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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

FOLHETIM: JOGOS INSENSATOS (cap.3)


E começa um jogo que B não sabe se e quanto sabe jogar, é como pisar em areias movediças e é notório que areias movediças não são gelatina colorida para crianças.

B senta na frente de A, sobre um banquinho baixo, as pernas abertas, e começa a provocá-la, perguntando o que ela quer.

Errado.

Não é assim que A quer que B jogue. Então, A intima B para tirar a roupa. Não a toca. Sentada, só a olha. B está nua na frente de A, nua e crua como a verdade, sem disfarce algum, e quer baixar seus olhos. Mas já não é tempo para pudores, falsos ou verdadeiros que sejam. Escolher brincadeiras assim impõe uma manutenção pouco comum das emoções. Será B uma trepidante donzela desamparada? Não, jamais! B resolve bancar a mulher vivida e sem vergonha. A olha para B, em silêncio, bebendo mais um pouco de vinho, depois a leva para o quarto. Explicando que agora vai amarra-la. Vai amarra-la e tampar sua boca. B vai ficar em seu poder. Não conseguirá se soltar, não conseguirá falar. Enfim, tudo bem, já que estão nesse ponto, continuam em frente, certo? B confessa a si mesma que não, não se sente particularmente excitada, está mais é curiosa. Em silêncio, A pesca de alguma gaveta um emaranhado de cordas. Aos olhos de B, parecem quilômetros de cordas. Muitas cordas mesmo. B começa a pensar que vai ficar que nem um roast-beef inglês, com todas essas cordas. Claro, pensa B, e depois vai me temperar e por no forno. B já não consegue mais levar o evento muito a sério. Sua bagagem literária refreia uma risada. Na verdade, B não sabe muito bem até que ponto A se dedique realmente a essa estranhas práticas ditas sadomasô. B considera que não deve ser muito experiente. A tal de experiência literária avisa B que se encontra no meio de uma brincadeira decadente, e não em um romance erótico do século XVIII. Enquanto isso, A já a prendeu, e B não consegue se mexer. Nem falar. Nem se desamarrar. A levanta, diz que está com sede, e deixa B deitada, sozinha debaixo de uma luz bem pouco aconchegante. Volta e começa a acaricia-la. B se sente estúpida. Por traz de tanta cenografia, olha o que encontrou: um sexo baunilha da pior espécie! B fica parada, nem saberia como reagir, ainda bem que está amordaçada, assim a risada não pode sair, ainda que tudo isso não passe de uma grande bobagem, não há razão para ofender A em seus gostos e preferências. Que, definitivamente, não são os de B.

Sexo baunilha com uma mulher amarrada desse jeito, fala sério! Vai ver algo transparece do olhar de B, de sua postura. Não demora muito, A também desiste. Começa a desamarrar B, os olhos baixos, um incômodo evidente nas palavras que saem de sua boca, meio atropeladas. Escuta, diz A, acho que não vai dar certo. Acho, diz, que é melhor deixar pra lá, você é uma mulher inteligente, e é melhor ficar por isso mesmo. B levanta, se veste e, em cinco minutos, já está do outro lado da porta, rumo ao carro dela.

Enquanto dirige, aliviada, para casa, B pensa na ingenuidade desse mundo, na ingenuidade de A, na curiosidade mais que satisfeita.

Pensa naquela tatuagem com o nome de C, marcando para sempre aquele braço e começa a rir, a rir, sozinha, noite adentro.

THE END!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

FOLHETIM: JOGOS INSENSATOS (cap.2)


Meia hora depois estão no lugar de A, um apartamento aconchegante. B, sentada no carpete, sinal de disponibilidade e submissão: está mais embaixo. A se senta no sofá, descalça.

A, safada, saca espelhinho, cartão de crédito, enrola uma nota de dez e mostra que tem nariz poderoso com o tempero. O aplomb de B é total, enquanto aguarda sua vez. O papo flui legal, livros, filmes, tudo que permite driblar os pedregulhos das intimidades, desagradáveis percalços no caminho da diversão.

Duas taças de vinho depois, doze litros de água depois, destemperando os resultados das atividades das membranas olfativas na fumaça downer de um matinho fragrante e perfumado, A encara B de frente.

Diz, faz tempo que quero te perguntar: topa um sexo sadomasô comigo? Sabe, penso nisso quando estou com C e quando estou sozinha, e estou cansada de pensar. Quero saber como seria com alguém como você

B consegue manter o rosto imperturbável. Como se todos os dias enfrentasse situações do gênero. Sim, claro, pensa B, levanto toda manhã, sabendo que vou encontrar meninas que vão me perguntar: hei, você, topa um sexo sadomasô?

Hã.

Claro. E o que, exatamente, significa: “alguém como você”? Como assim, como ela?

Claro o cacete, há muito nem sequer B recebe propostas de beijo na boca, que sexo sadomasô que nada! Quero dizer: não é a proposta que provoca um bloqueio à altura do diafragma, que se não tomar cuidado, B engasga e cai, fulminada, mas disfarça com o mesmo aplomb acima citado.

Até parece, que B é ingênua, quando vê uma moça cheia de piercings e tatuagens. O problema do susto é, com efeito, a tatuagem com o nome de C no braço. Por que cargas de água, se pergunta B, alguém que tatua o nome da namorada no braço vem me fazer uma proposta dessa?

Melhor não perguntar, evitando, assim, o risco de respostas indesejadas.

B sorri um sorriso de serial killer e enfia a cara na taça de vinho, ganhando tempo.

Oh, dúvida cruel! Topar e poder ficar com A, essa mulher maravilhosa em uma situação escabrosa, ou se negar e ficar só com água na boca? A carne é fraca, bem se sabe, e é fundamentalmente verdadeira aquela frase da sábia amiga D, que diz que “puxa mais um pentelho do que uma parelha de bois”.

B muda para um sorriso que espera sedutor, e fala com sua melhor voz roca que: sim, claro que topa.

sábado, 3 de outubro de 2009

FOLHETIM: JOGOS INSENSATOS (cap.1)

INTRODUÇÃO:

A ficção, mais uma vez, me espanta & me encanta.

Escrevi mais um conto, e testei se funcionava, literariamente falando, propondo sua leitura a várias pessoas amigas.

Mais uma vez, a FdP recebeu perguntas desnecessárias (já que avisei tratar-se de um conto, de ficção pura e simples, de invenção, de produto de fantasia) sobre o quanto constava de verdadeiro nele.

Resultado: estou preocupada com o que será de minha reputação “publicando” essa INVENÇÃO no Blog.

Por outro lado, porém, declaro-me muito satisfeita em perceber o poder de VERACIDADE de meus impulsos literários: com efeito, a curiosidade um pouco “perversa” das perguntas recebidas me faz pensar que não está mal escrito, se todos os leitores, até agora, ficaram na dúvida sobre alguém realmente ter vivido essa historinha...

Gente, é sério, nada de pensar que um conto, que nem chega a ser erótico, seja mais verdadeiro do que, sei lá, “O senhor dos anéis”, em que todos os machos se matam para botar um dedo no anel (no filme todos têm mãos sujas e unhas quebradas... Nojentinhos...), somente porque ambientado em lugares que poderiam ser nossas casas ou porque algumas situações são plausíveis...

