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quinta-feira, 31 de maio de 2012

PENSAMENTOS PRIVADOS, PALAVRAS PÚBLICAS.

Páginas escritas e lidas em ocasião do evento "Opressão: machismo e homofobia na Universidade" na Faculdade de direito, Ribeirão, 30 de maio de 2012.

Senhoras alunas e mulheres que me prestigiam com seu interesse nessa página de reality show de uma mulher de 43 anos. Senhores alunos e homens, que com sua presença revelam pelo menos uma possibilidade em abrir uma dialética da convivência digna com as amigas e as parceiras com as quais, quotidianamente, vocês devem conviver:

Gostaria de propor a vocês algumas questões em forma de diário. Pensei que uma coisa que está faltando, e muito, é a volta a um dos fundamentos das lutas pela emancipação feminina, que reside nas palavras “O privado é público”. No início da história do feminismo, as mulheres tinham suas conversas de mulheres, sobre seu dia-a-dia. Nada que, até hoje, esteja fora do comum. A grande diferença do feminismo foi a capacidade de traduzir as questões que envolviam o privado em ação e movimento. Levaram à praça pública as palavras que diziam o silêncio que cercava, no espaço público, suas vidas, necessidades e exigências.É nesse sentido que resolvi utilizar, hoje, um registro que me pertence não porque sou biologicamente mulher, mas porque fui criada como uma. A linguagem que posso tentar, aqui, hoje, é aquela que melhor traduz as minhas inquietações como feminista não somente acadêmica, mas na vida quotidiana. Não gosto de ser panfletária, quando me dedico a algo que tanto me diz a respeito, que é o meu próprio jeito de estar no mundo, e quero fazer o máximo para convidá-los a entender um dia de uma mulher burguesa de 43 anos, que trabalha na universidade, não tem filhos, é branca e estrangeira. Tudo isso deve ser colocado com clareza, explicitado, porque são as minhas identidades e diferenças com vocês. O que vou ler também busca provocar momentos de identificação e até de oposição. Ofereço-lhes meu dia para vocês medirem os seus, para procurarmos, de novo, palavras que permitam o sentido da ação.

Ribeirão Preto, 30 de maio de 2012.

Querido diário,

Hoje tem sido um dia daqueles que não dá para contar, pois envolve muitas coisas que, se colocadas em um lugar público, provocam um certo arrepio, coisas que pertencem à esfera mais íntima de uma pessoa, o corpo. Coisas que podem ser reveladas unicamente a um diário, no máximo, máximo, a uma amiga querida... Mas vamos com ordem, que depois essa matéria tão íntima fica tumultuada, meu caro diário, e se um dia eu for ler novamente essas memórias, vou querer lembrar direito. E imagine se alguém mais fosse ler, sei lá, esqueço você, meu diário, em alguma gaveta e, depois de morta, você é encontrado e folheado... bom, aí não vou querer mesmo que alguém fosse entender tudo errado! Sei lá, escrever é complicado, até em um diário, pois nunca se sabe onde pode cair. Pelo que sei, gostaria de saber misturar alguns gêneros literários... O que teria sucesso de vendas? O que os curiosos gostariam de saber, quando fossem ler esse diário? O que eu poderia querer que lembrassem de mim? Na verdade, a preocupação é secundária... Um diário serve para falar de mim, de meus acontecimentos e daquilo que me provocam, se um dia houver outro leitor, que se vire, tenho lá eu que me preocupar também depois de morta se e como sou “decorosa” ou “indecorosa”. Que palavras mais antiquadas, decorosa e indecorosa. O decoro como virtude. Então, não quero me preocupar muito se em um diário sou ou não virtuosa. Ah, não, um diário é um diário, essa sou eu, e se algum tiver a manha de ler, vai encontrar o que eu quero. Pausa... possível que nem em um diário eu encontre descanso sobre o que sou, ou o que digo ou, pior o que escrevo? Sei lá, de repente o vicio acadêmico toma conta de mim. Quando escrevo para a academia preciso usar uma linguagem que, um pouco, me estranha. Em um paper, em um artigo, em uma aula, preciso usar uma linguagem “neutra”, a boa, velha linguagem neutra da “ciência”. Sua capacidade de afirmar, de sustentar hipóteses de maneira clara, afirmativa, comprovada. Neutro. Certo. Só que eu não cresci educada totalmente a isso. Eu até que desde cedo procurei me entrosar no “neutro”, mas acabei me tornando... mulher. Desde que no jardim de infância tiraram o retrato fotográfico de cada um. Eu tinha quatro anos, e até hoje me lembro da cena. A cada menina e menino perguntavam se na foto queria aparecer com as bonecas ou com a bola, os carrinhos e os soldadinhos. Como eu desenvolvi uma certa bulimia simbólica e na geladeira (na tristeza existencial, frustração e infelicidade, comeria o mundo. Por isso minha geladeira fica um pouco fria, escura e vazia, que nem a origem do universo. Pois a frustração e a tristeza existencial não podem se traduzir em peso). O tempo passa, e ninguém, nesse mundo, presta atenção às senhoras acima do peso e enrugadas. Traduzindo: esta mundo não é para as velhas. Seria, então, eu também, fã de Ana & Mia? Transtornos alimentares para não assumir o tempo que passa. Uma mulher, ao que parece, só é mulher enquanto objeto desejável (nem sequer desejante). É mais difícil prestar atenção em uma mulher jovem o em uma velha? Que quando se envelhece, só podemos ser mães e avós...

Voltando à foto, justamente por essa tendência à bulimia existencial já desde criança, quase de imediato falei que queria tanto as bonecas quanto o resto. Sei lá, de alguma obscura maneira queria que, naquele momento, ficasse registrado que não, não me importava o objeto em sim, mas o ato de brincar. De me divertir com tudo que pode ser divertido para uma criança. Definitivamente, eu era uma criança cheia de esperanças e boas intenções, mas a realidade era que, mesmo tendo a sorte de um pai anarquista e de uma mãe feminista, quando recebia presentes muitas vezes eram Barbies. Tinha uma verdadeira coleção: aquela loira, branca, de cabelos escorridos, com as pernas que ainda não dobravam. Aquela outra loira que já dobrava as pernas, a terceira loira de cabelo babyliss, a quarta de biquíni e com bronzeado, depois tinha a Barbie negra (mas de cabelo escorrido, chamava Cara), a irmã (ou sobrinha, sei lá) da Barbie, a Skipper, que virava o braço e crescia o peito em um instante, se tornando uma outra Barbie baixinha. Depois tinha a Ginger, que não sei se era só amiga da Skipper ou o amor da vida dela, rigorosamente trancado no armário (acho que saquei muito mais tarde que as duas podiam ficar juntas, felizes para sempre, duas lésbicas fashion riquinhas e empolgadas com o surfe, as festas... mas não podia antecipar os tempos, o seriadinho The L Word veio muito, mas muito mais tarde). Só sei que tinha também um Ken, mas ele era muito chato, não sabia bem o que fazer com ele. Minhas amigas faziam ele beijar a Barbie, mas eu achava meio que uma perda de tempo, minha Barbie era e fazia muitas coisas: medica, astronauta, paisagista, e ao mesmo tempo tinha que construir sua casa, cuidar da irmã/sobrinha, cozinhar... enfim, uma vida dura que o Ken, me parecia, não levava (o cara, aparentemente, não tinha muita outra atividade a não ser beijar a Barbie. Um verdadeiro tédio, um homem sem ocupação definida que anda de carrão para um monte de festas. As meninas não gostam do Ken, vai ver que o instinto as alerta que se trata de um boneco que introduz ao mundo dos cafajestes). Então, na foto, está imortalizada uma criança: Eu. Cabelinho curtinho, enroladinho, cara de sorriso tímido. De um lado as bonecas, do outro o resto. E eu, no meio, com uma vida feita de dias muito cheios de tarefas para minhas Barbies. Eu era criança, minhas frustrações não eram muitas, cresci em um ambiente saudável com pais que me ensinaram a sempre questionar, não obedecer somente porque alguém manda, em nome de qualquer autoridade. Eles são os primeiros responsáveis pelo meu olhar sobre o mundo, no bem e no mal. Minha mãe, quando casou, deixou a faculdade e virou dona de casa. Depois de três anos, olhou para meu pai e comunicou que uma vida em casa, dedicada a uma filha e a um marido não a satisfazia plenamente. Voltou a estudar biologia, se formou em menos de quatro anos e se tornou pesquisadora na Universidade. Cuidou de mim e de meu irmão. Um modelo e tanto. Meu pai, professor de física, sempre na universidade, desde que me lembro dividiu todas as tarefas práticas e de decisão com a minha mãe. Devo dizer que tive sorte, em crescer nesse ambiente.

Infelizmente, o ambiente familiar afortunado e o mundo fora dos muros domésticos não concordavam plenamente com essa visão de mundo. Os primeiros problemas dessa educação, para mim, surgiram no primeiro grau. Estudei em uma escola de freiras, mas minha professora era uma jovem laica. Estudei nas freiras porque fui à escola com cinco anos, e na época as escolas públicas não aceitavam crianças com menos de seis anos. Tendo começado nessa escola, que desfrutava de dinheiro público (custando, assim, muito pouco), acabei continuando nela até mudar, no ginásio para outra escola, essa sim, pública.

