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sábado, 11 de fevereiro de 2012

ARTE (SEM) MUSEU


Fernando de Noronha se visita quase unicamente pela magnificência de suas paisagens. É um lugar bem particular, pois em sua história foi descoberto no comecinho do século XVI e ninguém vivia aí por não ter fontes de água potável. O tal de Fernão de Loronha, a quem a ilha fora doada pelo descobridor, Américo Vespúcio, por não encontrar na ilha metais preciosos nem pau brasil, não se interessou pela ilha deserta, mais próxima da África que de São Paulo. Os holandeses, que ocuparam o nordeste, também colocaram um posto avançado na Ilha mas, como perderam contra os portugueses, tiveram que abandonar tudo. Aí os portuguêses, finalmente, demostraram interesse pelo lugar, que hospedou um sistema de pequenos fortes e, finalmente, se tornou colônia penal. E nunca mais deixou de se-lo.
Com o tempo, a colônia penal foi desativada, mas os descendentes dos criminosos que nela estavam constituem uma boa parte dos residentes atuais. Além deles, se encontram os que têm ou tinham envolvimento com a marinha brasileira, que manteve a ilha protegida por muito tempo.
Mas as coisas mudam, a economia preme e Fernando de Noronha se tornou um paraíso da indústria do turismo de massa. Amei.
Amei porque é realmente um lugar espetacular.
Amei porque amo tudo que é ilha.
amei porque vi os golfinhos.
Amei porque mergulhando vi tartarugas tubarões e um monte de peixes coloridos.
Amei porque continua uma colônia penal.
Extremamente agradável, mas ainda assim uma colônia penal. Em que os turistas devem se submeter a verdadeiros trabalhos forcados. A questão é simples: você fica 5 ou 7 dias, durante os quais você acaba querendo aproveitar todos os passeios, mergulhos, acessos que as agências oferecem. Não tem como evitar.
Em Fernando de Noronha você se dedica aos trabalhos forçados e se diverte.
Mas eu sou uma FdP e não me contento em diversão. tanto é que participei do passeio histórico, podendo visitar os monumentos da ilha. Que são belíssimos enquanto apelam para nosso desejo romântico de sublime na paisagem: ruinas e rochas enormes batidas pelas ondas do oceano azul... típico daquelas representações artísticas de um século XIX que ama a Natureza imperiosa que tudo, com sua força, devora... Sentimentos evidentemente compartilhado pelo meu grupo de visitantes que aproveitaram para tirar um monte de foto. Isso é patrimônio histórico. Tem chancela. É protegido. É um ato didaticamente correto que merece ser feito.
É, também, um ponto importante de visita o Projeto Tamar da ilha. As tartarugas desovam na ilha e, como estamos em um santuário ecológico, elas se beneficiam do SUS marinho.
No Projeto Tamar tem uma loja. Mas isso não é o ponto. Tem um pequeno percurso "didático" sobre as tartarugas, dividido em dois momentos. O primeiro, debaixo de uma marquise, oferece aos turista alguns exemplo de esqueletos de tartarugas, mostrando como a presença do homem as coloca em perigo de extinção. Tem um pequeno diorama (diorama: tão antigo e tão eficaz!!!), com um monte de filhotes de tartaruga em vidro-resina que corre, inelutavelmente... para a parede pintada com um monte di filhotes que correm contra a pintura do mar. Não parece o melhor, correr para uma parede, para garantir a continuidade da espécie. Na parte externa, em volta dos prédios, se encontra uma verdadeira exposição em vidro-resina da fauna marinha da ilha. "Empalados" em suportes de metal de mais ou menos 5o/70 centímetros de altura ( o sistema lembra das antigas coleções de borboletas, com os bichinhos fixados contra o papel com agulhas) encontramos golfinhos, tartarugas, barracudas, moreias, mais tartarugas, tubarões, mais tartarugas...
Fascinada, descobri que TODAS as peças são assinadas. Pelo artista. Porque, justamente, uma instituição que quer divulgar o que faz, como o Projeto Tamar, procura meios para se comunicar, e essas "esculturas", oficialmente encomendadas, carregam o nome do artista, oficialmente encomendado.
Fascinada, descobri que no lugar se encontra um orelhão. Em forma de tartaruga. Com a assinatura do artista. O mesmo da exposição didático científica com interpretacão artística em volta...
Em Fernando de Noronha tem museu. Aliás, dois. Um, fechado. Ligado ao espaço cultural da ilha, que está fechado. Ninguém sabe se um dia, ainda vai abrir.
O outro, é o "Museu dos Tubarões". O nome diz tudo. Mas não se trata de um museu museu museu. Não exatamente. É um conjunto perfeito de síntese das necessidades do turismo de massa: lazer, entretenimento, comida, bebida, mercadorias (lembrancinhas da ilha) e um toque de ciência. As paredes são decoradas com as bocarras ossudas dos tubarões. grandes pôsteres explicam a cadeia alimentar marinha, do planctom ao tubarão.
Nesse espaço se ministram também mini palestras sobre a formação das ilhas, o clima, o movimento das ondas... A parte que mais surpreende, porém, é o lado aberto do museu. Aqui, tem um grande espaço batido pelo vento, que acaba onde as rochas caem no mar. É uma área disposta e organizada para passiar entre gigantescas esculturas em aço, silhuetas simpáticas de peixes, monstros marinhos dentuços, rabos de sereias. São obras simpáticas e interativas: você pode sentar no trono de Netuno, botar a cabeça na boca de um tubarão... E ainda, estranhas tenazes gigantescas de lagosta abrem seu caminho surgindo do chão.
Nesse caso, o negócio não é institucional, ou seja, o Projeto Tamar que contrata um artista. Nesse caso, é o dono do negócio que faz seu pedido.
Óbvio que, até aqui, tudo é feito para uma compreensão do turista, para seu agrado, e é feito habilidosamente (talvez, sejamos sinceros, seja mais agradável do ponto de vista "sensível" o conjunto de aço, do que a fauna marinha em moldes "científicos", os animais de aço são fantásticos e ativam nossa imaginação. São um fato, digamos assim, mais "artístico" do que o primeiro.
Mas Fernando de Noronha, quando se foge da espessa rede dos maravilhosos trabalhos forcados do turismo de massa, oferece também um exemplo de ARTE CONTEMPORÂNEA, daquela difícil que, em uma galeria de arte ou em um museu nos deixa com a cara perplexa, cutucando o queixo, na esperança de entender "do que se trata".
Só que essa ARTE CONTEMPORÂNEA não está em um museu. Ocupa um canteiro, uma pracinha, que dá acesso a uma pousada, cujo nome domina o conjunto artístico.
O conjunto se encontra em um ponto onde, querendo ou não, todo turista acaba passando inúmeras vezes.
Em um primeiro momento, não entendi do que se tratava. Mas é isso que acontece sempre na frente de uma obra de ARTE CONTEMPORÂNEA. Na segunda passagem, continuei sem entender o que eram aqueles aglomerados de "coisas", objetos que encontrariam muito bem seu lugar no lixo. Pedaços de madeira, lataria de bugre, pneus, cordas, metais enferrujados...
Moral da história: decidi gastar um tempo passeando pelo canteiro e.... ENTENDI!
É uma obra de arte, sim. Não sei se o resultado é dos melhores, mas é, definitivamente, uma "coisa" de arte.
Basicamente, cada elemento da composição representa aspectos da ilha. Tem uma tartaruga de pedras, tem a parte de cima de um bugre (lá, até taxi é bugre!) pintada de vermelho e ouro, têm tábuas de surf coloridas, têm objetos de uso quotidiano que ameaçam o ambiente (suponho que as garrafas de PET em forma de árvore aludam à reciclagem de tudo que é plástico), tem também a denúncia à poluição causada pela incúria dos próprios turistas.
Olhem, eu posso estar enganada, mas no vídeo acho que da para ver, não estou errada não...
No meio de tudo isso, surgem outros golfinhos e criaturas decorativa que se encontram na ilha. Alguns, não piores que os do Projeto Tamar...
No começo, coloquei também o "monumento" que marca o acesso ao centro histórico (aquele pássaro que se parece com um totem indiano) e uma escultura doada (à cidade?) pelo tal artista da placa... Bom, me diverti muito, na Colônia Penal de Fernando de Noronha: fiz todos os trabalho forçados do turista e, ainda, me dediquei aos estudos histórico-artísticos... vai vendo!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