FUI CLARA? Fiction is fiction, e não aceito censuras, pois

QUANDO EU CRESCER, SEREI UMA ESCRITORA CAPAZ DE VIVER DE SUA ESCRITA!

CONFESSO: Um pouco fiquei brava, com essa “abordagem” de leitores querendo saber quem é quem e quem fez o que... se esse conto estivesse em um livro com escrito na capa “contos” ninguém ficaria me atazanando...

JOGOS INSENSATOS (cap. 1)

Eu gosto, disse A, de torta quente de maçã com sorvete.

Eu não, respondeu B. Gosto deles separados: torta de maçã de um lado, e sundae do outro.

Por que separados? Pergunta A.

Para que desenvolvam ao máximo suas potencialidades antes de se juntarem em mim, responde B.

A ama C. B se finge solidária, bancando a cruel. Mesmo porque parece tudo uma grande brincadeirinha. B faz santinhos, rezando pelas palavras abandonadas e os livros abandonados. Reza para que C não caiba no dia nem na noite de A.

B está entre a Maga Patológica e Cassandra, a Infausta, enquanto dispensa conselhos sentimentais baratos e oferece seu ombro desnudo para as lagrimas de crocodilo que despontam nos olhos de A. Finge ficar fora do caminho, com a evidente má vontade de quem não tem a menor intenção de ficar de fora do caminho. De regra, B não gosta de mexer com quem se apresenta “em forma de casal”. Mas A está dando um mole danado para B, e B está em abstinência há um tempão. Não é que, pelo fato de trabalhar com as palavras, arranjando-as para ganhar seu pão, a carne de B tenha sumido. As palavras são, para B, tudo. O que seria de B, sem palavras? O alfabeto é uma máquina com menos de trinta sons que, combinados, compreendem o universo inteiro e determinam sua existência.

Se B pudesse esbanjar tempo e riqueza...

Provavelmente seria um macho alfa.

Porém, B não tem riqueza. Porém, B não perde seu tempo.

B é uma mulher pragmática, mas ainda vive sua vida como se o que faz pudesse sobreviver ao dia em que foi feito. Bobagem. “Esse pensamento se auto destruirá em trinta segundos”.

B faz pelo menos três coisas ao mesmo tempo: olha para A; levanta seu copo de cerveja; considera como sua vida ande se esgarçando, tornando visíveis trama e urdido.

B se sente síntese, santa encenação das indesejadas felizes de sê-los. Das que brincam sozinhas e acompanhadas, mas sempre brincam com seriedade e afinco.

B gostaria de organizar uma procissão com velas, cantos e musicas desafinadas e incompletas. B está sujeita a ser excomungada, processada, castigada. Sabe que deve se policiar, pois está com vontade de gargalhar em voz alta, sentar de pernas abertas em público e comer, falando alto e xingando sem vergonha, invocando as piores divindades com oferendas de álcool, drogas e diversão.

Eis a pergunta que se cala, quando, subindo do plexo solar esbarra no paladar de B: Por que você, A, está aqui, sentada comigo, falando da outra que te traiu?

Escuta, diz A, está a fim de temperar a noite?

Por que não, responde B, gosto de temperos e especiarias.

Então, vamos para a minha casa, propõe A. Tenho temperos gostosos.

Que tal pararmos para comprar um vinho? Sugere B.

(To be continued...)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

FOLHETIM EM UM CAPÍTULO SÓ.

Gente, já me encontrei na constrangedora situação de ter que explicar que "CONTO É CONTO", não é relato de vida! Fazer o que? Ficção é ficção, e eu gosto de inventar contos!
Quem quiser ler, que leia e que viaje, e se gostar, que leia mais, que a ficção faz bem à cabeça da gente!!!

Sábado, noite. Está na hora de ir, sair, se divertir. Mulheres, me aguardem, pensa na frente do espelho. A cidade é um território de caça. As mulheres estão lá fora, só precisa se arrumar com a roupa certa para a caçada. Arruma o cabelo, parece um iguana, com a crista cheia de gel, piercing nas orelhas, piercing no nariz. Parece o cow-boy da terra de Marlboro. Parece, parece, até parece. Camiseta branca, manga curta, enrolada, tatuagem a vista no bíceps, calça jeans e botinas, ultimo controle, um beijo para si mesma e a porta se fecha, deixando os medos em casa. De alma mais leve, na calada da noite.

A bicicleta entre as pernas, pedala rápida, excitada. Só mulheres, mulheres, já se imagina cercada por figuras etéreas, elegantes, vozes e risadas, perfumes e curvas. Chega logo, chega logo ao local. Nome do local: “O interior da Picanha”. Tosco, eu sei, mas fazer o que?

Quer mulheres que te querem?

“O interior da Picanha” é onde elas estão. Coisas da cidade. Pouco românticas na aparência, espera-se melhoras na substância Afinal, não é o nome que importa, certo? Desce da bicicleta. “O interior” está aberto, um fio de fumaça já alerta que os espetos estão no fogo. O cheiro é enjoativo, verdadeiro filé miau, mas a brisa está a favor de quem encosta no balcão. Lugar vazio.

A moça do bar: novidade que sorri e coloca um chopp na sua frente. Olha em volta: ainda é cedo, espera-se que a amostra não seja significativa: uma mesa ocupada por um grupo de bulldykes já no numero X da cerveja. Risos roucos de cigarro. Bem que ela um pouco as inveja: elas arrasam com as héteros, que tão héteros não devem ser, mas aí, também é muito complicado, para seus sonhos, ficar pensando em tudo isso... Ela só quer um corpo quente que queira se sentir melhor junto ao seu.

Mais um chopp, a garçonete novata sorri e oferece um cigarro. Distraída, agradece, enquanto checa a entrada. Algumas conhecidas, sorrisos distantes, e aquela moça, puxa, acha que um dia a paquerou, mas nunca esteve tão certa, então não arriscou e agora a moça namora a Fulana que já foi namorada da Beltrana... Tristeza, nada de novo. A musica também não ajuda, meio óbvia e lamurienta, com expressões requentadas, e nada requintadas, de dores infindáveis de cotovelos.

Mais um cigarro, mais um gesto distraído para a novidade no serviço: moça linda, de sorriso aberto, profissional no trato, super fashion... deve ser a namorada de alguém, pensa, a máfia lésbica da cidade não deixaria uma belezoca assim trabalhando nesse lugar sem “proteção” especial, alguém ciumenta e grande em tamanho deve estar vigiando. Uma namorada que regula os sorrisos e os papos possíveis. Ufa.

A noite de tanto entusiasmo já não é mais a mesma, parece que os vapores grudentos do filé miau já impregnam até pensamento. Pensa: “gracinha”. Pede: mais um chopp. Só pelo gosto de vê-la se mexer, de sentir a sua atenção, sobre a pele. Ainda que profissional. Ahi ahi, a noite não está com nada, era outra idéia, de encontrar um milagre...

Mas um milagre no “Interior da Picanha”, bom, somente nos sonhos, e esta é realidade, esta é a cidade, e a musica é de beber mais e as mulheres já estão acompanhadas, e as que não estão, meu deus, nada a ver com ela, não gostaria de encontrá-las sozinha em um beco escuro... Por quanto atire poses de moderninha, ela é nativa da cidade, o que implica em uma dose maciça de idéias muito erradas sobre quanto a aparência coincide ou não com a realidade, como já deveríamos ter entendido na identidade entre o nome e o ambiente desse barzinho chamado “O interior da Picanha”. Como dizia o Barão de Itararé, de onde menos se espera é de lá que não vem nada... Um dia vai aprender, mas não hoje, não, hoje só queria... mais um chopp. E já perdeu a conta, a cabeça fica leve e um certo enjôo já toma conta do aparelho digestivo. Levanta os olhos e “gracinha” sorri, compreensiva, e coloca um copo gelado de Coca e limão na sua frente.