A escola era somente feminina, tanto no corpo discente como as docentes. As coleguinhas vinham, na maioria, de famílias católicas abastadas. Eu, não. Meus pais não são católicos nem de outra religião. Eu, definitivamente, não sou católica. Meus avós paternos eram gente da burguesia trabalhadora, minha avó filha de um pequeno empresário têxtil, meu avô contador. Do lado materno, tenho origens proletárias: meu avô foi policial militar, uma profissão para os pobres, na época, e depois foi operário em uma indústria química. Minha avó foi boleira e, na década de 1950, meu avô saiu da fábrica e os dois abriram um restaurante/pizzaria na cidadezinha de praia onde moravam. Minha avó, que não era feminista, foi outro modelo importante, sempre, sempre me repetia que ela queria que eu trabalhasse: uma mulher que trabalhava, para ela, era uma cidadã que não dependia de ninguém, que podia sempre sobreviver sem compromissos que a colocassem em situações de humilhação. Eh, grande mulher, minha avó! A outra avó, que não trabalhava, gostava de ler, e me dava livros de presente, alimentando minha mente e curiosidade. Ela que me presenteou com minha primeira edição de Alice no aís das maravilhas, Tom Sowyer, Huck Finn. Bom, aí, vou eu à escola das freiras. Aprendendo que a mamãe é o anjo do lar e que o papai é o provedor, coisa que, pontualmente, provocava minhas perguntas em casa sobre o que era aquilo, pois todas as mulheres de minha vida não passavam o dia como na escola me ensinavam que elas deveriam fazer. E outra: as próprias freiras eram o quanto de mais distante eu podia ver do modelo que propagandeavam de mãe/esposa/anjo do lar: mulheres que não eram casadas, não tinham filhos, eram diretoras, professoras, dirigiam uma escola, um internato, um refeitorio... A confusão estava armada em minha cabeça.

É nessa época que eu sofri o que muitas mulheres sofrem, o abuso sexual. Falando claramente: abuso sexual não é estupro. Não precisa nem ser uma forma de violência física. O abuso sexual sobre uma criança começa quando um adulto aproveita de qualquer maneira do corpo ou da mente de uma criança para obter uma qualquer forma de satisfação sexual. No meu caso, foi um pediatra. Portanto, duplamente difícil de se apontar o dedo, com oito, nove anos, e falar com voz infantil: “Mamãe, o doutor me tocou onde faço xixi, enquanto você, confiando em sua autoridade de adulto e de medico, me deixou alguns minutos sozinha com ele, quando você foi buscar algo que esse homem te pediu”. Imaginem o sentimento de uma menina nessa situação. Bom, somente depois de adulta acabei descobrindo que a maioria das mulheres que conheço em algum momento tiveram algum tipo de invasão corporal mais ou menos dessa natureza. Eu só sei que deve ser por isso que gostaria, sempre, de poder escolher um medico mulher. Na época não gostei desse acontecimento, me assustei e isso, de alguma maneira, me marcou. Hoje, esta seria uma postura que poderia levar um medico a ter sérios problemas, mas na década de 1970, sem um adulto vendo isso acontecer, o que fazer? Nada. E é isso que eu, criança, fiz: nada. Somente anos, muitos anos depois contei isso para a minha mãe. Que, por sua vez, relatou de quando um oficial que devia fornecer os alvarás para o restaurante dos avós colocou as mãos onde não devia na minha mãe adolescente, ela fugiu do escritório e se recusou a voltar para lá sozinha. Minha avó deve ter intuído alguma coisa, pois não insistiu. Também, não tinha muito o que fazer, e nada foi feito: qualquer legislação a respeito é muito recente e, apesar de existir, muitas vezes é desconhecida ou de eficácia escassa.

Mas não me tornei uma mulher apavorada pelos homens. Se toda menina, adolescente ou mulher que passa por experiências dessa natureza tivesse uma reação de pavor generalizada, a espécie já teria se extinto há muito tempo.

Falando nisso, justo hoje abri meu feissbuc, o reino da inconsistência do espetáculo público, a terra da ilusão da multiplicação infinita de nossos 15 minutos de fama. Bom, nesse imenso parque de diversão da efemeridade global, a página jogou na minha cara uma obra prima da gráfica feissbuquiana. Era um quadrinho dividido em vários quadros, oferecendo a visão das formas de depilação das partes íntimas das mulheres desde 1940 até os nossos dias. Mas essa obra de arte, em si, não me preocupou tanto, pois podia apontar para muitos discursos possíveis. O que me deixou francamente incomodada foi a série de comentários ao lado, na maioria masculinos. Nos comentários se torcia claramente pelo modelo 2012, onde o pedaço de mulher oferecido aos olhos estava completamente depilado. Um verdadeiro hino à pedofilia, já que na Natureza o pedaço de carne, pardon, de mulher em questão somente nas meninas antes da puberdade se apresenta naquele estado. Fiquei me perguntando como me sentiria, olhando-me no espelho do banheiro, eu, com 43 anos, e uma periquita de criança.... mas por favor, economizem-me! Ridículo! Tenho mais o que fazer que imaginar uma coisa assim! Se alguém não gostar do jeito que uma mulher é quando adulta, a porta é aquela, saudações e te encontro de novo no dia 31 de fevereiro, sim, depois do carnaval, assim te explico melhor o que é quaresma. Mas, no feissbuc, a torcida pelo modelo criança está grande. Querido diário, você pode me entender, você é o único que pode: ver exposto por todos os lados o convite a escolher mulheres meninas já é desagradável para alguém que passou pela experiência de ser “manipulada” por um adulto. Mas não é só isso: fico pensando que as adolescentes de hoje vão odiar o fato de suas periquitas não se manterem infantis. E fico pensando que esta é somente uma das formas exteriores que vejo por aí de manter uma mulher em um estado de infância perpétua. Os homens se tornam, em um meio de circulação de idéias tão amplo como o feissbuc, os juízes de um objeto do qual, evidentemente, se consideram os donos e, como tais, dispõem a seu belo prazer. Agora: eu sei que isso não passa de uma bobagem, que é fácil responder que é só uma brincadeira, uma piada. Sei que se eu falasse aos colegas professores da faculdade de uma coisa dessa seria liquidada ou com caras de constrangimento ou com mais alguma piadinha infame. Assim, na faculdade não comentei nada. Comentar coisas de gênero não é considerado acadêmico, é papo de mulher infeliz que está envelhecendo e que olha com inveja para as representações que os jovens fazem do sexo.... Será, mas me parece que a academia não está muito se ligando no que acontece nas relações de gênero do dia-a-dia.

Acontece, porém, que uma postura desse tipo se transforma em mil outras maneira de tratar uma mulher e o corpo dela, isso é, do meu. Por exemplo, minha visita ao ginecologista, hoje. Infelizmente, não tive a possibilidade de escolher uma mulher, me impuseram um medico homem. Não que isso a qualifique necessariamente como melhor profissional. Mas me deixaria a ilusão de que poderia ter um pouco mais de respeito, sabendo o quão desagradável é ser paciente dessa especialidade.

Eu vivo trocando ginecologista. A visita ao ginecologista sempre tem um que de humilhante, afinal, apesar de estarmos no campo da ciência, aliás, nas mãos da ciência, é a intimidade mais complexa, aquela que estamos expondo a alguém que não é bem uma pessoa de nossa esfera íntima. Sabe como é, querido diário, questões culturais sobre expor minhas intimidades naquela posição que impossibilita qualquer fuga pesam sobre mim! Talvez somente um homem adulto e inteligente com mais de quarenta anos (que já foi, então, a uma visita com um proctologista que, às vezes, pode ser uma mulher) possa entender o quão desagradável o ginecologista possa ser.

Em primeiro lugar, a gente responde a perguntas protocolares: idade, primeira menstruação, já teve gravidez, abortos, doenças, se usa anticoncepcional. Aparentemente, são perguntas inócuas tanto quanto as de um oftalmologista, que pergunta se enxerga bem de perto, de longe, se teve algum trauma aos olhos, alguma operação... Eh, certo, aparentemente é a mesma coisa. Exatamente. Fora o fato que o protocolo parece impor uma certa heterossexualidade compulsiva. Nenhum ginecologista, até hoje, depois de conhecer meu nome e idade teve alguma dúvida sobre minha orientação sexual. Talvez, se o protocolo de perguntas mudasse, mudaria também a abordagem diagnóstica sobre mim. Acho que as perguntas não deveriam se formular a partir de uma única hipótese normativa e prescritiva. Uma vez, depois de todas as perguntas rituais, respondi que eu estava com um problema de perdas. O elemento de avental branco me olhou e disse: “Mas vocês mulheres não precisam de um medico, vocês precisam de um encanador”. Exatamente o que uma mulher preocupada com sua saúde precisa ouvir antes de ficar ser roupa nas mãos desse senhor gentil, de prosa elegante e francamente disposto a te deixar à vontade, se colocando no papel do encanador. Um verdadeiro horror. O melhor foi outro, que me visitou sem sequer avisar do que estava fazendo. Bem desagradável. Claro, entendo que os médicos, hoje, devem ser produtivos e não há como perder tempo com delicadeza e gentileza perante corpos despidos de desconhecidas mais ou menos intimidadas, mais ou menos desconfortáveis, mais ou menos preocupadas.