MONGÓLIA DE NARIZ PRA BAIXO...

Acreditem se quiser, mas eu ando também de nariz pra baixo, e não sempre de nariz empinado. Assim, quando estava lá na terra do Gengis Khan (não é mania, não, é pura e simples fascinação, vai ver tenho o sangue do Marco Polo em mim...), encontrei AQUILO QUE ESTÁ NO CHÃO, ou AQUILO QUE DO SOLO BROTA. Me diverti, assim, a fazer retratos de amigos mais ou menos tímidos. E lembrem-se de que
PARA FAZER UMA ÁRVORE, PRECISA DE UMA FLOR...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

PRESENTE/AUSENTE

O que vejo, às vezes se confunde com o que lembro. As imagens gravadas na retina, às vezes as reencontro gravadas em uma máquina. Não há fios de Ariadne para seguir, somente rápidas impressões, às vezes impressionistas, às vezes simbolistas, mas sempre surreais...

NÃO ESQUEÇAM DE VISITAR A SIBILA!!!

Foto da gruta em que se acredita morasse & trabalhasse a Sibila Cumana: em Cuma, perto do Vesúvio. O lugar merece uma visita....

As Sibilas eram videntes, dedicadas ao culto de Apolo. Seus oráculos eram dados, geralmente, em grutas próximas de vulcões. A Sibila Cumana era uma dessas videntes, de temperamento triste, colérico e selvagem. Quando recebia as profecias, entrava em um transe profético, que não chegava a deixa-la alienada. Depois de receber as palavras futuras do Deus Apolo, escrevia suas visões em versos, nas folhas da palmeira que crescia na entrada de sua gruta.
Em seguida, deixava as folhas no chão, para que aqueles que pediram a consulta as lessem.
O vento, porém, virava as folhas, as misturava e levava embora muitas delas. Dessa maneira, as profecias se tornavam quase sempre incompreensíveis, e os pedintes iam embora lançando suas maldições contra a Sibila.
Quando jovem, a Sibila fora desejada por Apolo que, em troca dos favores da moça, ofereceu-lhe esse dom da profecia. A jovem aceitara o dom, além de pedir ao Deus também tantos anos de vida quantos eram os grãos de areia que cabiam em sua mão.
Depois de obter as dádivas, todavia, zelosa de sua pureza a Sibila se negou ao Deus, o qual, enfurecido, se vingou: com efeito, a jovem esquecera de pedir, com os muitos anos de vida, que seu corpo não envelhecesse.
Foi por volta dos 40 anos que ela se apercebeu de seu erro, mas já era tarde de mais.
Dizem que seu corpo encolheu a ponto de se parecer com uma cigarra. Construíram para ela, assim, uma pequena jaula onde ela cantava suas profecias. Alí foi deixada até o dia em que umas crianças a colocaram em um jarro tampado, que só de vez em quando era destampado, para ouvi-la dizer as únicas palavras que, a esse ponto, ela pronunciava: "Quero morrer, quero morrer..."

