segunda-feira, 24 de setembro de 2012
CAMPANHA: "SACRIFICAR UMA MARIA-FUMAÇA EM PROL DE TODAS AS OUTRAS!
Depois de postar o post (postado ontem) pensei em melhor elaborar o plano "Harry Potter encontra o Sacî" através das viagens de trem.
Como disse, Black Stream possui uma Maria Fumaça enferrujada e deslocada perto da Rodoviária, como lembrança eternamente esquecida do meio de transporte que no local parava há algum tempo atrás (algumas dezenas de anos não representam "muito tempo atrás", pois há gente viva que lembra ainda disso...).
Black Stream possui outras Maria-Fumaça em vários pontos da cidade, algumas mais algumas menos lembradas pelas pessoas. Existe uma praça imensa, divertidíssima, com um longo e circular trilho e relativa miniatura do trem que percorre o espaço/tempo da aventura ferroviária e econômica da região. Enfim... áreas distantes que dificilmente podem ser visitadas em um único dia a pé por escolas, crianças, crianças escondidas na adolescência, adultos que curtem suas crianças... o que quero dizer é que é possível pensar em pequenas ações públicas altamente ligadas ao mercado que têm "consumidores" ou podem vir a ter "consumidores" nas figuras jurídicas das escolas (públicas-gratis/particulares-pagas = melhoria de ensino/pode ser calculado como imposto municipal e "descontado", esta parte eu não conheço, precisa de expertise, mas vou em frente com a idéia).
PROPONHO, aqui, uma forte parceria com o mercado para aproximar a cidade de sua história.
Vamos lá:
Podemos nos ajudar com audio visuais no começo do pacote.
Ainda nas escolas, antes do embarque na viagem mágica, vamos fornecer as coordenadas às crianças:
Conhecem Harry Potter? Sabiam que Harry Potter veio ao Brasil? E como ele viajou? De trem, é claro! Hoje vamos ver qual é o trem que ele usava para ir a escola! E, principalmente, vamos ver como ele viajou por aqui. E aí contar que o inglês veio fazer um intercâmbio com as criaturas mágicas brasileiras (toma-se, aqui, uma linha de contação de contos da mitologia brasileira na qual se reflete a região).
Enfim, se levam as crianças para visitar o primeiro trem mágico descoberto/importado aqui no Brasil. E depois os outros, que viajavam pela ferrovia disfarçados de trem de gente e de carga... E de conto em conto se percorrem veredas locais... Eu tenho a sensação que é uma "contação de contos" que poderia ser realizada por gente preparada e voluntariosa que queira fazer experiência com algumas formas de mediação que obrigam a refletir sobre a hibridização das culturas não como hipótese remota, mas como fenômeno presente, quer se goste ou não, com o qual é necessário (e desejável) contar.
Estou então eu, FdP, lançando uma campanha para sacrificar uma Maria-Fumaça em prol da sobrevivência de outras... E vejam bem, nem precisa sacrifica-la materialmente, sei, lá pintando-a de vermelho e preto, não... é mais do tipo "um sacrifício espiritual", pois ela voltaria a ser inglesa (aliás como todas as Maria-Fumaça da época, diga-se de passagem...), mas permitiria muitas conversar sobre criaturas mágicas locais (mediadores preparados para ler/interpretar de Monteiro Lobato até Câmara Cascudo). Sobre trens e história, geografias e tempos (são, na verdade, muitos eixos possíveis, mas eu fico com o eixo literário, se alguém quiser podemos pensar também em um eixo mais histórico, e depois em um eixo artístico... tantuffass, um bom trem te leva onde quiser!).
Agora, me seja permitido refletir sobre meu pequeno mundinho de sonhos, (mas se alguém se interessar, que me contate)... Eu proponho, aqui, não um projeto em busca de disneyficação da história. Não pretendo transformar o parque de transporte ferroviário antigo de Black Stream em parque de diversão. Penso, porém, que a arte do conto é algo que merece ser praticada também em lugares diversos da biblioteca, e pelo pouco que conheço, as criaturas mágicas brasileira já ganharam, em outros momentos literários, vida própria que pode ser competitiva até com o Harry Potter. Mas como somos da paz, para quer competir? Não podemos construir uma colaboração/cooperação entre escolas de magia inglesa e brasileira?
E, é claro, o percurso dos trens permite tantas outras narrações!