Enfim, falo isso porque existem os profissionais que se dispõem um pouco mais a te ver como uma pessoa que não corresponde unicamente ou exatamente aos órgãos que estão visitando. Eu não sou um cano que vaza, a linguagem é, sim, importante. Assim como é importante que um medico te explique o que está acontecendo em sua menina flor, periquita, vagina e útero, como quiser chamá-la. Só sei que este som lúgubre de Útero lembra uma coisa perigosa. A letra U nos desfavorece. Assim como todo o repertório de palavras que pontuam nossa vida sexual: menarca (querido diário, você deve saber que se trata da primeira menstruação de uma mulher), que soa uma espécie de monarca, mas que é menos, menarca. Sei que não tem nada a ver com a etimologia da palavra, mas soa tão ruim, que ninguém usa. Depois tem a menopausa, novamente algo a menos... Não conheço sinônimos de menopausa. É menos e ponto. Menos Mulher? E a própria palavra, impronunciável, menstruação, que parece um xingamento em polonês! Menstruação: uma palavra sempre substituída por eufemismos delicados, quase fosse uma ofensa (efetivamente, em termos de fonética, a palavra ofende os ouvidos...): aqueles dias/o Período... palavras que não significam nada disso, a não ser quando pronunciadas a meia voz, até com constrangimento.

A questão, você vê, meu diário, é de um desaconchego profundo, sempre, com esse corpo que não é neutro, nunca. Eu gosto muito das mulheres que me preparam para a mamografia: em geral ajudam você a espremer seus peitos em uma máquina com a postura de quem sabe que não é o momento mais agradável do dia de uma mulher. Sabem também que uma parte das mulheres que se submetem ao exame tem ou saberá que tem algum elemento de preocupação. Querido diário, vou te voltar ao útero. Uma mulher pode ter uma vida sexual plena e satisfatória sem usar o útero? Claro que sim. O útero serve unicamente para a gravidez. Fora isso, é extraordinariamente ativo uma vez por mês em nos tornar alvo de muita propaganda de absorventes. Na verdade, querido diário, nos últimos anos a frase do ginecologista a respeito de precisarmos de encanador se tornou evangelho do marketing. Ao que parece, nós mulheres não somente precisamos de absorventes com abas, sem abas, suaves, secos, perfumados de frutas cítricas, com dupla e tripla barreira anti-vazamento. Ao que parece somos um verdadeiro problema de saúde pública, piores que esgotos a céu aberto. Para o mundo, nos mulheres vivemos vazando trinta dias por mês. Portanto, precisamos sempre por mais uma barreira entre nossos vazamentos e a calcinha, imagino para proteger o mundo das enchentes que provocamos. Alem disso, as mulheres fedem. E não pouco. Pois todo dia, na publicidade, nossa menina flor contradiz esse seu nome, precisando de materiais saponáceos com cheiro de lavanda, de frutas vermelhas, de pinho sol. Tudo delicado, certo, mas para as mulheres um sabão neutro normal não é suficiente, como aparenta ser para os homens. Não, nós mulheres precisamos encobrir cheiros selvagens que são de nossa natureza, aparentemente inevitáveis com uma seria lavagem com produtos específicos. Já isso me deixa preocupada... será que realmente uma mulher precisa cheirar feita um chiclete, aroma artificial de cereja, depois de uma lavagem com um cheirinho delicado de lavanda, como se estivesse usando amaciante de roupa?

E nossa natureza revoltante está também nas axilas, é claro, que hoje em dia ficam gastas e escurecidas, novamente como roupas velhas, precisando de um tratamento clareador/antimofo/anticrescimento de pelo... Ah, meu diário querido, tudo isso faz sentir qualquer uma suja, mesmo depois de um belo banho de ofurô a gente fica se sentindo inadequada, me parece inevitável!

A Barbie não tinha tantos problemas com uma higiene pessoal voltada para torná-la uma criatura plastificada, sem perdas ou vazamentos, sem cheiros eventuais... ela já vinha assim, mesmo trabalhando muito, e como trabalha a Barbie, sem suar, sem menina flor, sem cansaço, uma verdadeira mulher ideal, pois ainda fala pouco e quando chega o Ken beija na boca sem se sentir fedida! O bom da Barbie era que não tinha nenhuma fissura com a limpeza do banheiro, como as mulheres que vejo na telinha parecem ter... o banheiro dessas coitadas está sempre em condições lastimáveis. Ou seja: a TV me diz que o cartão de visita da maioria das mulheres deve ser o banheiro. Que é regularmente invadido por troupes de TV que deixam a coitada constrangida e envergonhada.

Vi outro dia que hoje, em tempo de crise econômica, a Barbie mudou, novamente, de trabalho: vem com os apetrechos profissionais da Barbie professora. Sei lá, acho que comercialmente não vai emplacar muito: abaixo de Barbie Manager eu não vejo como possa ter um bom mercado... professora é uma profissão complicada na realidade de muitas mulheres. Ela é simples somente para os fieis escudeiros do Paulo Maluf, que dizia que não é professora que ganha pouco, o problema é que ela é mal casada. Certo, com um aproveitador como o Ken, a coitada da boneca é mal casada mesmo...

Querido diário, hoje, como todos os dias, acordei, tomei café, conversei com alunos e colegas, sem precisar saber exatamente o que significa ser uma mulher. Me sinto tal, e isso é tudo. Mas nem sempre é tão fácil. Quando devo dar aula, quando sou convidada a alguma mesa redonda, quando participo de alguma reunião, às vezes sou minoria ou, às vezes, sou a única mulher presente. Os gestos, os discursos e os olhares não são os mesmos daqueles de um ambiente composto unicamente de homens. Alguns homens pensam que, como sou mulher, podem interromper, fazer piadas, rechaçar minhas falas como fruto da TPM. Outros se sentem quase compelidos a serem galantes, condescendentes, mais ou menos paternalistas. Ontem, por exemplo, um colega de outra faculdade “homenageou” as mulheres por serem as responsáveis do sucesso masculino. Traduzindo: atrás de um grande homem tem uma boa mãe/esposa, que se ocupa das necessidades quotidianas do grande homem. Que nem a publicidade para as olimpíadas da Procter & Gamble, sobre as “grandes mães”. São, estas, criaturas cruéis que obrigam seus filhos a acordar quando ainda está escuro, vigiam os treinamentos dos futuros campeões, os alimentam, lavam suas roupas e se realizam unicamente no reflexo do sucesso deles. Um pouco me irrita, isso: a mãe que realiza o sucesso de seus filhos é 100% dedicada ao lar e ao cuidado deles. E aquelas mães que trabalham, que não se dedicam esse 100% ao lar e aos filhos, que lidem com seus sensos de culpa por não se dedicar 24 hs. por dia àquela que, evidentemente, continua sendo a tarefa que, oficialmente, devem desempenhar. Os homens são ausentes, no anuncio: provavelmente não existem, abandonaram o lar ou, enquanto provedores, trabalham... Belo modelo, me lembra minha infância, na escola das freiras na década de 1970... Só que em 2012! E alguém diz que as mulheres já alcançaram seus direitos, que podem ficar satisfeitas...

Querido diário, voltando ao meu dia... nos momentos em que estou na esfera pública percebo que preciso gastar uma energia para me lembrar de que meu valor não depende do olhar que os homens podem ter sobre mim. Devo me esforçar para ser ouvida sem paternalismos, concentrar-me em minha fala. Está excluída a possibilidade, porém, que queira me esquecer de ser uma mulher, alguém que não está em um lugar neutro mas, sim, engendrado.

Querido diário, meu problema é que hoje à noite devo participar de um debate sobre gênero, opressão e homofobia, na faculdade de direito. Mais uma vez, me encontro gerenciando meus medos e inseguranças. Autoconfiança. É algo que se constrói devagar a partir da infância, quando aprendemos a ter cuidado de si, longe da mãe. A confiança se constrói quando não somos constantemente desaprovados, quando os pais acreditam em nós, quando nossos amigos e parceiros não nos humilham. Assim, até hoje, continua mais fácil, para um homem, ter autoconfiança. Ainda hoje, apesar das mudanças, a maioria dos pais tende a estimular mais determinadas habilidades e criatividades dos meninos que as meninas. Os brinquedos, apresentados com fortes conotações de gênero nas publicidades, continuam sendo bonecas para as meninas e carrinhos, a guerra, a engenharia de brinquedo para os meninos. As meninas continuam com o repertório privilegiado de brinquedos para aprender a ser mães e donas de casa.