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O JARDIM DAS DELÍCIAS...

Estou com a sensação, nos últimos dias, de ter entrado por um roteiro de lugares que merecem ser conhecidos, mas que poucos conhecem. Lugares que têm, como característica principal, uma aura de espaço das fadas.
Falei de Bomarzo, com seus monstros de pedra. E hoje, quero apresentar um outro parque/jardim que parece surgir de um universo paralelo, definitivamente irreal.
Se trata de um grande parque, obra de uma artista francesa, Nikki de Saint Phalle. Esse parque se encontra na Toscana, na fronteira com o Lazio, na Itália central. Conhecido como Jardim das delícias ou dos Tarôs, se inspira diretamente de um lado a Bomarzo, do outro ao Parque Guell de Gaudi, em Barcelona. Cada edificação, cada escultura disposta no parque se inspira a uma carta dos Tarôs.
Algumas esculturas são gigantescas, a gente passeia dentro delas. Em uma, a artista fez sua própria casa, o interior da carta da Imperatriz, toda revestida como se fosse um mosaico de espelhos.
Cada peça foi realizada a mão...
Quando se ultrapassa o muro da entrada, se sente a inquietante sensação de ter entrado em um mundo enfeitiçado, povoado por presenças imobilizadas por um poderoso encantamento.
As diferentes luzes do dia transforma as tonalidades brilhantes, doando vida às personagens que povoam o espaço.
Um legado que a artista deixou e que precisa ser valorizado...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

BOMARZO, O PARQUE ENFEITIÇADO.

Em um pequeno vale verde, ao lado da cidadezinha de Bomarzo, na província de Viterbo, o senhor do lugar, homem de armas, mas também letrado humanista, Vicino Orsini, resolveu construir, nas últimas décadas de 1500, um "Bosque Sagrado".
Nos poemas de cavalaria renascentistas, o bosque é um dos lugares recorrentes, bosque encantado onde os heróis se deparam com aparições monstruosas de feras e gigantes, de dragões e esfinges, mas também de perigosas e sedutoras feiticeiras.
As provas da selva enfeitiçada, ou bosque encantado, se torna um dos momentos cruciais da iniciação do cavaleiro à coragem e à glória: ele deve demonstrar seu valor lutando contra os dragões e as outras criaturas encantadas e superar as tentações das feiticeiras disfarçadas de donzelas.
O "Bosque Sagrado" de Bomarzo, protagonista do romance de um notável escritor argentino, Manuel Mujica Lainez, existe, mas poucos o conhecem. Quem não sente a maravilha e o encantamento de Bomarzo não poderá apreciar as sete maravilhas do mundo...


MONGÓLIA, DE NOVO...



A planície, a perder de vista, ondulada, como um mar imóvel, sem qualquer vegetação.
Há, suspenso, acima, esse céu imenso que aparenta ser mais brilhante, mais alto e livre de qualquer outro céu que já vi.
Há a grama, a estepe, os pequenos cavalos, o céu escancarado, cheio de luz, que não te oprime, mas te liberta.
De outros países, pode-se dizer que se gosta porque lá há o conforto da civilização, ou porque se ama a arte, a gastronomia, os tecidos, a música, a arquitetura, a variedade das paisagens.
Na Mongólia, tudo isso não existe, ou, melhor, existe de forma relativa, quase incompleta, existe de forma minimalista.
É desconfortável.
A Mongólia me atrai porque lá há espaços vazios. Para além de tudo, mais forte do que tudo, se ouve o silêncio.
Mongólia, mar verde silencioso no por do sol.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

DIÁRIO DE VIAGEM: CHEGANDO NA MONGOLIA...


Eu estava devendo minha viagem para a Mongólia há muito tempo... finalmente, tomei uma atitude! Aqui vai um breve "diário" da visita ao templo Gandam em Ulaan Baatar...

... Chegamos em Ulaan Baatar por volta das 6.30. Já estava claro, e pôde observar, pela janela do avião, o lugar onde estávamos aterrissando. Pelo que constatei, a Mongólia, vista de cima, é uma terra verde e marrom, praticamente sem vegetação alta, ondulada.
Aqui e acolá, formas redondas, brancas: são as geer, ou yurtas, as tendas dos nômades. Aterrissamos nessa paisagem insólita e demoramos um pouco para sairmos do aeroporto, pois precisávamos esperar a emissão do visto.
Agora o visto no meu passaporte ocupa uma página inteira, e não consigo deixar de olha-lo: me sinto uma Marco Polo do século XXI, aqui, na terra de Gengis Khan, nossa, uma viagem que sonhei por tanto tempo!
Na saída, nossa guia estava nos esperando, uma moça muito jovem, que fala um pouco de italiano.
Do aeroporto até a cidade andamos um bocado, ladeando o nada da terra, vazia de um lado, com as grandes centrais elétricas do outro... tudo como nas minhas viagens imaginárias, tudo como nas imagens que criei em minha cabeça!
Descansamos, pois afinal, o vôo Moscou Ulaan Baatar demorou a noite inteira.
Na parte da tarde, fomos visitar um pouco de cidade.
A primeira parada foi o Gandam, um complexo enorme de templos e mosteiros budistas, talvez o maior do país.
Amei as suas edificações, assim como amei virar os cilindros do karma, assim como amei a gigantesca estátua do Buda e os estupas em volta do templo.
Um grupo de monges estava armando uma geer colorida, e vi como se constrói do começo ao fim.
Quando acabaram, deixaram a gente entrar...

GALÁPAGOS: A ILHA RÁBIDA...


Do meu diário de viagem nas Galápagos:
24 de Dezembro.