Maravilha de profissional, pensa, ligada sempre no freguês. Com os olhos semi-cerrados para governar os chopps que ameaçam subir até as orelhas, admira o gingado da moça que se afasta lépida em direção oposta. “Gracinha” é bonita sim, quem será a sortuda que atualmente governa e/ou é governada por tanta graça?

As horas passam, talvez transitem, mas nunca vão voltar e, aos poucos, o lugar se esvazia. Só sobram ela e as garçonetes, que retiram mesas e cadeiras, que trancam as portas e desligam as luzes. Encostada no balcão, pergunta-se como conseguirá manter a dignidade no momento em que abandonará o banquinho que a sustenta. Aliás, quase quer perguntar se pode ficar aí para dormir. Percebemos, aqui, o quanto está bêbada, não consigo imaginar como vai pegar a bicicleta e chegar em casa, parece que “gracinha” também tem as mesmas minhas dúvidas, as nossas dúvidas e, com aquele gingado, com aquele sorriso, uau, se aproxima e a segura pelo braço, enquanto a ajuda a seguir pela porta. Ela se apóia, bêbada, oh, quão bêbada está, sente o calor de “gracinha”, que tem um carro, portanto sabe dirigir, mas não pergunta para onde, e dirige na noite da cidade, e ela quer que isso não acabe, ah, está muito bom, o vidro aberto, o ar, se sente bem melhor. Mas isso acaba sim, senhoras, e chegam, e nós com elas, à casa de “gracinha”, é escuro e não consegue ver como é a casa, deve ser bonita, mas só quer um Sonrisal, uma água tônica e deitar com ela ao seu lado.

Estranho é que não chega a dizer nada disso, pois tudo está acontecendo desse jeito. Como: “está acontecendo”, nem falei, mas ela está tirando minha roupa, pensa, e eu estou tirando a dela, e esta pele macia, e este sabor gostoso, e suas mãos que buscam, e minhas mãos que encontram, e de repente, feliz e satisfeita adormece e esquece.

Manhã. Abre um olho, abre o outro e não sabe muito bem onde se encontra. Mas seu esquecimento é rápido, já voltou tudo e enquanto tudo volta, “gracinha” acorda e sorri, a beija, levanta e faz o café. Com a bandeja na mão, chega, muito profissional e, sorrindo, pergunta: “Aposto que você nem sabe meu nome, não é?”.

Ela baixa o olhar, o sangue sobe às faces e, em um sopro, responde: “Não”.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O GRANDE ESPETÁCULO.

Senhoras e senhores:

Tomai seus assentos. Em seus sofás ou poltronas favoritos. No banco do parque ou na cadeira da praia. Muni-vos de suas bebidas preferidas, chá, café ou cerveja que seja. Preparai-vos um prato com seu lanchinho gostoso. Dêem-nos seus olhos e seus ouvidos. Porque esta, senhoras e senhores, é a assustadora & tenebrosa

MULHER QUE MORRE TODA MANHÃ.

Sua execução sempre é marcada no mesmo horário. Pela manhã, às 5, como todos os dias, os guardas destrancam a porta de pesado metal. Ela vai ouvir o ruído da tranca pela última vez, mais uma vez. Será levada para fora, dois homens na frente, dois homens atrás, marcando seus passos como uma marcha temperada pelo tilintar das correntes.

As mãos acorrentadas, os pés acorrentados, rumo àquele muro onde todo dia, há mais de um século, seus olhos são vendados. Depois, com uma ordem seca, os fuzis disparam. Ela cai, devagar, até não existir mais.

O corpo será recolhido em uma maca estreita, coberto por um lençol e levado de volta à cela. Cela onde, com o por do sol, abrirá novamente os olhos. De novo, ao anoitecer, os guardas levam uma bandeja de comida farta, sua última ceia solitária. Mais uma vez, será a última.

Senhoras e senhores, não tem truque, hoje o grande circo elétrico vais mostrar novamente todos os passos dessa mulher. Um reality-show de grande sucesso: na cela várias câmeras permitem que vocês observem todos os movimentos da última noite dessa condenada. Com o simples gesto do controle remoto interativo, vocês podem aproximar detalhes ou manter uma visão mais geral do espaço.

Podem observa-la enquanto conta as horas que faltam para sua execução. Podem concentrar seus olhares sobre o cobertor puído, ou sobre as trincas do piso de concreto. Se preferirem, podem se deleitar com as grades enferrujadas da janelinha pela qual ela não pode olhar, pois é alta e estreita. O beliche onde ela deita range, e com o ajuste do áudio vocês poderão até criar uma atmosfera sensual. Tudo é possível, nesse nosso maravilhoso circo elétrico.

Público gentil, talvez vocês se perguntem: qual é a razão dessa mulher ser incapaz de morrer? Muito bem, estamos aqui desejando sua diversão e tranqüilidade, e é com grande prazer que respondemos a essa sua pergunta. A razão dessa maravilha reside em um fato simples e, todavia, de grande complexidade. Essa mulher possui certificados de imortalidade assinados pelos maiores luminares da ciência e da medicina, membros das Reais Academias científicas de Noruega, Suécia e Dinamarca. Mas também de Lichtenstein, de Andorra e Monte Carlo. Todos os estudiosos, cientistas e médicos concordam: essa mulher não pode morrer porque ela, senhoras e senhores, é uma aberração da natureza, uma criatura única. Ela, senhoras e senhores, possui uma pedra no lugar do coração. Pois bem, público estimado, onde vocês poderiam ver criatura tão monstruosa, mulher sem barba nem bigode, de aparência comum e, ao mesmo tempo, tão incrível e digna de exposição aos olhares do mundo, aos seus olhares, pela misera quantia de uma mensalidade irrisória? Sim, senhoras e senhores, aproximem-se às suas telonas e telinhas portáteis e observem, mais uma vez, a mulher do coração de pedra, que morre todo dia por não possuir um coração de carne, cuja condenação é sobreviver todo dia à mesma morte. Não, senhoras e senhores, não cubram horrorizados os olhos de seus filhos, pois esse nosso espetáculo grandioso é levado até vocês como uma preciosa lição cheia de moral para rapazes e raparigas, para adultos, crianças e idosos: uma mulher com uma pedra no lugar do coração só pode ganhar sua vida nesse fabuloso mundo do circo elétrico, graças aos seus olhares curiosos e suas generosas carteiras. Uma mulher com uma pedra no lugar do coração só pode viver morrendo por vocês, hoje, amanhã, pelo resto dos tempos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A VINGANÇA DE EVA. CAPÍTULO FINAL.

Último capítulo! E a foto da jararaca é de verdade (espero que seja uma jararaca, ou levei um susto à toa!).