Depois, meu diário, não é de se espantar que uma mulher tenha dificuldades em tomar a palavra em público ou em expressar opiniões diversas daquelas dos homens!

Sempre fico surpreendida, quando observo o comportamento de meus alunos e alunas: elas, em geral, propõem pesquisas excelentes para seu TCC, mestrados e doutorados, mas sempre manifestam seus medos de não estar à altura, de não saber fazer pesquisa e poucas pretendem seguir os estudos. Por outro lado, os rapazes sempre estão convencidos de que suas idéias são ótima e têm mais dificuldades em aceitar as orientações.

Vou escrever de coração aberto, diário, sobre isso. Ainda não sei qual das duas posturas me deixa mais irritada. Às vezes, quero bater a porta na cara de todos, para que apreendam o que significa ser incapazes de avaliar suas próprias capacidades. Mas, é claro, não é isso que eu faço. Não seria educativo e, mais uma vez, seria uma postura que traria desvantagem para as moças. É então que, exatamente porque sou uma mulher (e sei, portanto, o que significa estar na Universidade, e ser aceita na comunidade científica – ainda machista – ), procuro ficar calma e explicar, pacatamente, meu ponto de vista, que basicamente é este:. a autoestima é muito importante, falo para um aluno cheio de si, mas em geral não é suficiente. Pensar um projeto interessante não equivale a escrever um TCC/mestrado/doutorado. Vou te orientar desde que você reflita sobre as criticas que você recebeu. Depois vamos conversar com base nisso. 80% dos rapazes não volta.

Quando falo para alguma aluna realmente boa, por outro lado, meu discurso é diferente. Não quero ser maternal, nem lhe explicar o que deve fazer. Será ela, sozinha, que escolherá seu investimento acadêmico futuro. Me limito a explicar que, na vida, é necessário aprender a lutar e que se falo que o projeto é ótimo, não é para agradá-la, mas porque o penso. Não posso injetar nela a autoestima: se a aluna não tem autoconfiança, não serei eu que vai conseguir lhe dar isso. Posso, porém, dizer-lhe que confio nela e que tenho certeza de que conseguirá. Recebendo confiança de outros pode, aos poucos, aprender a acreditar em si e se aventurar nesse território masculino que é a academia, realizando escolhas não machistas.

Querido diário, o que quero dizer é que, até quando as mulheres não vão parar de se aperceber como os homens as vêem, não conseguirão fundar em si mesmas a auto-estima. Para eu mesma encontrar confiança em mim não foi suficiente eu decidir fazê-lo. Tive que aprender a ser independente do olhar masculino (com isso, querido diário, não quero dizer somente dos homens, quero mesmo dizer masculino, que é problema de gênero, e não de sexo). Tive que aprender que não sou bonita somente quando parâmetros masculinos dizem que sou. Tive que aprender que sou boa também quando ninguém me diz que sou. Já não é fácil obter isso na universidade para um homem! Para uma mulher, é pior ainda. A competição é sempre muito grande, nossos egos docentes ficam, às vezes, tão inflados que não podemos permanecer em dois na mesma sala. E as mulheres, nisso? Em uma universidade que nada tem de neutro, pois a freqüentamos há pouco tempo, em comparação com o prazo anterior que ela teve para se instituir e instituir suas linguagens e regras, nós, as mulheres, não participamos dessa origem, que é masculina e patriarcal. Nós precisamos nos adequar ao existente. E cada uma procura sua estratégia de sobrevivência, se afastando ou se aproximando das expectativas que ela imagina a universidade tenha para ela. É triste e cômico ao mesmo tempo, lidar com nossas posturas de mulheres presas entre os exercícios de feminilidade aguda, de maternidade expandida e de machismo absoluto na maioria do tempo. Querido diário, este me parece um ponto bem complicado, porque todas as vezes que tropeço nele me pergunto em que medida eu mesma, para sobreviver, flutuo entre um modelo e outro? E todas as vezes me proponho me inspirar aos poucos modelos de mulheres admiradas que encontrei no caminho. E me pergunto quanto consigo realmente ser uma mulher que possa ser uma boa medida para as jovens mulheres (e os homens) que encontro todos os dias na faculdade.

Já está tarde, preciso me arrumar para o evento. Pensei em falar algumas coisas sobre a qual todo mundo concorde, tipo que precisa tomar providências para que ninguém discrimine e oprima essa entidade cuja vida metade do universo desconhece. Que humilhar alguém através de “brincadeiras” que envolvem a sexualidade das mulheres muito se parece com assedio sexual, pois nos deixa nas mãos de alguém que, naquele momento, possui a força física ou a autoridade moral de nos subjugar, de nos deixar impotentes. Somente a minoria GLBT sabe o que é isso. Os homens heterossexuais não chegam muito bem a imaginar, precisariam de uma boa oficina. Falar em estupro acho que não vou. Querido diário, a respeito do estupro eu tenho uma pergunta à qual todos riem, mas ninguém responde. A pergunta é essa: “Os homens, desde a Antiguidade, tem reservado para as mulheres um conjunto de atributos construído a partir de ideais que eles colocaram para si. Por exemplo, construíram a oposição Cultura/Natureza, reservando às mulheres a segunda categoria. Decorre disso uma lista infindável de atributos dualistas de gênero. “Razão VS. Emoção” é um deles. Aí estava eu hoje esvaziando minha geladeira durante um ataque de fome compulsivo/bulímica e formulei a segunda parte da pergunta: O masculino (portanto, não somente os homens, mas mulheres também), muitas vezes, utiliza formas de “justificar” ou “amenizar” o estupro com algumas formulas mágicas, entre as quais duas me interessam em particular:

1) A culpada é a mulher, pois era provocante/estava provocando

2) O homem não tem culpa, pois se uma mulher provoca, ele não tem como resistir: é um homem, tem suas necessidades hormonais.

São afirmações iguais, a primeira só subentende a segunda parte da segunda afirmação, que recita que os homens, fundamentalmente, são animais irracionais incapazes de controle, e como isso faz parte da natureza deles, não merecem, de certa maneira, uma punição dura. Mas então, pergunto eu, aquela dicotomia Razão/Emoção pode ser rediscutida? Ou aceitamos sem discutir que, na hora da violência, do assedio, eles voltem a ser criaturas emocionais e naturais, enterrando toda razão e cultura das quais tanto se orgulham e do cume das quais nos olham como criaturas menores?.

Enfim, querido diário, talvez não seja o caso de recorrer às grandes filosofias, pois o tempo vai ser curto e não sei muito bem que público participará.

Somente mais uma coisinha, querido diário, antes de te deixar. Mas amanhã escreverei mais, no segredo dessas páginas. Páginas do diário de uma mulher quarentona que, com certeza, ninguém, nunca, vai achar interessantes.

A última coisa é que, mais uma vez, às vésperas de ir para esse encontro, sinto a indizível sorte de ter nascido mulher. Indizível, pois as palavras para meus dizeres ainda são poucas, as palavras que uma mulher escreve são para diários, para literaturas poucas vezes livres do gênero até nas capas. Sorte, pois nesse meu perambular pela universidade fui obrigada a me apropriar das linguagens e dos gestos do neutro, que não me inclui plenamente. Esse neutro masculino eu conheço, é uma segunda língua que uso todos os dias. Mas tenho uma arma que somente a subalternidade me fornece: alem desse equipamento que não é meu, possuo minhas vivências, linguagens e gestos que advêm do meu pertencer ao gênero feminino. Desse patrimônio, ainda por muitas circunstâncias silencioso e silenciado, sou portadora, dele não abdico. O masculino ignora minhas potencialidades, só me atribui limites. É como conhecer duas línguas: a língua materna, feita de voz e palavras e a língua paterna, feita de escrita. O masculino não possui ambas as línguas, pois considera a primeira um acessório secundário. Minha tarefa, meu papel de mulher docente, é ser portadora critica de ambas e mostrar, principalmente às jovens mulheres, mas também aos jovens homens curiosos, como funcionam os mecanismos da opressão, da desigualdade de direitos, da noção de diferença e de reconhecimento dela. Em parte, faço isso dentro da neutralidade oficial. Mas outra parte, aquela que não se publica, reside em meus gestos, palavras e práxis.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

APELO: SALVEM AS GALINHAS DOS MACHOS...