... A tarde foi de praia, na pequena ilha Rábida, vermelha pelos minérios de ferro, tanto na aréia, como na parte mais afastada da orla. Passamos ao lado de uma pequena lagoa salgada, onde os leões marinhos mais velhos e aqueles muito novos, aqueles leões marinhos que não são machos alpha, ficam para se recuperar das feridas de suas batalhas perdidas pela conquista das fêmeas. Passeamos no alto da ilha, cuja vegetação, extremamente seca, aguarda a estação da chuva, já prestes a começar. Os cactos são, aqui, uma variedade com espinhos macios, pois não há inimigos naturais dos quais se defenderem. Realmente, não espanta que Darwin tenha encontrado, nessas ilhas, o santuário de sua teoria. Com efeito, nas outras ilhas do arquipélago, lá onde se encontram as iguanas de terra, os cactos têm espinhos defensivos, pois esses estranhos répteis se alimentam deles.
Do alto de um rochedo, íngreme sobre a água do mar, a água é tão transparente que se vêem os peixes nadando, lá em baixo, distantes, listrados, coloridos, os peixes anjos.
Alguns caranguejos brilhantes, vermelhos alaranjados, estavam imóveis em uma fenda, perto de uma iguana marinha. Somente na ilha de Espanhola as iguanas marinhas são rosadas, por causa das algas que lá se encontram. No restante das ilhas do arquipélago elas são pretas ou cinza chumbo.
Sentei na praia, depois de andar ao longo das ondas, até o final dos rochedos, sempre no meio dos leões marinhos.
Areia vermelha, conchas brilhantes e um filhote de otária seguindo a mãe, tão recém nascido que ainda tinha o cordão umbilical pendurado na barriguinha.
Voltamos ao navio no final da tarde e, da sacada da cabine, vi a ilha de Rábida desaparecer em um por do sol vermelho dourado...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

SOBRE O MUSEU DA INOCÊNCIA

Em seu romance o Museu da inocência, Orhan Pamuk narra uma história de amor ambientada na Istambul da década de 1970. O protagonista, Kemal Basmaci, é noivo da jovem Sibel, quando encontra a prima Fusun, pela qual se apaixona e com a qual tem um relacionamento breve, porém intenso. A história deles, todavia, acaba, pois Kemal não rompe com a noiva. Separados, Kemal se apercebe que sem Fusun não consegue viver, e passa oito anos em busca da possibilidade perdida dessa história de amor. Como “antídoto” à sua dor de amor, Kemal começa a recolher objetos que pertenceram a Fusun ou que remetem a lugares e momentos associados a ela. Ele guarda esses objetos no apartamento onde se encontrava com a moça. Quando Fusun morre, Kemal toma a decisão de comprar dos pais dela a casa onde morava e de expor os objetos recolhidos aos olhares do público, inaugurando, assim, o Museu da Inocência.

Raramente um romance é tão fiel ao seu titulo: ler O museu da inocência é como entrar e visitar um museu. Virar as páginas corresponde a visitar suas salas, em que nos deparamos com os objetos expostos nas vitrines, lendo as escritas das placas que explicam. Assim como em um museu, o autor reconstrói um mundo, salvando-o do esquecimento. O autor nos devolve a história de amor entre Kemal e Fusun, em cada detalhe singular e, ao mesmo tempo, recria a vida de uma cidade, Istanbul, na década de 1970.

As datas são importantes em qualquer museu: nesse, a primeira é 26 de abril de 1975 e a última será nove anos e quatro meses depois. A primeira é a data do dia em que Kemal entra na loja onde Füsun trabalha como vendedora e a última é do dia em que Kemal e Füsun viajam para a Europa, quando tudo acaba. A simples história desse amor é banal.

Quando a noiva de Kemal o abandona, o protagonista reencontra Fusun, casada, e começa um louco período em que ele freqüenta a casa dela e de sua família entre três e cinco vezes por dia. Ao longo de sete anos, dez meses e três dias, ao longo de 409 semanas, Kemal janta na casa da família da moça 1593 vezes.

A exatidão dos números é importante, pois oferece uma medida da meticulosidade doentia com que Kemal conserva, em sua memória, os vestígios de seu amor. A essa altura da história, ele ainda não sabe que, depois de visitar 5723 museus, dedicaria um museu a Füsun. Começa, todavia, a acumular objetos que pertenceram à moça, roubando na casa dela lenços, grampos, bibelôs, saleiros. Em seguida, amplia o campo de sua coleção, pois Füsun não é mais somente Füsun, tornou-se a cidade em que se amaram, está no navio do qual seus olhos se pousaram sobre o Bósforo, na garrafa de refrigerante, nos outdoors publicitários, na caixa de cigarros (ou na própria bituca), nos shows televisivos e em suas guias de programação, em uma infinidade de objetos e imagens que acabam se recompondo, como em um caleidoscópio, dentro do Museu da Inocência, espécie de Jardim do Éden antes da queda. Ainda que, aparentemente, no centro da memória se encontre Füsun, é, na verdade, Kemal que sempre fala de Kemal, personagem narcisista, frequentemente irritante, que encerra sua narrative afirmando que “Tive uma vida feliz”, sem se perguntar quantas pessoas, por causa disso, foram infelizes, e que - com uma pirandeliana virada narrativa – pede ao escritor Orhan Pamuk (que já encontramos dançando com Füsun durante a festa de noivado de Kemal com Sibel) para escrever o livro que estamos lendo, para que esse desenvolva o papel de catalogo e guia completo do museu, para que todos os visitantes possam se deslocar por suas vitrines com a clareza do que estão vendo e das razões pelas quais os objetos estão ordenados conforme uma dada narrativa. Em 1999 Orhan Pamuk comprou um palacete histórico em Istanbul para realizar um projeto ligado ao romance, encarregando o arquiteto Ihsan Bilgin – antes de começar a escrever o romance - de transformar o prédio em um museu, onde o livro e o próprio museu se cruzassem na história de amor entre Kemal e Füsun, os protagonistas. Depois de nove anos, tanto o romance como o museu nasceram contemporaneamente.

