrato de um PSYCHOCHICKEN? E se eu encontrar um frango com todos esses dentes, eu tenho que fugir gritando "Socorro, franghomem!"? Mas amei o mistério por baixo da provocação da obra.
Os lápis coloridos marcharam brilhantes sob minha objetiva que estava, diante da inauguração da exposição, faminta de cores e de brilhos.
GUARDA CIVIL, por outro lado, se mostra uma obra francamente pouco atraente e não merece destaque nenhum, pois repete a morfologia e a sintaxe da arte acadêmica feita de latim e retórica, uma obra em estilo POMPIER que poderia ter deixado espaço a algum artista mais ousado.
Na exposição ainda há cachorros ferozes e malhados e, É CLARO,
A CANA.
A DEUSA CANA. Na exposição ela estava como uma bandeira japonesa da época de guerra, gloriosa conquistadora de novas terras...
Uma versão tropical-situacionista das perversões sutís um pouco pedófilas de BALTHUS está na obra em estilo primitivo VAGAS P/ MORADIAS em que o vestidinho curto demais da Mônica deixa entrever uma calcinha rendada.
Mais personagens felizes, de polegar para cima, flutuam nas paredes da exposição quando,
de repente
uma obra
nos tira o folego: no escuro, uma gigantesca parede amarelada.
O desenho de uma cerca de rede e arame farpado.
Um homem completando a instalação da cerca.
Tamanho natural.
Genial, opressivo, bem ARBEIT MACHT FREI.
No final da exposição, enquanto uma SENHORA REDONDAMENTE BOTERO rola ao lado, um pessoal toma um gole de cerveja, outro canta, enquanto as mulheres sensualmente tortas de Schiele se revelam na parede...

A EXPOSIÇÃO foi realizada como evento que inaugura o semestre da II EXPOPANGUÁ.

ESTAMOS TENTANDO GANHAR UMA GRANA, COM ISSO, ENTÃO PRESTEM ATENÇÃO:

DURANTE O SEMESTRE HAVERÁ VÁRIOS EVENTOS CULTURAIS.
TENTAREMOS ORGANIZAR VISITAS MONITORADAS (ALUGANDO UMA PERUA?) À EXPOSIÇÃO!!!! SÓ PRECISA VER SE HÁ UM NÚMERO SUFICIENTE DE INTERESSADOS...

FIQUEM LIGADOS, É UMA OPORTUNIDADE ÚNICA DE CONHECER AS MARAVILHAS MÁGICAS DE RIBEIRÃO PRETO.
Aproveitem, então, nosso mapa/guia/catálogo audiovisual!

P.S. As fotos são da Fada de Preto. Que conseguiu andar pela noite adentro na exposição porque teve uma parceria perfeita com a MOTORISTA, que teve a paciência de acompanhar nesses lugares encantados que são, principalmente, a Avenida do Café, a Avenida da Saudade e seus arredores. Em Ribeirão Preto todo surrealismo é pouco, É CLARO?
















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