Então, estou abalada.
Sabia que macho vive meio que preocupado somente em colocar sua apêndice da mesma maneira que avestruz põe a cabeça debaixo do chão, mas o que me contaram me deixa profundamente abalada, enojada e, francamente, indignada.
Nos Macondos da vida, aqueles povoados que a gente acha que existem somente na literatura sulamericana dita "realismo mágico", MAS QUE EXISTEM, porque coisas assim só podem acontecer em um mundo sem sentido, os machos utilizam as galinhas para obter "favores sexuais".
Vocês podem achar que estou brincando, mas não estou não.
Existe uma mobilização global de proteção aos animais, justo hoje no meu face tinha um apelo contra a pornografia que envolve animais...
Mas as agências que se preocupam com os bichos parecem concentrar o foco unicamente nos mamíferos... e esquecem das galinhas.
E as coitadas precisam ser protegidas também. E os estupradores devem ser punidos, pois é pura e simplesmente uma crueldade, pois pensem nas devidas proporções. As galinhas não sobrevivem aos estupros. Não vou entrar nos detalhes porque é nojento demais, mas peço que as muitas pessoas que se enternecem perante as fotos de gatinhos, cachorrinhos e ovelhinas se mobilizem também em prol da proteção das galinhas.
Nem que seja graças às imagens horrorosas dessas aves indefesas que, depois do estupro, morrem porque suas entranhas ficam todas para fora... e espero que seja começada uma campanha de proteção das galinhas, com base na idéia bastante nojenta dos restos de uma vítima assada em nosso prato...
REALMENTE, NÃO ESTOU BRINCANDO, ALGUÉM TEM QUE PENSAR NA INTEGRIDADE FÍSICA DAS GALINHAS E, PRINCIPALMENTE, NA SAÚDE MENTAL DESSES MACHOS ESTUPRADORES!!!!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

RECALCADA. UMA HISTÓRIA DE SEXO, ARROGÂNCIA E MULHERES (O USO SEXISTA DAS PALAVRAS).



Quando preciso de uma definição rápida de alguma palavra, recorro, infelizmente, aos recursos da rede. Isso, porque preciso usar as palavras em algum texto não acadêmico, nada de publicável em revistas qualizadas.
Um dos meus "instrumentos" é o trágico Dicionário online de língua portuguesa (www.dicio.com.br), lastimável recurso que, acredito, não somente eu utilizo.
Hoje, em uma conversa, ouvi o termo "recalcada". Sou estrangeira, os falsos cognatos me perturbam, assim como as assonâncias, o risco de falar entendendo algo através de uma semiose "filtro de sentidos" moldada em interpretações "estrangeiras" é muuuito grande.
Então, lá fui eu descobrir a definição corrente que é dada à palavra "recalcada".
Obviamente, precisei procurar o masculino, pois não se escreve, em um dicionário, a não ser quando inevitável (e veremos como isso acontece...), a definição de palavras declinadas no feminino.
Recalcado: Concentrado, reprimido.
Psicanálise Diz-se do indivíduo que sofre recalques.
Recalcar: Introduzir com força: recalcar uma cavilha.
Psicanálise Excluir de admissão consciente uma recordação, uma tendência etc.
Sinônimos: comprimir, refrear, conter e repisar.
Marquei em vermelho duas coisas.
Seguindo as pistas das definições, peguei aquela que melhor prometia: reprimido. Mas é também contido, moderado. Enfim, a certa altura desse passeio começam a aparecer termos como pedante, presunçoso.
No final, tem uma "área" muito interessante, no termo recalcado, que pode ser transposto para recalcada. Os/as recalcados/as são arrogantes, sim, mas o são de uma maneira que pode até ser agradável. Tem uma polidez no termo que descreve a própria polidez dos/as recalcados/as. São antipáticos em muitos aspectos, mas não de tudo.
Recalcado é sinonimo, ao mesmo tempo, de compreendido e de reprimido.
Compreendido é entendido. O exemplo que o www.dicio.com.br, no verbete entendido, é "homem entendido em negócios", que não é uma desvalorização, aliás, muito pelo contrário. Deveria me sentir até lisongeada, por ter a possibilidade de ser "entendida" em quanto "mulher entendida em negócios". Soa esquisito... Não soa do mesmo jeito, mas o www.dicio.com.br é para pessoas de marca vitoriana e não define a existência de um significado popular "chulo" ao feminino de entendido. A entendida, sabemos, não é a mesma coisa de um "homem entendido em negócios".
Para procurar, então, uma identidade de sentidos à palavra "recalcada" precisei sair da sinuca de bico representada pela cadeia de definição que me levou à inexistência, ainda em sua definição de palavra de baixo calão, da definição de "entendida". Muito bem, comecei, aí, a seguir as definições de outra palavra que traça os contornos de "recalcada". Para recalcado, tem a definição de percebido, que leva a "que se percebeu". Ou seja, percebeu-SE. O contrário do humilde: o arrogante. Sim, recalcado/a é uma forma de uma polidez maravilhosa para falar "arrogante". Não é sinônimo. É vizinho semioticamente. Tem definições, no conjunto de palavras que definem e que são sinônimos, de arrogante e recalcado que são comuns. É uma tonalidade da arrogância socialmente aceitável, pois em sendo contido o recalcado não exagera em seus modos e afirmações. Em geral, mas não sempre. Se fosse sempre contido em suas manifestações de arrogância, não seria arrogante, nem recalcado. Mas não, é recalcado, cuja cadeia de sentido leva a atitudes que, em suas ambiguidades, não são necessariamente negativas. O próprio verbete contido é... "contido". A sequencia contido/recalcado/reprimido indica uma arrogância no mínimo consciente de si mesma. Não tendo eu outras pistas a seguir, para pensar arrogante e recalcada, levo isso praticamente como um elogio, pois oferece uma gama de gradações de mim um pouco mais "abertas" do que simplesmente o rótulo "arrogante". O termo "recalcado" não é nem óbvio nem simples, quando usado para "definir" uma pessoa, a torna mais complexa ao invés de banaliza-la. Recalcada é uma arrogante politicamente correta em suas posturas, mas ainda assim, "pernóstica, pedante e pretensiosa" em muitos aspectos (vale a pena descobrir as definições...).
Depois de tudo isso, venho à questão que quero discutir:
Chamo aqui todos para testemunhar que, daqui em diante, tentarei eliminar o uso do adjetivo METIDA de toda e qualquer referência a mulheres, sejam elas "amigas" ou "inimigas", em qualquer circunstância eu me encontre.
Depois de eu explicar, vão entender porque é importante que uma pernóstica, arrogante, recalcada, pedante, pretensiosa (usem o termo que quiserem, eles apontam para uma única coisa, são somente "degraus diferentes" de expressar a mesma coisa) seja chamada com essas palavras, mas não com a palavra METIDA, pois é uma palavra que pertence a um campo semântico totalmente diferente... Ou, talvez, não.
Quero frisar que o problema não é a arrogância, mas o uso para definir uma mulher arrogante com a palavra METIDA.
Nada a ver. Nhão nhão nhão.
Arrogante (que pode derivar, pernosticamente, do latim arrogans, arrogantis, terceira declinação, portanto virou, em geral masculino, mas é difícil entender de cara o "gênero", pela terminação em e..., mas não se preocupem, indica, em primeiro lugar, o masculino) pertence à semântica de empolado (pernóstico, pedante), vaidoso, soberbo, presunçoso. Em breve: é um dos sete pecados capitais, é por culpa da arrogância de uma mulher que nos expulsaram do Éden... Ato de soberba... Pior ainda: existe uma tradição profundamente enraizada que diz que às mulheres cabe a modéstia, que a vaidade é pior em uma mulher... Uma mulher arrogante pode se-lo menos que um homem, sempre o será mais...
Presunçoso me surpreende, pois é tudo de mal, pois tem uma opinião muito elevada de si, é pretensioso, rebuscado... peraí, rebuscado é um termo interessante, é complexo, remete a recalcado, remete ao mundo barroco das metáforas "rebuscadas", será que é de todo ruim?
Lá fui eu ver. Rebuscado: esmerado, polido, requintado, aprimorado... eis a grande complexidade e riqueza de definir um arrogante usando o termo recalcado: também é polido. É, de certa maneira, um reconhecimento de qualidades... É uma crítica que elogia, um elogio que critica: cuidado com sua arrogância, mas pode ser algo legal dependendo do uso que você, recalcado, faz disso.
Nesses tempos de trajetórias limitadas entre o Big Brother Brasil e as fofocas da Veja, capazes de dividir de maneira monstruosa as opiniões, o uso de termos como recalcada para uma mulher é extraordinariamente enriquecedor.
Mas METIDA continua a não ter nada a ver com essa semântica.
Ouço com frequencia o uso da palavra "metido", em geral utilizado como sinônimo de arrogante.
E, com efeito, meu www.dico.com.br me explica que metido está na mesma "casa dos sentidos" de arrogante, pois diz que é alguém presumido e petulante. Diz outras coisas também, mas nunca ouvi o uso da palavra metido no sentido de "familiarizado, que vive em intimidade".
Então, METIDA seria o feminino de metido????
Não.
Não é.
Nada a ver.
O dicionário, nesse caso, define, através do uso que na gíria é feito o feminino de metido. Lembro que, no caso de entendida, a gíria não existia. Novamente, me vem a suspeita de escolha vitorianas...
METIDA: sf (part fem de meter) gír Cópula, coito.
Particípio feminino de "meter". Uma metida é um ato sexual realizado por alguém que "se mete" e alguém que, passivamente, "recebe".
A definição de meter, no dicionário, não se refere a qualquer ato sexual. Diz que meter é pôr dentro, introduzir. É evidente que se trata de um sentido bem ativo. Meter é usado também para indicar algo que, na gama de um imaginário ocidental é objeto de inúmeras narrativas: meter-se como aventurar-se, fazer algo sem estar em condições de faze-lo. Interessante o deslize para a esfera semântica do aventureiro, que vai desde Ulisses (o vagabundo) até Jack London e muito além. Oh, é tudo tão viril que se torna até estereótipo hollywodiano de muitos heróis, com efeito aventureiros, que se metem, se aventuram e, possivelmente, encontram uma mulher para exercer outro uso da primeira definição (ativa) que define o verbo.
Aventureiro tem uma oscilação fascinante de sentido, entre temerário e vagabundo).
Bom, chamar um macho de metido é menos feio do que a gente imagina. O campo semântico conjura para que o metido possa ser uma pessoa fascinante... um homem vivido. A definição de temeroso é a seguinte: Que infunde temor; terrível, assustador: o temeroso guerreiro não poupava os inimigos. (essa é a PRIMEIRA definição dada pelo meu dicionário de auxílio ao português.
Então, se metido é quem infunde temor; terrível, assustador: o temeroso guerreiro que não poupava os inimigos, enaltece uma certa idéia de virilidade correntemente presente no mercado das idéias.
E aí, METIDA é somente o feminino de metido?????
NÃO, DE JEITO NENHUM.
A definição é clara: é uma cópula.
Quando alguém, crente que está falando da arrogância de uma mulher usa o termo METIDA, simplesmente está dizendo que essa mulher não passa de uma presa sexual para um homem que, naquela situação é aquele que age feito "o temeroso guerreiro que não poupava os inimigos".
Sem sabermos disso, ou sabendo (o que é a mesma coisa), usamos uma expressão de um sexismo absoluto todas as vezes que denegrimos a complexidade do recalque de uma mulher, amarrando-a à pura sexualidade.
Como sou pernóstica, saibam que
SIC DIXIT FONS VOCABULÁRIUM PORTUGHESIS LINGUAE IN LINEA.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