Agora, querem saber o que as crianças (crianças, como alvo primário!) poderiam usar para deslocar-se de um ponto para outro do percurso? Trenzinhos mágicos! As crianças gostam de brincar, e o fazem com muita seriedade: eles vão poder sentar em um verdadeiro trem mágico que apita e que vai leva-los a conhecer as criaturas locais... E se o público for composto de gente que curte Neil Gaiman, um público mais metido que curte HQ e fantasy, que Neil Gaiman apareça entre as referências, e que os donos dos trenzinhos se sintam incentivados a enfeitiçar suas máquinas cada vez mais...
Bom, como este é um mero manifesto, não vou detalhar tudo, né? O fato é que podemos realizar uma operação como esta até com parcerias múltiplas: sei lá, se tivesse uma agência júnior de CI, poderia se ocupar de todas as várias partes (do "plano financeiro" ao marketing final, da seleção/organização das leituras necessária ao preparo das (muitas) mediações, pensando no feedback que podem obter antes da atividade (prévias com as escolas que permitem realizar uma pequena avaliação da proposta para costumizá-la para "aquele" público????) e interações possíveis que podem ocorrer ao longo da viajem inteira, que deverão/poderão ser discutidas para a melhoria da atividade bem como em meios acadêmicos, principalmente em suas vertentes de implicações teórica.
As implicações são muitas, a graça disso é que realmente poderia ser pensado não somente na perspectiva do que os poderes públicos devem/podem fazer, mas de novos modelos de parcerias. Não, porque a gente não vai mexer na estrutura nem na forma das "coisas" que se encontram pela cidade, pedir a preservação, a manutenção, porém, na medida em que as "coisas" são apropriadas pela frequentação, pode se tornar um passo menos significativo do que todo o duro trabalho de quem justamente pede que estas coisas não sejam abandonadas pelos caminhos das leis. É, porém, uma apropriação que, eventualmente, gera o desejo afetivo de garantir estas memórias, ainda que por razões puramente afetivas que podem vir a ser geradas pelos elos literários que se propõem. Esta apropriação desejante pode, quem sabe, em algum momento, se tornar decisiva nas escolhas dos "bambambans" que (nunca) decidem decididamente o que fazer com "as coisas"...
Quanto "food for mind" uma coisa assim pode proporcionar? Eu acredito que seria muito.
E aqui vai a "grande viajem para o mundo da mágia" que é possível fazer em Black Stream, lugar com alta taxa de presença de criaturas mágicas da região: muitos andam de beetle (nome inglês para fusca), que todos sabem ser inseto voador (tipo joaninha, sobre a qual cavalgam as fadas), há casas que, à noite, revelam pedras brilhantes nas paredes....
E se acreditamos na contação de histórias nas bibliotecas, por que não podemos realizar experiências em 3D?????
Eu sei lá, acho que nem tudo vira Disney somente porque quer entreter... contação de conto é entretenimento legítimo, certo? E é para ser divertido, certo?
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domingo, 23 de setembro de 2012
PALHAÇOS & IRREVERÊNCIAS
De todos os elogios que já recebi em minha vida, ser chamada de irreverente porque considero culturalmente interessantes trabalhar "fora dos trilhos" utilizando de maneira insólita o que faz parte do panorama urbano da cidade onde resido me parece um resultado no mínimo interessante. Que bom que nem tudo que a gente leva a sério deve ser sisudo, que bom que não faço parte dos mumificados que se consideram iluminados e que olham sempre com muita reprovação as lascas nos olhos alheios sem se aperceber dos troncos de carvalhos que carregam cravados na alma...
Que bom poder passear por panoramas tidos como conhecidos sem olha-los como lastimáveis, mas procurando neles aquilo que constitui nossa vivência quotidiana. Que bom poder aproveitar também do mundo como ele é, procurando as secretas tramas que unem o passado ao presente, sem resmungar sobre a fantasia de um presente sem estética oposto a um passado idealmente ético... Que bom encontrar a ética dos grafiteros na sua estética!
Gostaria de ser mais irreverente ainda. Gostaria de transformar aquela Maria-fumaça que fica enferrujada e se tornou mictório de sem-teto lá perto da rodoviária de Black Stream no expresso vermelho de Hogwarths. Levaria todas as crianças que sonham uma escola como a de Harry Potter nesse trem dos sonhos deles, contando que, antes desta magia, aquele já era um trem dos sonhos, o trem dos sonhos de muitos imigrantes, e contaria esta história...