Eu não me deixei tentar por ela. Ela me deu respeito e eu escolhi sair da prisão. Ela me ajudou, só isso. Eu já queria saber, eu já queria saborear o que ela possuía desde o começo. Aliás, ela foi muito clara em me alertar que uma escolha como essa, de desobediência radical, teria conseqüências também de ordem psicológico, para mim. Ela me contou que ser tratada como um demônio, obrigada a viver sozinha, porque lá fora não tinha nada e ninguém, desprezada pelos anjos não era uma vida boa. Argumentei que, se o Pai resolvesse me punir me mandando embora, então seriamos duas, eu e ela, e o problema de ficar sozinhas não subsistiria. Além do mais, comendo o fruto, teria também a sabedoria, e assim poderíamos elaborar teorias, cantar poemas belíssimos e conhecer as estrelas e discutir apaixonadamente do mundo e, se realmente era tão mais feio do que aquele jardim infernal, o conhecimento nos forneceria os instrumentos para transformá-lo. Sorriu e me abraçou, e deitadas na grama exploramos todos os cheios e os vazios de nossos corpos e depois, cansadas, adormecemos. Foi assim que você nos encontrou. Você levou um susto danado. Bobo e incapaz de tomar atitudes de adulto, moleque birrento e violento, dominado por teus instintos, me ver duplicada nos braços dela, vê-la duplicada em mim, te deu tesão. Oh, homenzinho obcecado! Abrimos os olhos ao mesmo tempo e te convidamos a se juntar a nós. Você foi enredado por nossas pernas e braços, nós dominamos tua vontade. Não foi um grande esforço, tua vontade é fraca mesmo, quando você está tomado pelos sentidos. Nós estávamos satisfeitas, nós éramos duas, mas com uma mesma vontade de vingança. Conhecíamos teus pontos fracos. Quando você se apercebeu que éramos uma única mente, que nosso poder tinha duplicado, e reparou nos nossos corpos encaixados um no outro, e percebeu que você não passava de um acessório, enrubesceu feito uma mocinha e foi buscar umas folhas para nos cobrir. Rimos de você, quando colocamos aquelas folhas ridículas e brincamos de esconder e revelar: você nos ofereceu um disfarce, e obrigamos você também a usar esse tapa-sexo verde. Aí, você viu que nossa conversa, nosso envolvimento não te incluía, que você jamais teria feito aquilo, que era gostoso, mas proibido: ela era tua inimiga, você lembrou. E pensou que tinha me roubado de ti. E gritou de raiva e de dor. Depois, ela deslizou rapidamente pelos galhos da macieira, e eu também pulei a cerca em volta dela, agarrando uma maçã com a mão. Ela, ameaçadoramente, ondulava na tua frente, sibilando. Você, com medo dela, ordenou que eu voltasse, mas eu nem te respondi. Você gritou e esperneou, mas não ousou se aproximar dela, de mim. Levantei a mão, desafiando-te com o olhar e mordi o fruto suculento e saboroso. Senti meu sangue correr mais rápido, mais quente. Vi, em um único instante, o começo e o fim, a vida e, finalmente, aquilo que não temíamos, porque desconhecida, e assim você não lhe dera um nome, mas fui eu, eu que a nomeei, o único nome que eu dei a algo, foi a ela, e a chamei de Morte.

Mais uma vez, a vaidade te cegou. Você sofre mesmo de um terrível complexo de inferioridade, viu, Adão? Sentiu que eu era corajosa, forte, destemida, muito mais que você, e o fato de eu ser algo mais que você te encheu de ira: agarrou o fruto que eu tinha na mão e, para mostrar que você fazia também, e melhor, abocanhou um pedaço muito grande, que engoliu sem mastigar, engasgando para sempre. Bem feito, bonitão! Ela riu, me olhou com amor imenso, disse estou sempre em você, e desapareceu entre os galhos.

Você estava sufocando, começou a tossir, tossiu, tossiu e o Pai, é claro, ouviu e baixou e bateu nas tuas costas, livrando tuas vias aéreas, depois olhou para mim com rosto severo e perguntou quem fora. Deu medo, deu muito medo, dava para ver que estava irado, os trovões enchiam o ar, que escurecera como para uma grande tempestade. Mas eu sabia, sabia que não era o momento de me acovardar, que era minha chance, apesar do medo horrível que tomara conta de mim, e de você também, pois você também chorava, e tremia feito uma folha no vento e era branco feito uma pedra de sal.

Claro que você apontou para mim, o que esperar de você, seu dedo duro? Mas eu já admitira minha responsabilidade. Só que, na tua imensa estupidez, em um gesto de vangloria, você também comera, aliás engasgara, você não resistiu à tentação de demonstrar sua superioridade.

E isso não estava em meus planos. Quero dizer, que você também se ferrasse, tendo que sair do jardim
comigo. Nenhum plano é perfeito. Eu consegui sair, mas tive que aturar você também do lado de fora. Queria me livrar de você e do Inferno que criara para mim em seu Pequeno Paraíso, mas esse Inferno grudou em mim com teu semblante, e as coisa ficaram ainda piores. Piores porque agora, além de te aturar, tive também que começar a ralar para sobreviver. E você, considerando-se uma vitima, um inocente, ou culpado somente por reflexo, descontou sobre mim sua frustração e disse que era minha culpa, e que eu, agora, teria que pagar pela perda que você sofreu. Que a terra era um Inferno, e eu expiaria minha culpa na obrigação de torná-lo um lugar menos desprezível oferecendo meus serviços. Tudo isso, depois daquele anjo metido nos perseguir com aquela estúpida espada flamejante. Muito efeitos especiais, para duas criaturas tão fracas!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A VINGANÇA DE EVA. CAPÍTULO III

Devido ao comprimento dos episódios do folhetim, resolvi esticar mais um pouco.... semana que vem é o último episódio mesmo... Tem mais graça, com um pouco de suspense! Lá vamos nós, com o terceiro episódio de A Vingança de Eva:


De longe ouvi tua voz reclamando minha volta, você estava com fome. Sabia que depois teria que abrir as pernas, e fechei os olhos, sentindo o corpo frio e escamoso deslizar para longe.

No dia seguinte fiz boquinha e implorei você para ir catar coquinhos. Pedi permissão para ir até a cachoeira escura, que ficava um pouco distante, para lavar meus cabelos nas suas águas. Eles ficavam macios e fragrantes, e você gostava, atiçava tuas vontades, eu sabia que ia dar a permissão para eu ir. E eu precisava de você distante, para me encontrar com ela, para me encontrar novamente. A cachoeira escura é um lugar do qual tenho muita saudade, uma das coisas que sinto ter perdido e que faz uma falta danada, que dá um nó no estomago.

Fui para lá e entrei na água. Pela cortina de gotinhas a vi se aproximar devagar, deslizando dentro da água. Vi suas cores na matéria cristalina, até desaparecer no vórtice da queda, onde as águas se tornam brancas. Emergiu, ao meu lado, e me abraçou, e era eu, duas vezes, sob a queda. Me conhecia, como eu me conheço. A conhecia, como eu me conheço. Senti, pela primeira vez, sua pele fria contra a minha, senti calafrios no contato. Senti, pela primeira vez, sua boca macia sobre minha boca macia. Nos tornamos amantes de nós mesmas, debaixo da cachoeira escura. Gozei, quando me pegou, gentil, todavia firme. Gozou, quando minha mão explorou o calor entre suas pernas. Depois, silenciosamente, voltou às águas e desapareceu.

Na volta para casa cantei e cumprimentei árvores e animais, sorrindo sem esforço pela primeira vez, depois de tanto tempo.