Nas últimas páginas do romance, Pamuk elabora de maneira clara e eficaz uma verdadeira “teoria do museu e das coleções”, oferecendo, inclusive, um mapa para chegar facilmente às suas instalações e dependências, e uma cópia de uma entrada, que todo leitor poderá apresentar para visitar o museu: será um percurso lento, às vezes tedioso, às vezes dará vontade de pular alguma sala e deixar de lado alguma relíquia que nos parece já conhecida. No final, todavia, sairemos do museu com a sensação de ter visitado a vida, que se trata de uma coleção de momentos felizes.

Na foto: o palacete onde foi inaugurado o Museu da inocência.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

FIM DE SEMESTRE, FIM DO TEMPO...






E aí vai mais um semestre, mais um ano letivo que se apaga. Novembro foi um momento difícil, muitas coisas para fazer, encerrar, empurrar com a barriga...
No começo do mês, descobri que tinha uma semana para escrever um artigo do nada. E para resgatar um segundo artigo das profundezas dos arquivos mortos, enterrados e esquecidos, ressuscita-lo e torna-lo publicável. Sempre no começo do mês, lembrei que tinha que arrumar um terceiro artigo. No entanto, até dia dez tinha que enviar um resumo expandido para um evento. Ainda, novembro foi mês de aula, apesar dos feriados. E, no meio, bobeei e me encontrei oferecendo um minicurso em outro evento, além de uma palestra super aterrorizante que já estava marcada. Depois, tinha que arrumar os trabalhos de conclusão de curso dos alunos, participar das bancas deles e de outros alunos não meus orientandos, participar de reuniões e de avaliações... Enfim. Enfim. Foi cansativo. No meio disso, mudei de casa.
Assim, o mês se foi, sem que eu conseguisse manifestar qualquer sinal de vida por aqui. Estou em falta com amigos na minha correspondência. Estou com olheiras, cabelo disforme, um humor que nem eu consigo ficar ao meu lado... Dezembro chegou, as coisas estão um pouco melhores, mas ainda, até a metade do mês, tem mais coisas e coisas e coisas.
Com esse ritmo, nunca vou conseguir escrever nada para mim! Quero dizer, de tanto escrever coisas de trabalho, pouco me sobra de cabeça para escrever o que eu quero.
Nos momentos possíveis, fui lendo o que os outros escrevem. E não foi fácil isso, pois à noite, com um livro na mão, meus olhos fecham de cansaço. Mesmo que o livro seja exatamente aquele livro que quero ler, que me faz bem, que me faz feliz.
Agora que, além dos livros em papel e dos livros eletrônicos, descobri também os audio-books grátis para ouvir em meu i-Pod, fiquei inteiramente feliz. descarrego os livros e depois, quando passeio, ou quando dirijo, ouço literatura. Estou, simplesmente, adorando. Encontro, em rede, desde os grandes clássicos até livros contemporâneos em copyleft...
Em janeiro viajarei. Levarei comigo 15 títulos, entre audio-books e e-books... peso total na mala: 285 gramas... e uma dose de felicidade não mensurável!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

DIÁRIOS DE VIAGEM VII


06/07/2010
Aeroporto
Bom, estamos quase para embarcar. Chegamos cedo ao aeroporto para fazer o check-in. No começo, não queriam nos embarcar, pois não temos o visto no passaporte, mas temos todos os papéis para obtê-lo diretamente na chegada. Enfim, tivemos que esperar que os funcionários da Aeroflot ligassem para sei lá que escritório, para liberar nossa saída.
No final, deu tudo certo.
Estou indo, praticamente, para o outro lado do mundo. Uma distância imensa me separa do Brasil, com o qual duvido que, nos próximos dias, poderei comunicar. Na mala estou levando minhas cadernetas de anotações .

h. 15.00
Estamos quase chegando em Moscou, primeira etapa da viagem para a Mongólia. Tudo correu tranquilo, sem nada de notável. Do lado externo do avião, ao lado do nome aeroflot, um símbolo inesperado: a foice e martelo, de comunista memória! Para falar a verdade, tinha a esperança de viajar em um avião de fabricação não digo soviética (seria bem velho!), mas algum descendente direto dos Ilyushin... mas toda a frota foi renovada e trocada por banais Airbus!
Ainda assim, amei o símbolo nostálgico do lado de fora e nos uniformes da tripulação...

h19.45
Aeroporto de Moscou (um dos vários... chama Sheremet)
Estamos praticamente na fila para o embarque de vôo para Ulaan Baatar. O aeroporto Sheremet é tão novo que ainda tem partes inacabadas. Hea vearios europeus embarcando: nos distinguimos pelos traços caucasianos e pelos guias de viagem: está todo mundo com a bosta de guia da lonely Planet, guia ruim & mal feito.


h21.30
Decolamos. O vôo deve durar um pouco menos de cinco horas. O avião é um velho Boeing, e a tripulação não é mais nova que ele... devem ser do tempo em que ainda se comprimentavam na base do Tovarich... Nossa rota deve atravessar, durante a breve noite, parte da Sibéria. Nos meus arquivos mentais fico lembrando de um bom livro, "Educação Siberiana", de Nicolai Lilin, um livro sobre ética criminal exatamente na Sibéria. Amei o livro, mas não me deu muita vontade de viajar por lá...
Enquanto tomo meu suco de tomate, olho o céu que escurece e espero meu jantar sintético de avião. Logo estarei na mítica Urga, hoje conhecida como Ulaan Baatar, "Herói vermelho".

terça-feira, 17 de agosto de 2010

DIÁRIOS DE VIAGEM VI

A praça Garibaldi em Vada.