Irreverente, sempre, mas também, melhor isso do que o abandono atual das coisas no meio das brigas infindáveis de um poder público engessado, cego e elitista da cultura. Reverência se faz à monarquia, mas eu sou por natureza republicana e um pouco sacana e chafurdo com prazer na lama colorida da cultura mais pop de nossos tempos... Viva os palhaços, viva os bufões, irreverentes que sempre incomodaram os podres poderes de quem quer (m)andar em um único trilho do pensamento!
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
MARCHIONNE, CROZZA & IL BRASILE
Vorrei contribuire a capire il personaggio Marchionne interpretato da Crozza, che a Ballarò ha espresso la sua personalissima opinione sul Brasile. Temo che il livello di preparazione della classe dirigente attuale su economia e società sia proprio questo. O meglio, che gente come Marchionne sappia benissimo distinguere realtà e fantasia, mentre l'elettore medio forse ancora non del tutto. Questo perché vive in un piccolo mondo campanilista, in cui la conoscenza storica, geografica e sociale non esiste. esiste, però, la fantasia creata da prodotti al limite della fiction, rivolti al turismo o al desiderio di evasione di telespettatori e fruitori di magazines.
Molti italiani non sanno cosa sia il Brasile nella sua realtà socio-economica, che spiega il perchè la FIAT, qui in Brasile, vende.
Attualmente, il Brasile ha più di 177.000.000 di abitanti. La popolazione che è stata descritta da Crozza come predominante rappresenta poche centinaia di migliaia di membri delle nazioni indigene. Il resto della popolazione (che nonostante le popolazioni indigene continua attestata oltre i 177.000.000) vota, se vuole, a partire dai 16 anni. In Brasile esiste una legge detta "ficha limpa", cioè: i candidati alle cariche pubbliche non devono avere, tra i requisiti minimi per concorrere, processi a carico. Per quanto il paese soffra perché i corrotti non sono un'esclusiva italiana, questo è più di quanto l'Italia offra.
Perché si produce e vende la FIAT in Brasile? Nonostante il delirio post-antropologico di Crozza, che ci racconta che gente nuda che vive nelle capanne compra la Panda per venerarla come un Totem,
Negli ultimi 15 anni, dal governo Fernando Henrique ad oggi, il Brasile è diventato una potenza mondiale. Ha fatto scelte economiche e sociali che fanno si che oggi sia un paese che offre credito invece di avere un debito così immenso da non saper neanche da dove cominciare a pagare gli interessi.
Le persone, in questo stato di cose, guadagnano di più. Non voglio dire che sono più ricche, dico solo che guadagnano di più. Il Brasile continua ad essere uno dei punti della terra di fortissime disuguaglianze sociali. Una fetta molto consistente di popolazione, anche se vota, si preoccupa con il ferro da cavallo, più che con il SUV. Comunque, specialmente nelle aree più industrializzate del paese, c'è gente che compra la macchina per la prima volta. Un proletariato entrato in questi anni in una classe di consumo medio-bassa.
E la FIAT, con la sua tradizione di una macchina per famiglia che porta alla creazione dell'antica 500, in un paese come questo ci marcia! É una marca competitiva, costa meno per chi compra. In Brasile c'è la UNO. Quella nuova, fashion, costa di più. Più di quella vecchia scassona che tutti conosciamo. Qui, è una macchina perfetta. È la jeep dei poveri: un carrozzone che non ha problema con le buche (è alta!), va sullo sterrato e ha un baule che, per la sua categoria, continua il migliore, nessun'altra marca permette un costo/beneficio uguale. Risultato: è una macchina usatissima per servizi telefonici, manutenzione rete elettrica, idraulici... e altri mestieri che vanno un po' dappertutto e con casse/cassette/fili/ammenicoli professionali vari. Le revisioni e manutenzioni della FIAT costano molto meno delle altre. Nelle categorie popolari, vende un sacco la Palio (già permette una distinzione di classe rispetto alla UNO antica, quella nuova è un po' fighetta. La 500 è una macchina stupida, ma è considerata da ricchi - e in effetti, fa concorrenza soltanto al mggiolino contemporaneo, stupido e inutile. Quello antico qui va forte, in fondo era la 500 tedesca... ). La Palio, come la UNO, sono prodotte in Brasile. Quando Marchionne (quello vero) ha lanciato il SUV FIAT, non lo ha fatto pensando all'Italia, ma a un mercato col profilo Brasiliano. La FIAT, in Brasile, significa garanzia di incontrare pezzi di ricambio, di rivendere la macchina senza perderci troppo, di avere una macchina che, a tutti i livelli (dalla UNO al maledetto FREEMONT) costa sempre un po' meno delle sue concorrenti per categoria.