No dia seguinte o Pai nos visitou, perguntando se tudo estava bem. Você se encheu de orgulho quando contou que tinha chegado a contar duzentos e sessenta carneiros. Contou que encontrara um pássaro novo, e que tinha certeza que teria um grande futuro. Você disse acreditar que, por sua estrutura, era destinado a ser um dos pássaro dominantes e o nome que escolhera para ele fora Dodô. Que nome mais estúpido, pensei, mas baixei a cabeça para não revelar meu olhar irônico. Você conhece o Pai: parece que sempre sabe de tudo, e tive essa impressão quando, na despedida, me olhou um pouco mais demoradamente do que costumava fazer, diretamente nos olhos. Cuide-se, me disse. Só isso. Estremeci. Você sabe, o Pai parece que está sempre a par de tudo. Mas não disse mais nada. E passou um tempo, antes que eu conseguisse fugir um pouco de você. Ficar sozinha. Encontrá-la novamente. Quem sabe, ouvir sua voz, que seria a minha. Consegui, enfim, me desvencilhar de você, graças à tua nova descoberta: aquele fruto, que você chamara de uva, tinha fermentado em um canto côncavo de uma gruta e você tinha experimentado aquele liquido. Você gostou e bebeu tudo. Começou a falar, cambaleando, e queria me prender, você estava se tornando violento, mas tropeçou, caiu e adormeceu, roncando alto. Corri para fora, aliviada, e fui para a grande macieira proibida. O Pai tinha alertado que podíamos (podíamos? Você podia!) fazer tudo, tudo que queríamos. Mas nunca, nunca comer aqueles frutos. Cuja aparência era, como é de se esperar, tentadora. Nenhuma outra macieira dava frutos tão coloridos e ricos. Durante a florada era a árvore mais carregada, mais intensa. Enxames de abelhas a cercavam, e pássaros, os mais bonitos. Sempre me atraíram suas peculiaridades. Você, você não. Não gostava dessa árvore. A ordem do Pai se transformara em um temor absoluto que te impedia de enxergar sua beleza. Você não gostava sequer de passar por aí. Eu já tinha apanhado de você, um dia que me encantei na frente dela, e você veio me procurar e quando viu onde estava, você me socou nas costelas e no rosto, e fiquei por dias com um olho tão inchado que nem conseguia abri-lo. Corri, então, para lá, porque sabia que ela também amava aquela macieira, porque éramos duas, sim, mas também o Pai tinha me criado com as mesmas feições. O que mudava era que ela, quando recebeu o primeiro tapa, revidou, revidou feio. Se negou. Xingou, gritou e tacou pedras em você. Argumentou com o Pai, também. E saiu desse Inferno. Isso, sim, era um lado interessante da situação. Ela estava ali como imigrante ilegal. Se o Pai soubesse que tinha entrado, sai de baixo! Ia sair uma trovoada como nunca se ouvira! Estava lá, ela, sim, estava, enrolada na macieira, tentando alcançar um dos frutos mais bonitos. Quando me viu, desceu em elegantes espirais pelo trunco e, tocando o chão, já tinha meu semblante. Ou, melhor, eu tenho o semblante dela, pois quando você pediu ao Pai para ele me criar para ser teu brinquedo, pediu também para me dar aquelas mesmas feições que já foram as dela. O gosto de tripudiar sobre alguém que tem o mesmo rosto de quem desobedeceu deve ser ainda maior, imagino eu. Você se iludiu, na imagem dela que era eu, de poder domina-la através de mim. O que nem você nem o Pai pensaram foi que essa semelhança se tornasse identidade. Identidade de princípios, de desejos e de ação. Sei que você continua convencido que eu não sou uma criatura suficientemente autônoma e inteligente e que, portanto, sou incapaz de entender e querer, enquanto a inteligência dela você não pode negar, pois além de criada ao mesmo tempo tinha tuas potencialidades. Teu primeiro e verdadeiro amor, apesar do ódio que você sentia, merecia maior respeito do que eu: você lhe atribuiu o poder de me desvirtuar. E me chamou de fraca. Ainda não sei se você é ingênuo ou bobo mesmo.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

A VINGANÇA DE EVA. CAPÍTULO II



Mas eles continuavam sem sexo. E o teu corpo, moldado na matéria mais vil e inerte, a lama, clamava por outras satisfações que as pobres criaturas nobres não podiam realizar. De novo, você foi reclamar com o Pai. Como ele respondeu que você já teve uma chance e não deu certo, você argumentou com ele com as habilidades recém adquiridas dos anjos: aquele linguajar habilidoso que convence com elegância. Você se tornara muito bom, com as palavras. O Pai sorriu indulgente e cedeu, ao filhinho mimado, mas tão inteligente, tão bom de logos, que se parecia mesmo, nisso, com Ele. O Pai é vaidoso, fica se regozijando na confirmação de suas habilidades, em ato de eterna congratulação consigo mesmo. Enfim, não é por isso que criou as hierarquias mais altas de alados? Afinal, o que mais os serafins ficam fazendo? Emanações que ficam bajulando pela eternidade o Pai e sua criação. Vai vendo, cada um se diverte como pode! Você, se parece com ele nisso, também. Têm mesmo lados da criação “à imagem e semelhança Dele” que deram certo. Ah! Triste cegueira, essa dos pais! Nunca se sabe se eles desviam o olhar sobre os aspectos ruins do caráter de seus filhos por preguiça, por descaso o porque preferem fingir que o que viram foi engano, seus filhinhos não são assim.

A cegueira da paixão do criador por sua criação: sabemos que é imperfeita, mas gostamos de acreditar que não o é. Lembre-se de quando, depois, você não quis enxergar os problemas de ciúme entre os gêmeos. Depois ficaram me xingando secula secularum por ter criado o primeiro criminoso.

Adão: nossa vida selou o destino humano. Tudo, a partir de nós, se tornou uma infindável soap-opera. Inclusive com os mortos que voltam. Mistérios da fé. Uma soap-opera para alegrar o Diretor? Velha teoria: então o Pai seria uma senhora aposentada que passa o tempo inteiro no sofá rindo, chorando e torcendo para a telinha da tevê.

Se assim é, então no roteiro o Pai pensou em uma solução aparentemente definitiva para tornar inesgotáveis as variações sobre o tema de suas ontologias: uma nova companheira para satisfazer as necessidades da tua lama.

O Pai era inteligente, e entendia que essa criatura tinha que ser geneticamente compatível. Te anestesiou, retirou as células estaminais, manipulou um pouco para que fosse fêmea, porque você resolveu ser heterossexual, e quando você acordou, lá estava eu. O Pai ficou satisfeito, você agora tinha um brinquedinho novo. Aos olhos dele eu nunca passei muito disso, nunca me amou como ama você. Não tem jeito, por quanto possa ter me esforçado, nunca mereci muito mais do que um afeto distraído. Enfim, em tudo isso, lá estava eu, com tuas mesmíssimas habilidades, pois era você na essência da matéria. E não só isso: era você porque as habilidades que os anjos te ensinaram eu as absorvi com a própria essência vital retirada de você, também faziam parte de mim. Não sei se o Pai fez isso de propósito, para me dar alguma chance ou se, cegado pelo furor criador, acabou esquecendo desse particular. O que vi foi que você acreditava possuir, agora, o brinquedo perfeito, algo que podia tratar como bem entendesse, mas ao qual não devia satisfação qualquer, nunca. Você pensou, e pensou muito errado, que eu era sua propriedade, uma mulher submissa que não enchia teu saco, a tua disposição sempre e para a satisfação de todas as tuas exigências.