04/07/2010 Vada, h.19.4o
Voltei há pouco da praia. De manhã fiquei um pouco com meus pais, lendo, debaixo do guarda sol. Depois, fui até a praia vizinha, visitar minha amiga S., que conheço desde que tinha seis anos. Passamos muitos verões juntas, nadando, caçando caranguejos, catando amoras, enfim, sendo crianças juntas e crescendo. Juntas, descobrimos o mundo. A história de S. é uma história de abandono & perdas. Ela e seus três irmãos foram abandonados pela mãe uma noite, quando ela tinha três anos. A mulher , simplesmente, foi embora, deixando a chave do gás aberta. Por sorte, o pai acordou a tempo. Como o pai era uma figura lastimável, e S. afirma, até hoje, que foi a ruína de sua vida, quem se ocupou dela foram os tios, que desde que foi abandonada atee os doze anos a criaram como uma filha. Mas aí, o tio morreu e o pai a tomou de volta, para que morasse com os irmãos. Na verdade, ela tinha uma idade que permitia que cuidasse da casa e dos irmãos, poupando ao pai a grana de babás e faxineiras. Foi quando nos perdemos de vista por vários anos.
Com dezenove anos, ela voltou para a casa da tia e acabamos nos encontrando de novo, nos verões. Mas tínhamos, obviamente, mudado, cada uma ocupada em descobrir o que fazer com a vida de quase-adultas.
Hoje, ela é casada e mãe de dois filhos. Conversamos um pouco, e ela, como eu, apesar dos anos e das muitas diferenças, guarda lembranças importantes do período de formação que passamos juntas, durante aqueles verões maravilhosamente ingênuos de descobertas.
Os irmãos, que cresceram com o pai, não se deram bem na vida. O menor casou com uma deprimida crônica, tem dois filhos e trabalha em um supermercado. Vai ver procurou a figura da mãe nessa esposa que nem consegue cuidar da prole. O mais velhos sobrevive de pequenos trabalhos absolutamente precários, com quarenta e tês anos, namorando uma figura que, conforme diz S., além de feia é mau caráter. O terceiro irmão, que é gêmeo dela, está preso, na cadeia, por jogo de azar, fraudes & furtos.
S. trabalha como agente imobiliário, mas está preste a deixar tudo para só se ocupar dos filhos, de oito e seis anos.
Conta que sempre quis filhos, mas que teve momentos em que se sentiu muito inadequada, com medo de ser como a mãe dela fora. Conta também que, com vinte e cinco anos, a mãe reapareceu, querendo encontrar todos eles. mas S. não quis nem vê-la pintada, pois considera que, para essa mulher que só a machucou, seria um privilégio imerecido conhece-la.
A vingança machuca, a vingança faz mal, creio eu para todos os lados.
Me despedi dela e fui para casa, almoçar.
Andei pensando que, em minha vida, muitas são as histórias de pessoas que cruzaram parte de seus percursos comigo, em que o abandono & a perda familiar são recorrentes. Cogito se não é já o tempo de escrever essas histórias.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

DIÁRIOS DE VIAGEM V


01/07/2010 Vada, h. 22.30.

Estou no quarto da casa que era dos meus avós. a janela aberta, um perfume leve de maresia. Como sempre, a sensação de que os lençóis são mais pesados, nesse "ar marinho".
Hoje, de manhã, revi uma amiga de um milênio atrás, de quando eu era (éramos?) muito jovem. Com ela fui ao meu primeiro show ao vivo, U2: era o ano em que lançaram WAR, o público cabia inteiro em uma tenda de circo... Eu tinha o que? 15 ou 16 anos, não mais do que isso. Bom, então, depois de um milênio de vida, nos reencontramos e fomos passear por aí, sem botar a conversa em dia mais do que o necessário, mas conversando de amenidades musicais e literárias. Levei-s até o palacete Eucherio San Vitale, do século XV, no Parque Ducal. Eu sei que a maioria dos moradores da cidade não sabem que está aberto ao público, com seus afrescos já quase apagados. E sei que é um lugar de boas energias.
Conversando de arte, música & espetáculo, levei-a para (re)ver o arco do portal da catedral, decorado com um calendário medieval.
Eu gosto do mês de dezembro, que mostra a matança do porco. Sei que poucas pessoas reparam nesse detalhe, que representa um dos primeiros "monumentos ao porco" que, a bem ver, estão minuciosamente espalhados pelas catedrais da Europa inteira. Na Idade Média, o porco deu o que comer a milhões de famintos. Grande porco: praticamente, não precisava de cuidados, comia qualquer coisa por aí, era resistente, e dele "não se joga fora nada". Vejo, nesse baixo-relevo de Antelami, uma homenagem grandiosa: afinal, todos que entravam (e entram) por esse portal que é, repito, aquele central, tinham que reconhecer que o porco estava acima deles!
O interior da catedral é, como sempre, uma grande visão, até a extraordinária cúpula do Correggio.
Mas eu gosto é de um capitel quase invisível: aqui, está esculpido um burro vestido de monge, que ensina a ler a um lobo... Amo esse capitel, todas as vezes que volto para Parma, faço questão de ir vê-lo.
Pequenos detalhes que, para uma pessoa um pouco anarco-surrealista como eu fazem um sentido profundo.
(A foto do portal é minha, a do capitel não é minha, foi "roubada" via google)