La nuova entrata nella classe C dei consumatori (e sono molti) con le origini nella classe D (non consumatori) mantiene la FIAT molto bene, grazie. Solo perché vi facciate un'idea: come docente universitario io gravito tra la classe C alta e la B bassa/media, dipende se c'è crisi in giro. Attualmente, sono B e ho appena rivenduto una Peugeot Escapade 1600 SW prodotta in Brasile per pagare una buona parte di una Palio Weekend Trekking 1600 (sempre SW). Quest'ultima è la sorella della prima in prestazioni/consumi/volumi, però: costa meno/ha più spazio/per la manutenzione in concessionaria spendo la metà.
Potete immaginare che, prima dell'acquisto, abbia valutato la concorrenza, e immaginate giusto.
La FIAT in Brasile funziona perché si vuole che funzioni! E finché avrà questa politica di vendite, il riflesso sulle politiche di produzione sarà, inevitabilmente, positivo, e gli operai di Betim, in Minas Gerais, dove ci sono gli stabilimenti FIAT, non si ritroveranno col culo per terra. Anzi, direi che da queste parti l'azienda non è in crisi. Gli operai della FIAT, da queste parti, riescono a comprarsi una FIAT, perché in Italia devono fare la fame?
domingo, 1 de julho de 2012
SHAKESPEARE EXPLICA...
A palavra família é uma palavra. Como gato, guitarra, casa... são palavras. Só que essa palavra, família, está se tornando objeto de disputas infindáveis, inúteis. Todos, políticos, cristãos e, em geral, as pessoas "cheias" de moral (tão cheias até se tornarem moralISTAS), querem colocar um excesso de pingos nos i dessa palavra, família. Querem declinar a palavra unicamente no singular mais monolítico possível.
A família, nessas infinitas discussões cheias de moral, é uma e sagrada.
Modelo bíblico. Ou melhor, uma interpretação reduzida e cheia de muros e limites.
A palavra família, engessada pela visão restrita dessa laia imensa, se tornou pequena, reduzida, estéril.
Se formos ver, no Antigo testamento família já é desfuncional:
Abraão está casado com Sarah, que não consegue ter filhos. Aí, dentro dessa "família exemplar", a esposa manda o marido ficar com a escrava Agar e ele tem um filho com esta última. Aí, para mim, tudo bem, a historinha oferece um modelo de família não tradicional, um modelo de "útero de aluguel". Só que quando Sarah fica grávida, Agar é abandonada com o filho no deserto.
Além disso justificar a bosta de inimizade entre irmãos (é com base nisso que se sustenta a guerra entre árabes e judeus, o filho de Agar dará origem a descendência árabe), o pai resolve obedecer a uma das ordens mais estapafúrdias que já se viram, a de matar seu filho. Isto que é pai de família tradicional: abandona um dos filhos e topa matar outro.
Uma beleza de modelo para esta palavra, família.
No Novo Testamento, a coisa é melhor ainda: um belo modelo de família não tradicional, pois a mãe fica grávida por "inseminação artificial" e o pai, José, é adotivo, não biológico. Vista por este lado, é uma família super interessante, muito moderna. Só que o povo prefere esquecer que a situação que se cria é muito, muito distante da idéia de um papai/mamãe/filhinho (é claro, macho, pois as filhas fêmeas nunca tem vez...) como núcleo fechado, como único que designa a palavra família.
Voltando à palavra família.
Como dizia Shakespeare (que era gente boa e inteligente), "uma rosa não mudaria seu perfume mesmo que tivesse outro nome".
Então, se eu escolho ter uma rosa em minha vida, mas alguém acha que a rosa pertence somente a quem entra em parâmetros restritos e enjaulados e me diz que eu não tenho uma rosa, pouco estou me lixando. Ficarei com esta flor, que tem o mesmo perfume, as mesmas pétalas aveludadas e os mesmos espinhos. A chamarei de jóia, a chamarei de felicidade, a chamarei de orquídea. Pouco me importa a palavra, a flor não muda.
Chamarei, assim, minha família de jóia, felicidade, topázio, diamante: ele não vai mudar como elo entre afetos, amores e dores.