Eu, recém criada, vi que você era mais alto, mais forte e, por ter nascido antes, mais experiente e, ingênua, me dispôs a aprender. E aprendi logo, sim, senhor.

Aprendi logo que era melhor ficar calada. A primeira vez que você ficou irritado foi quando eu perguntei alguma coisa, sei lá o que, acho que era algo sobre o nome que você dera à girafa. Isso mesmo. Você estava de lua, levou a mal minha pergunta, virou enfurecido e me mandou calar a boca. Assustada, perguntei por que, e você me deu um empurrão, me virou e me deu um murro nas costas que me tirou o fôlego. Você mostrou o que achava mesmo, que era o meu dono e podia me tratar que nem os bichos em volta. Eu fugi, chorando, implorando pela ajuda do Pai, mas ele estava muito ocupado estudando suas novas invenções, buracos negros, anãs brancas e gigantes vermelhas. Não tinha tempo para essa criatura que criara para satisfazer os caprichos do filho. Então, me escondi no meio das árvores, onde adormeci, com o soluço preso entre a garganta e o peito. Estava ainda com os olhos molhados de pranto, quando acordei. Não tinha ninguém, literalmente, a quem recorrer. Não tinha ninguém, fora você. Que estava me procurando, porque me ver apanhar, chorar e fugir despertara teus sentidos. Quando você me encontrou, me retrai. Você tentou me amansar com palavras gentis. Pediu desculpas mil vezes. Se ajoelhou na minha frente. Deu cambalhotas para mostrar que não tinha nada a temer. E colheu uma flor para por entre meus cabelos. Falso.

Minhas costas doíam pelo murro recebido. Estava com tanto medo que me retrai de você. Depois, você perdeu novamente a paciência e me agarrou pelos cabelos, puxando com força.

Me jogou no chão e me estuprou, como um animal.

Depois, deitou ao meu lado e me contou o que tinha acontecido com a Outra.

Aquela que não obedecia. Disse que se eu não quisesse acabar como ela, sofrendo lá fora, sozinha com os demônios, devia me submeter, obedecer e ficar calada.

Daquele dia em diante, aprendi a agradar. Sorria, ainda que meu rosto ficasse doído em uma careta contraída. Deitava quando você mandava e respondia somente quando perguntada.

Virei a mulher modelo.

Você estava muito, muito satisfeito. Vez ou outra o Pai passava por aí e te perguntava como iam as coisas e você, muito feliz e à vontade, respondia que se sentia em um Verdadeiro Paraíso. Melhor não podia ficar. Você dizia que só tinha a agradecer por sua vida maravilhosa. O clima era perfeito, a comida farta, a mulher gostosa, obediente e disponível.

O Pai também me perguntava como iam as coisas. Teus olhares eloqüentes atrás dele tornavam minhas respostas aquelas desejadas. Um mundo perfeito. O teu mundo. A outra metade, a minha, era parte da perfeição alheia, a tua, sem gozar da própria. E, acima de tudo, sem esperança de mudar a situação nunca e jamais. Certo, havia momentos em que as coisas não iam tão mal, momentos de certa maneira agradáveis. Mas quando eu saia da linha, eis que tua mão caia pesada.

Foi por isso, meu bem: você nunca se perguntou que vida de merda eu levava, pois a tua era perfeita. E eu, sem alternativa. Pelo menos, assim acreditava. Até que um dia ela entrou, disfarçada.

Você não gostava de todos os animais que nos cercavam. Resultados das brincadeiras do Pai, havia de tudo, de mamíferos a répteis. E desses, em particular, você tinha asco. Sabe-se lá porque, o fato é que você sempre teve uma idiossincrasia com esses bichos. Também não estão entre os meus favoritos, mas eu tenho asco bem maior das pombas, aves nojentas que cagam e esvoaçam próximas demais. Enfim, quando tinha uma cobra ou um calango por perto, você caia fora. E foi assim, que ela entrou e se aproximou de mim: porque você não estava por perto para me vigiar.

A primeira vez você viu a cobra se aproximando, levantou e me disse que ia contar os carneiros. Eu sabia que isso significava que logo você adormeceria e dormiria por algum tempo. Quando você conta carneiros não agüenta muito. Catar coquinhos, por outro lado, te apaixona, eu acho que é uma grande asneira, mas como você se deleitava em faze-lo, eu frequentemente te convidava a ir catar coquinhos, rindo secretamente de tua estupidez. Darling, demorou anos, antes de você perceber que eu estava te xingando! Então: você viu a cobra e foi embora. Eu fiquei deitada à sombra da laranjeira, chupando laranja, feliz em te ver ir embora. Estava entediada. Tinha tanta coisa que queria saber, conversar, e a nulidade que você representava ao meu lado estava satisfeita, obrigado, quero continuar tão besta como era no primeiro dia. E aqueles tesouros que os anjos te ensinaram, que eu possuía na carne que o Pai tirou de você permaneciam em mim sem expressão, como uma pressão, uma opressão dolorida na barriga. Como depois diriam as gentes: quem tem pão não tem dentes. Os anjos não falavam comigo como com você, pois também tinham se acostumado a me ver como teu apêndice, teu brinquedo de estimação, tua propriedade. Todos estavam convencidos que minha mansidão, minha submissão eram inatas ou, como diriam em outros momentos, genéticas. Que minha docilidade decorria da mão habilidosamente criadora do Pai. Somente eu sabia que era tudo uma grande mentira e, para falar a verdade, estava muito cansada desse Inferno em que o Pai e você me colocaram. Qualquer coisa, para fugir.

E ela entrou e rastejou na grama, e se enrodilhou ao meu lado. Fiquei parada, para não incomodá-la. Observei suas escamas, brilhantes, coloridas, luzentes sob o sol. Eu, como você, tinha a faculdade de falar com os animais. Raramente a usava, pois você se incomodava, seu egoísmo lingüístico se tornara vaidade fútil do “eu posso ordenar que você não faça”, e eu obedecia na frente de você, que estufava o peito. Mas quando estava sozinha, tomava minhas liberdades e conversava com o que eu queria. Elogiei suas cores e brilhos, e ela pareceu satisfeita com minhas palavras, ondulando de leve a cabeça e mostrando a língua vibrante. Levantei a mão para acariciá-la e ela se estirou, apoiando a cabeça sobre minha perna. Ficamos assim um tempo, ela apoiada, eu acariciando-a. Em algum momento meus sentidos devem ter se confundido, quando percebi que estava cercada por um nevoeiro sutil, quase material, inédito na paisagem conhecida. E o que estava acariciando era a cabeleira de uma moça da minha idade, com os mesmos meus traços no rosto. Minha mão tremeu indecisa e ela abriu os olhos. Os meus. Era como me olhar em uma poça de água, pois seu rosto parecia flutuar em ondas leves. Me olhou e sorriu. Sorri. Sabia muito bem quem era. Estava feliz. Tinha me encontrado.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A VINGANÇA DE EVA. CAPÍTULO I


UM FOLHETIM EM TRÊS CAPÍTULOS.