INDOVINELLO: COSA C'È CHE NON VA NEL PROFILO DI QUESTA DONNA????

Indovinello: cosa c'è che non va nel profilo di questa donna????



Su Repubblica di oggi c'è una galleria di foto che mi ha lasciato... "puzzled".
Sono delle foto di PROFILI femminili. In ogni foto, c'è il nome della proprietaria. Ed io ho perso del tempo a cercare "il difetto". In venti donne del calibro di Angelina, Charlize, Nicole, la principessa della "perfida Albione"... Ma povere... non importa che queste donne si debbano adeguare agli standard degli studios, e pochissime resistono a questa necessità. Devono pure essere oggetto di sguardi "sul profilo DEBOLE". Trovo molto sgradevole che la stessa stampa che per mesi ha scritto che era indecente lo sguardo del truffaldin cavaliere sul corpo delle donne, che era vergognoso che l'uomo dai mille mestieri guardasse il didietro alla Merkel (e quel che è peggio, lo commentasse...), mi proponga di avere lo stesso sguardo sulle foto che mi offre.
Mi da fastidio perché mi rendo conto che hanno fatto di me una "merce di scambio". Mi hanno raccontato che loro non ci stavano a guardarmi con il sapiente occhio clinico del chirurgo plastico, ma vedevano in me qualcuno. Invece, anche loro continuano a trattarci come corpi, che nascono e, peggio, cambiano sempre nel modo "sbagliato". Comunque, corpi imperfetti. Non si capisce perché, con questa idea che circola sul fatto che una donna non può mai essere tale - deve essere un lolita, nell'aspetto, nel comportamento, nel livello intellettuale e riflessivo -cerchino pure di convincerci che possiamo essere perfette.
La galleria di Repubblica, grazie ad un testo degno dell'ormai ex capo del governo, si rivolge a donne e adolescenti che entrano sul sito per dirgli "guardate, siete e sarete sempre delle ciofeche indigeste, a meno che non abbiate tempo e denaro per rifarvi ANCHE il profilo".
Si rivolge ai maschietti dicendo "Le vostre compagne stanno a queste immagini come la Merkel sta alle veline nella nostra virile concezione italica di cosa sono le donne".
Ossia: donne, plastificatevi. Che il vostro corpo non indichi la vostra umanità fatta di peli, odori, espressione, stanchezza, allegria e tristezza. Cominciate dai piedi, che non devono avere calli anche se usate un tacco 12. Estirpate quei peli dalle zampe - di grazia! - che sembrate delle MAMMIFERE! La pelle deve essere sempre liiiiiscia, per poter mostrare le gambe e le braccia. Anzi, visto che ci siamo, non dimentichiamoci il PUBE. Questo sconosciuto. Pieno di peli. Sembrate delle donne! E invece no. Meglio sembrare delle imPUBEri. E non dimenticate di fare qualcosa per quelle ascelle IM-PRO-PO-NI-BI-LI! No, non si tratta solo di depilare, bisogna evitare che abbiate qualsiasi odore umano. E poi, la grande novità! Finalmente il deodorante che "ripara" la pelle delle ascelle e la rende liscia come il culetto di un neonato. Questa mancava. Neanche le ascelle lasciano in pace a crescere le giuste cicatrici dopo una vita in cui sono state costrette a depilazioni crudeli...
Ossia: uomini, scegliete le vostre bambole. In ogni confezione troverete i pezzi di ricambio: un naso più corto, un mento in meno, quattro copie di ricambi di diversa misura di silicone (francese, se la bambola è made in china), tossine ammazza tutto.
Ho sentito e letto commenti, in rete, sulle nostre attuali ministre. Il meglio complimento era che una di loro è "una con le palle" (detta da un parmigiano a cui piacque la gestione della Cancellieri quando la città venne commissariata una prima volta). Poi, basta. O meglio, gli altri commenti sono in stile "macho al bar".
La Merkel non ci piace. Per colpa della politica che CONDUCE. Una donna di potere. Ma il macho da bar ci aggiunge un commento fisiologico.
Dilma Rousseff nessuno se la fila, perché l'Italia continua a pensare che il Brasile sia una Repubblica delle Banane". Intanto, però, Ha messo in vari posti chiave delle donne potenti (dell'imprenditoria, della Cultura, dell' economia...). Una donna di potere. Ma il macho da bar ci aggiunge un commento fisiologico.
In casa gioca l'inossidabile Rosy Bindi. Sulla quale non se ne può più di sentire che il macho da bar coincide con l'uomo razionale per eccellenza, il politico.
In ogni caso, tornando a Repubblica: vi state rivelando dei veri machos, proprio come si vede alla TV. La vostra falsa solidarietà nasconde il tipo peggiore di macho, quello paternalista. Il boccaccione lo conosciamo bene.
Alla fin fine, però, anche voi così pronti a cercare la trave nell'altrui occhio non vi siete curati del tronco che avevate voi. Perché, mi chiedo, tanto odio per la nostra umanità?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A DESELEGÂNCIA DESSAS JÓIAS...

Essa publicidade me foi assinalada por uma aluna, e achei por bem publica-la aqui, para "documentar" que as minhas não são as viagens de uma mulher histérica e infeliz, obcecada por absurdas manias de perseguição, que se engana em ver esse mundo como pouco acolhedor para com as mulheres.
O anúncio possui também uma escrita que acompanha a imagem, que diz que foi "inventado o primeiro controle remoto para as mulheres".
Basicamente, se trata de uma publicidade extremamente vulgar, cuja mensagem é mais que óbvia: dê uma jóia de presente para uma mulher e ela... automaticamente "abrirá as pernas".
E depois tem gente achando que sou eu que vejo machismo em tudo!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

CAIO MACHÃO CASTRO???

Premito que não assisto novela, falta-me paciência e interesse.
Porém:
leio as notícias.
Assim foi hoje, quando me deparei com as afirmações desse representativo das "tendências atuais". Que significa: assim que lhe falaram que foi politicamente incorreto, pediu desculpas, mas não tenham dúvidas, para ele, é melhor "pegador do que veado".
Que seja. A fala, em si, é fortemente preconceituosa, mas já sabemos que na terra dos machos é também fácil ouvir coisas como "melhor um filho ladrão do que veado".
Os gays que se cuidem.
Minha questão é outra. Nesse requintado (ou requentado???) linguajar, todo mundo aceita o termo "pegador" sem qualquer problema. Aliás, pelos comentários postados pelos leitores da Folha no final da notícia, é motivo de orgulho profundo "pegar" as mulheres.
As quais, nessa lógica, não passam de presas passivas. Eu pego o ônibus. Pego o carro. Pego as chaves de casa. Pego COISAS e não pessoas.
Nessa violência da linguagem, está embutido o direito de estupro.
Só pra constar...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A DERROCADA DE QUALQUER HUMANIDADE