DIÁRIOS DE VIAGEM IV


30/06/2010. Parma, h. 23.50.
Ontem, na tarde, fiquei em casa recarregando os milhões de baterias que a gente carrega consigo nesse mundo digital:
- duas da câmera digital
- uma da filmadora
- uma do e-book
- uma do celular
- uma do I-Pod
... fala sério!
À noite, mamãe cozinhou camarões gigantes.
Hoje sai, de manhã, e uma energia misteriosa me arrastou para a livraria, obrigando-me a comprar livros...
À noite, fui para Cremona, onde jantamos em um boteco restaurante: "torta frita" com frios e, de sobremesa, "torta frita" com Nutella. O colesterol ficou todo alegre!
Nutella: uma religião ou um vício? Há anos os intelectuais italianos discutem sobre isso....
Foto: torta fritta & frios.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DIÁRIOS DE VIAGEM III: ANEXO


A foto do último post foi tirada de uma das pontes de Parma. Essa, não, é da rede, mas da na mesma: representa a última moda entre os adolescentes que, no enloquecimento dos tempos pós-pós-pós atômicos/industriais não sabem muito bem que rumo dar a suas vidas. O culpado dessa última bobeira é um pseudo-escritor de romances de amor, tal de Federico Moccia, a ser evitado feito uma praga. Bom, então, os cadeados que se encontram em muitas das pontes de muitas cidades SERIAM o símbolo do amor eterno entre os adolescentes. Aqueles amores, para ser clara, que na maioria das vezes são eternos por um prazo de dois/três meses. Mas os cadeados ficam aí, enferrujando, nos lembrando de como é difícil crescer e entender um pouco mais o funcionamento das "coisas da vida".

DIÁRIOS DE VIAGEM III

29/07/2010 Parma. h. 12.30
Primeiro passeio pela minha cidade. Em exploração das permanências & transformações. Ontem cheguei que já era noite e, pelo cansaço, não fiz esforço nenhum para olhar em volta. Mas hoje, sim. Sai que eram umas 10.30, já que levantei quase às 10. O fuso horário de cinco horas tem lá sua influência.
Então, sai. A temperatura, ainda que verão, é aceitável, abaixo dos 30 graus. O céu está azul e cheio de andorinhas. Sinto falta das andorinhas e de seus gritos, lá em Black Stream. Na cidade, poucas são as mudanças visíveis, pelo menos no caminho principal para chegar ao centro. Algumas obras de reforma nas ruas, o mercado, que está ficando muito esquisito: havia lindas casas coloridas. Ainda estão lá, porém sua visão está impedida por uma misteriosa estrutura de vidro & aço, cuja função ninguém soube me explicar qual vai ser. Sumiu uma das lojas de conveniência mais antiga, a COIN, que foi transferida. Fora isso, tudo aparenta continuar do mesmo jeito.
Primeira parada: uma livraria tipo "clube do livro", ótimos descontos, comprei vários livros de literatura de entretenimento.
Segunda parada: a livraria Feltrinelli, onde não há descontos, mas é aqui que abasteço minhas reservas de ensaios.
Comprei um livro da Anna Politovskaya, a jornalista russa morta a tiros por incomodar o regime putiniano. Não há nada dela publicado no Brasil. Também comprei um belo ensaio sobre as relações entre arte e ciência e outro, de literatura "quase" de viagem, de Alain de Botton: é uma crônica que me pareceu interessante, sobe uma semana que o autor passou dentro de um aeroporto.
Tive outras tentações "literárias", mas preciso ir devagar, parcelar o tempo nesse ofício delicioso que é escolher os livros para levar embora.
Voltei para casa, sempre andando, e agora vou almoçar. Pretendo passar minha tarde abandonada no sofá, lendo meus livros...

DIÁRIOS DE VIAGEM II

28/07/2010 No avião. h. 15.05
O pesadelo da última hora me encontrou. Estava eu tranquila, fazendo a fila para embarcar, quando um bando de italianos berrantes me cercou. A média da idade: acima dos 80. Todos beatos e abençoados por alguma peregrinação religiosa (Fátima, com certeza...). Todos, como disse, beatamente berrando. Todos, sem exceção nenhuma, nessa beatitude complexa que é a fé popular, reclamando. Reclamando porque
- o avião não podia ser alcançado a pé, mas precisou pegar aquele ônibus de transporte interno do aeroporto
- o calor, ahiahiahiahi! o calor do verão! (mas para os beatos, isso não deveria ser algo divino????)
- A espera dentro do ônibus chegou aos 10 (DEZ!) minutos, onde já se viu? (como se a Itália fosse o lugar da eficiência, FALASSSÉRIO!)
TODOS, como um bando de ovelhas sem rumo, com um pastor cabisbaixo, padre silencioso e abatido (péssima liderança pastoral, em todos os sentidos, tsé...).
No meio desse pesadelo de última hora, dois mini-pesadelos assinados "Europa do século XXI":
1) No controle do cartão de embarque, duas pessoas foram paradas e colocadas de lado, e pelo que vi não conseguiram embarcar. Duas pessoas negras. Uma, eu vi, tinha passaporte italiano. Pelo jeito, de nada valeu. Oh, racismo, filho do medo, filho da p..a! Antes, tinha visto, no controle de raios X das malas, que o único que teve que parar e abrir suas coisas fora um passageiro também negro.
2) Segundo mini-pesadelo: enquanto esperávamos para descer do ônibus, um moleque começou a passar mal. Isso, fora o estado lastimável do coitado, ao qual vai toda minha simpatia e solidariedade, seria o de menos... Foram os renovados berros dos beatos, a parte pior. Gritos que ficaram ecoando no pequeno espaço do ônibus, em tons de briga, contra o pobre motorista que, no estado de sítio constante em que se colocam os aeroportos, não pode abrir as portas até ser autorizado. Beatos os que sempre querem tudo & agora, beatos os que sempre levam tudo como uma ofensa pessoal, beatos os pobres, muito pobres de espíritos, que os torna impacientes na vida... Um pensamento molesto toma conta de mim:
será que eu também sou assim???? Eu não quero ser assim... Faço minha "promessa de avião": vou me esforçar para não ser assim...