Uma produção de ficção em três capítulos, para alimentar a curiosidade (sempre um pouco mórbida) de quem gosta de romances de sensação e se tornar as/os Emma Bovary do século XXI! Pura diversão pop sem qualquer misticismo!!!! Desaconselhada aos que confundem ficção e realidade!!!
O segundo capítulo só segunda que vem, se sua sede de narrativa sensacionalista estiver insaciável!!! Alimentem sua fome pelas histórias de alto conteúdo calórico!!!!




Meu nome é Eva.

Dizem que fui seduzida por uma serpente, que cai na tentação. Mas eu preciso contar como foi que as coisas aconteceram. Vocês precisam conhecer a versão da mulher insubmissa que encontrou a mulher insubmissa, renegada e ainda apagada e esquecida, aquela que não é mãe de ninguém, criadora somente de medos e espantos, a serpente maldita pelos homens. Com efeito: pelos homens. Vocês deveriam me agradecer por cair na tentação dessa maravilhosa criatura, que assim me tirou do inferno do Éden, onde reina soberano o tédio de infinitos dias tranqüilos e sempre iguais, prestando serviços sexuais gratuitos, mudas, caladas e obedientes, a homens sem umbigo e sem costela. E ainda por cima, não por prazer, mas para dar filhos a Deus.

No teu paraíso eu não queria mais ficar.

Eu não pertenço a ninguém, ninguém me tutela, ninguém manda, ninguém obedece. Você não me quer, não. Não quer essa idéia. Essa idéia seduz, ela é poderosa, ela é perigosa. Por isso você não me quer. Por minha vontade você perdeu teu Paraíso. Perdeu o lugar que pela palavra era o teu domínio. Porque eu tenho vontade e curiosidade. Porque eu não preciso de você.

Por isso você me quer. Para mostrar ao machos do boteco que sabe dominar e decidir por mim, me manter submissa e acorrentada. Você quer isso só de birra, porque te faz sentir poderoso e invencível. Todos os dias de minha vida, todas as noites de tua vida.

Quando você foi criado, ao mesmo tempo ela também foi, da mesma substância. Quem mais se aproximou de tua origem foi aquele grego, o tal que chamou vocês dois de andróginos: dois sexos na mesma matéria, divididos e destinados a sofrer se procurando. Pois é, você e ela, não você e eu, vocês com o mesmo poder o mesmo saber: argumentava e desobedecia, indócil e contraria. Assim você começou a vê-la. Ria, tagarelava e brigava com você. Você estava apaixonado. Não a amava, ainda. Há uma diferença substancial, entre paixão e amor. Na paixão, você olha para o objeto de seus desejos, algo desconhecido. Você inventa um retrato que corresponde a esses desejos, dos quais o objeto nada sabe. Um retrato estúpido de fantasias. O amor é o apagamento desse retrato, quando aos poucos aos traços de nossas ficções se substituem os traços da experiência. Isso pode doer um pouco, a gente pode decidir que o retrato que substitui nossos desejos é chato. Foi assim, com ela. Ela se divertia, rolando na grama com você, dois coelhos na primavera, e sabia o que queria, quando e quanto. Mas você, você ficou decepcionado. Às vezes, o que ela fazia não correspondia às tuas fantasias. Eu te conheço bem, sei quão narcisista e egoísta você consegue ser, especialmente em relação ao que você quer. Não gostava mais dela. As capacidades dela, em nada devendo às tuas, te cansavam. Ainda mais porque ela mostrava muita curiosidade. Você tinha que estar à altura de alguns desafios muito racionais, ver que nem sempre você estava certo sobre tudo. Saber que teu domínio não era total, que você tinha que se refrear quando ela falava. E aí, você cometeu a primeira infâmia: foi reclamar com o Pai, que tanto te amava, assim como a amava. Mas ela não foi reclamar, ela que também devia se refrear quando você falava, ela cujo domínio, como o teu, não podia ser total, pois ela também, como você, se deparava a cada instante com o limite do outro igual e diferente. Assim, você aproveitou do amor do Pai para se livrar do incômodo que ela se tornara.

De nada adianta inventar a desculpa que você era jovem e inexperiente. Só desculpa, mesmo. Você tem a consciência tão clara da baixaria que fez a ponto de tentar apaga-la e esconde-la. No futuro que passou, essa parte da história ficou de lado, sempre que aflorava alguém cuidou para que fosse, no mínimo, denegrida. Essas fábulas, quando se tornam mito, se tornam armas perigosas: quem controla o mito, controla a camada mais profunda da memória.

O resultado da tua bela ação foi que o Pai exilou tua irmã e amante. Você a xingou de demônio, e por querer teu mesmo logos criador, e não somente a cria de teu sêmen, você espalhou maldades sobre ela: que andava por aí cercando berços com seus incubi. Espantalho de crianças. É assim que você liquidou a Primeira, a Esquecida.

Depois, por um tempo, você achou que dar ordens aos leões para sentar, deitar e brincar de morto, e instruir os elefantes para andar sobre as patas dianteiras fosse o máximo da felicidade.

Porém. Porém. Porém.

Os anjos te visitavam com freqüência, sabiam que você andava se sentindo solitário. Porém. Porém. Porém.

Havia o problema deles não ter sexo. Isso acabava com a tua diversão. Tudo bem, por um tempo você aproveitou essa companhia. Eles te explicavam a ordem perfeita do universo, levando você aos rudimentos da matemática, da física, da geometria, da astronomia. Enfim, gravavam em você as essências. Sempre aquele grego, depois, contando uma boa versão dessa história, chamou as essências de idéias. Eram muito bons de papo, e isso permitiu que você adquirisse habilidade retórica e dialética – e ainda bem que eles te deram a gramática, pois você falava errando tempos e concordâncias! - pois eles debatiam entre si de maneira sublime. Ainda, a trilha sonora era agradável mesmo que, às vezes, você se entediasse profundamente com o som das harpas e das trombetas, das trombetas e das harpas. E os coros? Aqueles Aleluias intermináveis! Depois de um tempo, que aborrecimento, dava pra perceber que um bom rock estava a milênios de distância de acontecer!.......(TO BE CONTINUED)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

ANHANGUERA MON AMOUR: DELÍRIO CRIMINOSO.


Era uma vez...

Uma senhora idosa, interessada em ervas, tarô e medicinas alternativas que, depois de uma longa vida de trabalho honesto, construiu um casinha como sempre desejou. O sonho de uma aposentada gulosa, uma casinha feita de chocolate e chantilly, construída graças a uma certa riqueza, fruto do trabalho de uma vida. Uma vida honesta, um trabalho honesto e, finalmente, a casinha dos sonhos, já adentrando o Mar da Cana, logo às margens do Riacho Negro que corre saltitando e cantando.

Esta casinha despertou a cobiça e as más índoles de dois irmãos pré-adolescentes, criancinhas cujos pais resolveram abandonar na rua, os imigrantes alemãos Hansel João e Gretel Maria, naturalizados brasileiros.

Voltando à velhina. Trata-se de senhora idosa, com um passado: as fofocas dizem que freqüentava círculos exclusivamente femininos, especialmente aos sábados, que o visual inusitado mereceu-lhe o apelido de bruxa, por parte da comunidade masculina da cidadezinha onde a vítima, os algozes e a família deles residiam, às margens da Floresta da Cana, às margens do Riacho Negro. Possuía uma renda suficiente para garantir um certo estilo, várias mordomias e privilégios, além da propriedade de uma casa evidentemente atraente para os então jovens infratores Hansel João e Gretel Maria.