Em que ano estamos?
Até ontem, achava que era 2011. Já hoje tenho a sensação de perdermos um milênio. Pelo menos em Black Stream, alguém esqueceu de mudar o calendário, e paramos, assim, no ano 1000.
Se continuar assim, em breve voltaremos à Idade da Pedra, e as mulheres serão escolhidas a pauladas na cabeça. Por enquanto, estamos na caça às bruxas.
Em 2011 somos obrigados a ouvir afirmações do seguinte teor:
"DEMITA ESSA LÉSBICA SUJA E NOJENTA IMEDIATAMENTE, QUE NUNCA MAIS APAREÇA EM MINHA FRENTE". É isso que acontece em Black Stream.
Mulheres que dão nojo, pois não estão à disposição das fantasias de dominação masculinas. Mulheres que dão nojo, pois buscam sua independência na vida quotidiana, no trabalho, no pensamento.
Em 2011.
Discriminação é crime?????????
O rancor surdo e tamborilhante de machos psicologicamente impotentes aqui está. E não adianta acharmos que tudo está resolvido porque existem leis.
A lei Maria da Penha não vai impedir que as mulheres sejam espancadas.
As leis que proíbem a discriminação em razão de raça, gênero ou orientação sexual não vão impedir que negros, negras, gays, lésbicas e mulheres fiquem mais em baixo na escada social, que apanhem, que sofram maus tratos, violências físicas e psicológicas.
Assim como a lei que proíbe o aborto não impede que as mulheres o pratiquem, de maneira perigosa e, frequentemente, prejudicial à saúde.
Tem algo profundamente errado em tudo isso. Um tsunami, uma onda de ódio, disfarçada de hipocrisia, é o que se vê todo dia cobrindo de lama as vidas dessas pessoas.
Nã me interessa se a moral cristã é hetero-dirigida. Nos ditos valores cristãos não existe mais qualquer forma de pietas, só existe ódio, medo, castigo que não é sequer ministrado por algum Deus impiedoso, colocado lá em cima mas, sim, por homúnculos arrogantes e infelizes, que se dizem portadores de valores morais. Com cantava Zélia Duncan, os imoráis falam por nós.
Olhamos para o mundo muçulmano com terror, julgando que se trata de uma maré de selvagens, e uma das razões de nossos medos "civilizadores" decorre do tratamento reservado às mulheres.
Todavia, começa a surgir uma dúvida cruel em minha cabeça: não será que, na verdade, todo o espernear ocidental contra "os mouros" decorre do medo de não poder dispor mais de corpos desnudados, de mulheres "bundas & tetas" disponíveis para fantasias que nos despojam de qualquer qualidade humana, de qualquer vivência?
Vivo recolhendo testemunhas de mulheres que perdem o emprego porque não se colocam a disposição de seus chefinhos enquanto bocas e outras cavidades.
Vivo ouvindo afirmações que denigrem tudo que as mulheres fazem, reduzindo-as a pedaços de carne.
Quando não perfumam mais a juventude, as mulheres baixam a cabeça, na humiliação de não ter como pagar suas contas, com parceiros que, em troca de planos de saúde e de um teto, as tratam feitas coisas, as insultam, as abusam.
Quando não são disponíveis aos abusos morais, quando são insubmissas, passam a ser ofendidas, desprezadas, insultadas. E tudo isso, no silêncio da cumplicidade de homens que, no fundo, compartilham da visão.
E de mulheres que, apavoradas pelo constante repetir-se da impunidade, cada vez menos se sentem seguras para tomar uma postura diferente. Melhor ficar caladas, pois as próximas podem ser elas.
Não é mais nem uma sociedade patriarcal, pois nessa às mulheres se confia um papel de submissão mas, ainda assim, quando elas nesse papel se "encaixam", de respeito.
Não, estamos muito além de qualquer patriarcalismo. Estamos em uma pseudoliberdade, onde o mais forte manda, explora, maltrata, insulta, arruina vidas, impede a livre expressão e, PRINCIPALMENTE, que uma mulher possa ganhar HONESTAMENTE seu pão de todo dia. Qualquer lição de tolerância é esquecida, em Black Stream, mas não somente aqui, é regular tomar qualquer liberdade sobre a vida e os corpos das mulheres, pois a impunidade é praticamente garantida, pois na alegre confraria do "clube do bolinha" se tem consciência de que a maioria estará do lado do macho, e no limitado "clube da luluzinha" a preocupação de perder casa/trabalho/RESPEITO amordaça e deixa tudo como está... E tudo se resolve em piadas de mau gosto e na desigualdade mais profunda e injusta que, na história, nem a Idade Média mais estereotipada jamais alcançou...
É tudo verdadeiro. A realidade ultrapassa qualquer imaginação.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

UMA RESSALVA...

Oi, eu de novo...
no meu post anterior, falei de cabeleireiras e concessionárias... Gostaria de fazer uma ressalva, pois não gostaria que, em uma leitura leviana, as cabeleireiras fossem associadas com a prostituição.
ENTÃO, quero deixar claras algumas coisas.
1) Se é verdade que existe a "tradição" de as prostitutas aposentadas abrirem salões de beleza, isso NÃO SIGNIFICA ABSOLUTAMENTE que todas as cabeleireiras têm relação com a profissão das ruas. Somente significa que as ex-profissionais das ruas em muitos casos investem nessa outra profissão. A maioria das cabeleireiras, porém, não tem o antecedente de ter trabalhado na rua, tá?
2) A distinção entre os investimentos das ex-prostitutas e dos cafajestes é uma relação que demonstra que também no mundo do sexo a pagamento, há um forte desequilíbrio de gênero: os cafajestes ganharam muito mais explorando as mulheres, pois concessionárias são um investimento bem mais caro do que salão de cabeleireira.
3) Também faço uma segunda ressalva: nem todos que abriram concessionárias já foram cafajestes.
Agora, escrevo isso só para não ofender a sensibilidade de ninguém, nem os profissionais sérios (que existem).
E, por último: respeito mais as ex-prostitutas, que continuam trabalhando duro em seus salões, do que os ex-cafajestes, que continuam explorando o trabalho alheio...
FUI CLARA????

40 não significa dois de 20!!!