DIÁRIOS DE VIAGEM I

(Parma, Itália: Praça Giuseppe Garibaldi)
Leio sempre os comentários, às vezes com uma certa surpresa. Por exemplo, no meu último post, encontrei alguém que me sugeriu ir à Europa. Tranquilo, Pietro, vou à Europa com uma certa regularidade. Aliás, para mim, sendo eu uma Fada européia, nada mais é do que uma volta às origens. Para quem não soubesse, sou de origem mediterrânea, fada importada há 15 anos em terras Brasil-Americanas.
É emblemático da constituição da mentalidade observar o "espírito brasileiro" sobre a idéia do que é interessante visitar. Historicamente, me ensinaram, no Brasil se desenvolveu uma idéia de "civilização", no século XIX, que leva a um certo contraste com as imensas extensões de mata que cobrem o país.
A idéia de civilização é, ainda hoje, moldada em certo gosto "velho mundo" de oposição cidade/natureza, em que o ideal urbano conquista as almas brasileiras. Nenhuma surpresa, nisso. Só que, como disse, eu nasci, no "velho mundo". Aliás, meu país, longo, estreito e com uma presença "capilar" de cidades, cidadezinhas & vilarejos, é uma das metas do turismo internacional privilegiadas, exatamente por sua rica e linda história da arquitetura & do urbanismo. Assim, para mim, em contraste com isso, que é parte constitutiva de minha cultura e história, torna-se atraente a idéia da "grande fronteira", do horizonte sem limite, do espaço que, no limite, aparenta o vazio das marcas humanas.
E, diga-se de passagem, a Europa está um pouco decadente, em termos humanos. Meu país, constato com tristeza, vive "de renda" há quase 500 anos. Depois da grande praça de São Pedro, realizada na primeira metade do século XVII, apareceu o "bloqueio do antigo": nada mais foi feito, a criatividade estancou e o país, dominado ao longo de séculos pelos estrangeiros, fossem eles espanhóis ou austríacos, esgotou suas capacidades de "preservar vivendo sua atualidade" e só foi explorando por aquilo que já existia. Que não é pouco, certo.
Aliás, coisa interessante, o Estado Nação, em meu país de origem, é mais novo do que o Estado Nação brasileiro. Com efeito, o Brasil é de 1822, enquanto a Itália é somente de 1860. E são fortes as pressões separatistas, muito fortes, mas isso não aparece na imprensa brasileira e poucos sabem disso por aqui.
Mas não quero falar de Itália, talvez porque a leitura quotidiana dos jornais online me deixa pasma, entristecida e preocupada. Vamos mesmo falar de viagens em lugares que, para mim, fada européia (não tem mérito nisso, só o acaso do nascimento), representam, sim, o exótico distante....
Durante minhas viagens costumo manter cadernetas com as anotações do que fiz & vi. Vai, aqui, uma seleção do que fui anotando a caminho para e de volta da Mongólia (incluindo, assim, minha parada européia...). Dedicado a quem gosta de "viajar"...
Lisboa, 28/06/2010. Aeroporto. h. 14,30
Esperando embarcar para Milão. Última parte da viagem para começar minhas férias. Estou preste a encontrar meus pais. Se tudo der certo, iremos mesmo para a Mongólia. Tenho o desejo de que seja uma grande viagem. Tenho o temor de que possa ser a última dessa natureza "radical" com eles. Quero dizer que o tempo passa e ninguém fica mais jovem. Pensamentos nefastos, como nefasto é pensar, agora, no lugar de trabalho. Oh, Coisa inútil! Mas é bom anotar, mesmo assim. Colegas que chegam, colegas que vão embora. Hora de embarcar....

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MONGÓLIA


Amanhã vou viajar. Às onze e pouco da manhã vou para Moscou, onde tem conexão para Ulaan Bataar, na Mongólia. Obviamente, não vou ficar procurando cyberpoints nem nada disso enquanto estiver viajando. Nem na capital, nem, é claro, no deserto de Gobi, onde ficarei bem longe da civilização. Faz muitos anos que tenho esse desejo de visitar a Mongólia e, finalmente, parece que, dessa vez, vou conseguir chegar e visitar a terra de Gengis Khan, de Tamerlão o Grande, enfim, da civilização que obrigou os chineses a construir a Grande Muralha... Quem sabe, encontre Xanadu lugar onde, como escrevia Samuel T. Coleridge,
"In Xanadu did Kublhai Khan/ a stately pleasure dome decree/ Where Alph, the sacred river run/ through caverns measureless to see/ down to a sunless sea..."
Enfim, mais um lugar mítico que conseguirei visitar antes de morrer... Até agora, já estive em alguns desses lugares, sobre os quais, principalmente por razões literárias, paira essa aura mágica de lugar de mitos. Visitei as ilhas Galápagos, dobrei Cabo Horn, fui à Ilha de Nantucket (para quem não saiba, o lugar de onde saiam os navios baleeiros norte-americanos no século XIX. literariamente falando, a ilha de onde saiu o Pequod, o navio de Achab, em busca de Moby Dick...), passei por Macchu Picchu, passeei pelo Sahara... e agora, a Mongólia.
Boa viagem para mim, bom descanso para os poucos & silenciosos que, vez ou outra, se deparam com minhas palavras por aqui... Até o dia 22!
FdP.