Os dois elementos criminosos revelaram suas más intenções desde que começaram a cobiçar a propriedade da velha. O primeiro ato doloso dos dois, com efeito, foi de vandalismo contra o imóvel: comeram parte das janelas e do portão de chocolate. Surpresos em flagrante delito pela proprietária, alegaram ter aproveitado das partes da construção movidos pela extrema indigência em que se encontravam. Em um segundo momento, aproveitando de uma brecha na negociação com a idosa senhora para concertar os danos, os dois se ofereceram para realizar serviços de faxina e manutenção dentro da casa, como forma de ressarcimento.

Sabemos da história somente a versão dos dois criminosos, mas a verdade é bem outra, e se revela com clareza, através da aplicação de um processo criativo baseado no método histórico e na observação da paisagem humana e natural em volta da residência no Mar de Cana às margem do bendito Riacho Negro.

Os restos da velha, encontrados carbonizados na churrasqueira do quintal, testemunham da violência com a qual os dois agressores se voltaram contra ela. A jovem Gretel Maria, sozinha, jamais poderia levar a cabo o crime, precisando da ajuda do irmão. Depois do assassinato, os dois concordaram uma versão dos fatos mentirosa e baseada em preconceitos aceitos na comunidade: acusaram a velhinha de pedofilia sadomasoquista: o jovem Hansel João alega ter sido mantido em uma gaiola, de onde a velha todos os dias verificava se o “dedinho” (termo infantil para designar o órgão sexual do moleque) ficava “gorducho”. Enquanto isso, também foi acusada, na versão dos dois, de explorar o trabalho infantil, pois Gretel Maria era obrigada a desempenhar as tarefas domesticas.

Por razões ligadas à visão patriarcal, que desconsidera o trabalho domestico um verdadeiro trabalho, esta acusação foi desconsiderada nos atos do processo...

Todavia: o preconceito está presente ao longo da versão oficial inteira. A senhora vivia isolada, sem apreciar particularmente as expressões do convívio humano, o que lhe rendeu má fama. Nunca agiu como “vovozinha”, pois ao que parece não teve filhos, por opção, mas somente gatos. Aliás, o grande numero de livros em sua residência revelam interesses outros, de natureza intelectual.

Os dois criminosos infanto-juvenis aproveitaram da escassa simpatia do povoado por ela, penetrando sorrateiramente na propriedade dela e matando-a. A verdade é simples, nua e crua. Para evitar suspeitas, os dois alegaram ter sido seqüestrados e obrigados a viverem em condições de semi-escravidão. Alegaram ter sido sexualmente abusados e que a morte da senhora teria sido, portanto, legitima defesa. Mas algo mostra que não foi assim. A velha podia não ser muito simpática, mas foi atacada duas vezes: sua casa foi vandalizada e, pior, ela foi brutalmente assassinada. Que a impunidade dos dois seja efetiva, se deve exatamente ao preconceito contra mulheres solteiras, não mais jovens e capazes de se virar sem homem para concertar o chuveiro ou plantar um prego na parede. Ainda, as pesadas insinuações sobre o fato da senhora abusar de menores, realmente não se sustentam: repito: trata-se de vitima de preconceito, pois gostava de mulheres, portanto não teria demonstrado qualquer interesse para dedinho algum do elemento. Simplesmente, não se encaixava nos papeis tradicionais de vovozinha.

Toda esta história não passa de um fato de crônica local sobre um assassinato brutal, em busca de dinheiro fácil, realizado magistralmente pelos dois, muito provavelmente sob a direção dos pais. Idéias antiquadas sobre a inocência das crianças e sobre senhoras que moram sozinhas tornaram a vítima dessa história uma bruxa malvada que atraiu, seduziu e devorou crianças inocentes. Isto diz muito sobre preconceitos ainda hoje...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

HERODES’ FAN CLUB.



Uma vez, no trabalho, pediram doações de brinquedos para as barraquinhas da festa junina da empresa. Me perguntaram se ia participar da festa. Imaginando hordas familiares com alegres criancinhas brincando & gritando & tropeçando, me achei inadequada para tamanha empreitada e disse que, infelizmente, um compromisso religioso me impedia de participar, mas durante meu retiro espiritual dedicaria uma prece para o sucesso da festa.

Mas fui, comprar os brinquedos. Entrei na loja Medéia – tudo por 1.99 e me deleitei no meio de prateleiras cobertas por objetos de plástico:

1) Pacotes com dez cabeças de boneca, de vários tamanhos, todas sem cabelos.

2) Pacotes com torsos de vários tamanhos, todos sem braços, nem pernas, nem cabeças. Que estão na outra prateleira.

3) Pacotes de dez braços direitos de vários tamanhos.

4) Pacotes de dez braços esquerdos de vários tamanhos.

5) Pacotes de dez pernas direitas de vários tamanhos.

6) Pacotes de dez pernas esquerdas de vários tamanhos.

7) Pacotes de fios de naylon colorido em loiro/moreno/ruivo. Para colocar nas cabeças.

Muitas prateleiras. Havia também centenas de: tiaras de latão e plástico brilhante, pulseiras de latão e plástico brilhante, anéis de latão e de plástico brilhante. Ainda, prateleiras de luminárias “étnicas”:

a- Africana. Uma mulher negra com uma/duas crianças de barriga proeminente. Faz parte do ideário sobre África dos produtos Made in China importados via Paraguay. Não dá para levar em uma festa junina. Peitos de fora e crianças, em festa familiar, não combinam. Ainda que se trate de uma mãe etnicamente correta. Os retratos da fome, todavia, são inquietantes.

b- Asiática. Uma geisha de quimono e sombrinha. As geishas não têm filhos nem tetas de fora. Porém, podem parecer um pouco licenciosas, como prêmio em festa junina.

c- Rom. Com semblante de cigana de Notre Dame. Não se parece com as Rom das periferias italianas, as nômades sujas e maltrapilhas que agarram tua mão para grudar infaustos destinos em tua cabeça. Na época dos antigos romanos, descobri, essa atividade era típica de jovem moças judias. Os Rom não ficam bem em festas com crianças: conta a lenda que as roubam. As crianças, digo. Então, Esmeralda fica na prateleira.

As outras etnias faltam na loja Medeia. Talvez uma mãe judia por 1.99 não se encontre facilmente.

Encontro, finalmente, as prateleiras de brinquedos. Todos rigorosamente sem selo Inmetro. Têm pacotes de tanques, de carrinhos, de bonequinhas minúsculas. Todos os brinquedinhos apresentam partes que podem furar os olhos; que podem ser ingeridas; que podem provocar danos. Alguns brinquedos, como aqueles potes de meleca verde víscida, contém substâncias tóxicas.

Perfeito.

Compro cinco brinquedos: um pacote de tanques minúsculos e com a ponta do canhão quase afiada; uma arma de plástico; um set de chá para bonecas com pratinhos pequeninhos. Um arco com flechas; a reprodução de um tubarão verde. SIC!

No dia seguinte, entrego minhas doações. Suspiro e sorrio, dizendo que pena, não poder vir, deve ser gostoso! Penso que é muito legal, ser membro do Herodes fan clube.