Idade não é uma questão de aritmética, de somas, subtrações.
Uma mulher de quarenta anos não vale, simplesmente, duas de vinte. Mulheres habilidosas, cuja riqueza de experiência adquirida ao longo de quatro décadas de vida, são substituídas, no mundo do trabalho, por lindas, LINDÍSSIMAS garotas de vinte. Somente porque os donos das empresas babam. Ou, pior ainda, porque profissionalidade, capacidades, habilidades das mulheres de quarenta valem zero, nessa matemática, quando a aparência vale 100. Porque vivemos na ditadura do corpo. Porque as mulheres continuam a ser somente isso.
Como sempre, não vale o mesmo para os homens. Muito pelo contrário: homens grisalhos inspiram confiança. Assim, uma amiga querida é despedida sem qualquer justificativa, despachada porque não satisfaz os sonhos babões de algum macho no cio. Porque é trabalhadora, séria, mas já tem quarenta anos. Não estou brincando, aqui precisa mesmo de uma reflexão sobre o que acontece no século XXI.
Deixem-me, então, narrar a vocês porque o Brasil é, sim, um país injusto, um país em que "puxa mais um pentelho que uma parelha de bois".
Estamos em Black Stream, bisonha localidade de clima insuportável, dentro do estado mais "desenvolvido" do país. Há uma empresa, da qual poderia fazer o nome, mas não farei, porque uma vale a outra. Vamos dizer que se trata de uma concessionária que vende carros bem caros, daqueles que se adquirem mais para revelar o status do que por necessidade. Minha amiga é contratada para vender esse produto, na base de um curriculum profissional que revela uma trajetória de seriedade, quase vinte anos de trabalho durante os quais obteve reconhecimentos como melhor vendedora. Para ser contratada, precisa montar uma apresentação sobre um dos produtos. Começa, assim, a trabalhar na empresa. No primeiro dia, ela é apresentada à equipe. O gerente faz questão de realçar o valor PROFISSIONAL de cada membro. Sublinha a seriedade e a competência de cada um, inclusive dela. Sublinha, TAMBÉM, que ele não está interessado em "rostinhos bonitos" (do qual, diga-se de passagem, minha amiga é dotada), mas em resultados, isso é: VENDAS. Enfim, tudo parece se encaminhar da maneira mais séria, concreta, profissional. O primeiro mês, minha amiga não é colocada diretamente nas vendas, pois precisa "aprender". Passa, assim, por uma fase do treinamento. Ainda assim, vende. No segundo mês, apesar de novos impostos que gravam sobre os produtos, vende. Na média de venda da equipe inteira. Aí, começa o terceiro mês. O gerente coloca, para ela, uma meta de vendas, que ela terá que cumprir até o FINAL do mês. Já na primeira semana, cumpre com um terço da meta.
Porém. Porém.
No entanto, algo acontece. Um dia, chega um conhecido dela, para conversar com o gerente. Na frente dela, o ELEMENTO pergunta sobre o desempenho dela. O gerente responde que está começando, que está tudo bem. Sempre na frente dela, o ELEMENTO (que, repito, não é nenhum amigo, é um conhecido), afirma que ele TEM (perceber, por favor, o verbo de POSSE, está falando em mercadoria...) uma verdadeira mulher para a empresa, uma moça belíssima que deveria trabalhar na empresa. Minha amiga, a essa altura, levanta e sai da sala.
A conversa acaba e o gerente encerra o dia com uma pergunta para minha amiga: "Você é homem ou é mulher?"
Intervalo. Publicidade.
Segunda parte.
Minha amiga volta ao trabalho depois do final de semana. Como disse, é começo de mês e já cumpriu com um terço da meta pedida. Na segunda feira, o gerente resolve perguntar aos funcionários, todos, fora ela, se acreditam em papai Noel.
Suspense.
Na terça feira, logo depois de realizar mais uma venda, minha amiga é chamada e, sem qualquer explicação, recebe uma carta de demissão. É mandada embora. Sem explicação.
O melhor.
A explicação chega: uma linda jovem. As mulheres da limpeza vão ter que trabalhar em dobro, para limpar a baba dos machos da empresa. É uma babação absoluta.
Mas minha amiga é demitida. Sem mais. Sem menos.
A coisa é tão repentina, que no RH até escreveram a carta com um sem número de erros.
É tão repentina que chega o pedido mais ABSURDO que funcionário já recebeu: "como ninguém estava preparado para suas demissões, você poderia adiantar as verbas recisórias, que depois a empresa te reembolsa?". Pedido ao qual, evidentemente, minha amiga se nega.
No dia seguinte, ela vai recuperar suas coisas, e descobre que:
a) A moça MARAVILHOSA não passou nem por entrevista, nem por qualquer tipo de apresentação.
b) O dono da empresa, que assinou sua carta de demissão, está tão deslumbrado com o corpo novinho a sua disposição, que chegou a levar de pessoa a moça MARAVILHOSA para o exame médico.
c) A moça MARAVILHOSA não tem nem que esperar um treinamento, nem o uniforme, já começa a ser "disponibilizada" aos clientes...
Para a minha amiga só posso dizer: bem vinda aos quarenta.
Para as outras mulheres que trabalham na empresa, só posso dizer: cuidem-se, pois o próximo rostinho bonito que passar por aí (assim que o novo método de contratação se espalhar, vai ter fila) é o trabalho de vocês que vai para o brejo.
Para o gerente, só posso dizer: e agora, o que você vai fazer, quando apresentar a equipe? Realçar as qualidades profissionais de QUEM?
E, finalmente, para o dono, GOSTARIA de dizer: há uma visão popular, de onde eu venho, que diz que quando prostituta se "aposenta" abre salão de cabeleireiro, quando cafajeste se aposenta abre concessionária... O senhor acabou de demonstrar que essa visão é pra lá de verdadeira.
Ainda.
Gostaria de dizer que tudo isso demonstra a desqualificação das mulheres, novamente reduzidas a "rostinhos bonitos", a "corpos desejáveis", e que descanse em paz a competência, a profissionalidade e a experiência.
De quem é a culpa?
A culpa, sinto dizer, não é dos machos, dos cafajestes, da incapacidade dos homens em governar seus hormônios (o que os coloca realmente no nível dos animais bem pouco racionais).
A culpa, sinto dizer, é NOSSA. Das mulheres. Que não sabemos dizer BASTA às regras dos machos no cio.
PRINCIPALMENTE: a culpa é nossa, porque não podemos ter eternamente vinte anos.
Essa é uma empresária de verdade.













Esse é o sonho masculino de quem deveria trabalhar...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A MALA EDUCACION GLOBALIZADA

Sexta feira passada fui comprar a comida para os meus gatos. Na entrada do estacionamento da loja havia um pouco de fila. A rua é mão única. De repente, um machinho idiota chega na contramão e tenta furar a fila. Eu, impávida colossa, fingi que não vi e não deixei o moleque entrar na minha frente. O cara começou a berrar, enfurecido, me xingando de malcomida e malamada. So levou meu dedo em riste. Mas isso não seria nada, se não fosse que estamos em um quadro muito mais amplos de ofensas dessa natureza espalhadas pelas boquinhas muito sujas de muitos homenzinhos pelo mundo afora. É só ler as páginas dos jornais, para ver como esse tipo de insultos atravessam transversalmente a nossa realidade. Desde a política, pois é cada vez mais comum o uso de palavras dessa natureza nas aulas dos parlamentos, até o mundo do espetáculo, e o tal de Rafinha CHEIO-DE-ÓDIO-DAS-MULHERES Bastos é o último exemplo de uma longa série.
Não há muito como fugir disso, quando se vive em uma realidade em que, por exemplo, se enaltece a imagem feminina do jeito que os publicitários fazem nos comerciais da Hope: a Gisele Bundchen ensina que é possível convencer um imaginário parceiro a pagar para tudo e a ficar tranquilo sobre o arrombo na conta bancária oferecendo suas graças. Me digam se esse não é um convite claro a nos transformarmos em um corpo sem cabeça, sempre e de qualquer jeito!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

FEMINISMO & FEMINISMOS



Black Stream é mais um lugar onde pertencer ao sexo feminino já cria desvantagens. Não vamos fingir que uma cidade provinciana do interior represente uma vanguarda nos costumes & nos hábitos das relações de gênero.
Viver no meio de posturas machistas é uma experiência que, em maior ou menor grau, todas as mulheres vivenciam. Machismo é algo que pode ser grosseiramente expresso ou adquirir tonalidades mais sutis, portanto mais difíceis de se enfrentar. O leque da expressão "soft" machista, daquele macho, para ser clara, que gosta de se declarar "não machista", se abre com as piadas sobre as loiras, seguidas com as piadas sobre as feministas quando não demonstramos particular agrado pelas piadas sobre as loiras. Seguem tratamentos que oscilam entre prestar uma atenção distraída ao que se fala, com respostas paternalistas e, em geral, esses machos autoafirmados como "não machistas", te olham e te escutam como se sempre estivessem um degrau acima: sempre com uma certa condescendência. Em geral, demonstram interesse nas tuas palavras somente se neles há alguma forma tesão sexual. Tua cabeça é avaliada como inversamente proporcional ao tamanho da bunda, o fetiche "grande" dos brasileiros.
De tanto passar por isso, se acaba adquirindo uma doença muito comum e infecto contagiosa, a "síndrome de gênero": a eterna incerteza, o eterno ficar na fronteira entre aceitar que você é um modelo e se retrair como "uma boa mulher faz", cedendo o passo aos homens, ficando atrás de
suas figuras... assim, mulheres de destaque, de liderança, habilidades que você, às vezes, parece olhar com perplexidade, como se essas qualidades não lhe pertencessem, acabam sempre em segundo lugar. O problema é que quando damos peso aos chiliques de homens de TPM ou quando cedemos à arrogância de quem se acha poderoso, especialmente perante mulheres, único poder que lhes é dado por uma idéia errada de "natureza" dos gêneros, que vêem como menos poderosas, acabamos nos "reduzindo". Ainda mais se não somos jovens, atraentes e simpáticas. Somente mulheres comuns capazes de pensar não somente nos trilhos daquilo que toda mulher pensa desde criança, mas também naqueles territórios que pertencem à tradição e à linguagem masculina, como a ciência ou a política.
Sempre me é difícil digerir que mulheres capazes, ativas,inteligentes e habilidosas, que já obtiveram reconhecimentos pelas suas atividades acabem deixando papeis de relevância nas mãos dos machos. Que, regularmente, se consideram à altura, e se reconhecem entre si nesse papel. Poucas e importantes são aquelas mulheres que conseguem se salvar de rótulos estereótipos ligados ao feminino. Por isso que gosto da Dilma, diga-se de passagem...

É necessário que haja uma mudança de atitude perante as mulheres jovens que buscam se espelhar, encontrar e reelaborar modelos femininos. Seria interessante que se encontrassem enfrentando o desafio de se tornar mulheres fortes, empoderadas (empowered) e que apresentam resultados de maneira tal que ninguém ousasse mais olha-las com uma certa perplexidade, ponderando quem foi o homem que as colocou lá. Sempre de passagem, diga-se que a Dilma não escapou disso... aqueles que não a queriam, a atacaram alegando que atrás dela havia a figura do Lula. Claro que sim... como atrás do Serra havia o FHC na época de sua disputa contra o próprio Lula... E que eu lembre, não pareceu tão estranho! Enfim, quando se coloca o Lula "atrás" da Dilma, se entende que ela não tem vontade própria e que ela será mera executora das vontades do Lula. Por sorte, a Dilma é, definitivamente, outra coisa respeito à essa idéia. Quer se goste ou não da política atual. Ela deve tornar-se uma figura de referência, um modelo com o qual confrontar-se.

Em uma certa medida devemos nos perguntar como desenvolver esse modelo. Aliás, em termos de "teorias de gênero", essa questão de modelo feminino que abre e mostra caminhos às outras é fundamental, porque raro e marcado por dificuldades, dúvidas e, também, os erros de quem pisa em territórios que nem sempre reconhecem nossas habilidades ou, até, nosso direito de sermos "ambiciosas". Precisamos procurar e nos tornar poderosas "mães simbólicas" para aprendermos!!