Que os moralistas fiquem com as famílias desfuncionais,
Eu fico com a alternativa e com as muitas palavras coloridas e ricas, que representam minha família muito além dessa palavra da qual se apossaram, tornando-a um lugar que pouco representa a união entre pessoas que se escolhem, se amam, constroem uma vida juntas. Não tenho nada a ver com uma divindade maluca que pede para matar os filhos, com mães que impõem o abandono dos filhos e pais que topam subir o morro para degolar os filhos. Que as pessoas cristãs, que os políticos estúpidos fiquem na sua cegueira que lhe mostra somente um "sagrado" míope, incapazes de pensar em como seu modelo de família cristã é uma anomalia em relação às próprias representações de seus textos sagrados.
Eu fico com o Shakespeare, com as rosas perfumadas que chamarei por outros nomes, com minha família que é tal, mesmo que a chame de rosa.
Um bom domingo a todos.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
TWILIGHT: DEIXEM-ME CONTAR O QUE ENTENDI
Faz um bom tempo que ocupo uma parte da minha cuca com a história da Bela que amansa a Fera que se esconde por trás do rosto um pouco monótono de Edward Cullen.
E como não gosto dessa matéria grudenta em minha cabeça, vou fazer que nem Dumbledor que deposita suas preocupações em um "Pensador" externo. Assim me libero dessa "saga-chiclete" para pensar em algo positivo. Porque toda a história de Crepúsculo é construída para ter o efeito "areias movediças" em todos aqueles que, incautamente, se aproximam desse produto cultural de massa da MELHOR qualidade. Não estou brincando. Esta é que é habilidade em produtos & marketing. Marketing que encontra uma resposta mais que coletiva, diria de massa, na representação de anseios e desejos fortemente marcados pelo gênero. É construído de maneira magistral, com TODOS os ingredientes para nos aprisionar e sugar no lodo do pântano. Pântano do qual os verdadeiros cultores do horror-trash sabem estar prestes a sair o Monstro. Se continuar assim, próximo sucesso de venda será um filme onde até o monstro do pântano quer casar e viver feito um bom burguês... Oh, não, esqueci, já existe e chama Shrek... mas esta é outra história, vamos ficar no Crepúsculo.
Edward Cullen é absolutamente inexpressivo, e já isso deveria nos alertar de que algo muito errado é encenado. Aqui preciso marcar que a autora da série de romances pertence à espécie do gênio do mal, operando em um plano imaginário que nada tem a ver com o medo, mas com a domesticação do sobrenatural. Aquilo que nos é alheio provoca medo. O medo, para citar Stephen King, é uma outra dimensão do mundo que percola devagar na nossa realidade, contaminando-a. Os vampiros são mortos que voltam, revenants, algo que não pertence ao convívio social. São a melhor das representações encontradas ao longo do tempo do que é uma anomalia social, que se alastra por contágio, tornando cada um de nós vítima e carnífice ao mesmo tempo.
Para se ter uma idéia: os lobisomens são uma invenção da mitologia antiga. As bruxas eram muito conhecidas em Roma. Os mortos que voltam são encontrados na Bíblia, o tempo inteiro. Nos Evangelhos temos várias versões de mortos-que-voltam: Lázaro, o próprio protagonista e, no final de todos, todos os capítulos, no final da história, podemos dizer, o Apocalipse nós oferece material bem rico para tecer os corpos dos revenants que hoje tem nome de Zumbi. Sério. Os corpos que voltam no Apocalipse são desalmados, voltam exatamente para se juntar às almas. E nem para todos isso vai ser bom... E os vampiros são presenças derivadas de tudo isso. Eu já li O vampiro de Polidori, o primeiro grande clássico da literatura do gênero. Também amei Carmilla, destinada a se tornar ícone do trash-pop em filmes homônimos, podendo encenar um pop-imaginário sadomasolesbocamp (para a definição de CAMP, ver ECO, Umberto, História da feiura, tem um capítulo dedicado ao verbete Camp). Claro que li a obra prima de Stoker, que definiu de uma vez por todas as modalidades draculescas da vampiridade. Nosferatu me é conhecido na literatura e no cinema, na versão alemã e na atuação inesquecível de Klaus Kinsky. A rainha dos vampiros, Anne Rice, me satisfez até o volume três, A rainha dos danados, depois quis misturar outros ingredientes que tornaram a leitura muito chata.
Claro que Salem's Lot e todos os contos derivados dessa história vampiresca de autoria Stephenkinguiana foram devidamente lidas. Também já li os primeiros dois volumes da trilogia de vampiros (do mal) de Guilherme del Toro. Quero dizer, não tenho preconceitos contra a literatura e a filmografia sobre vampiros. Tenho uma boa dose de cultura pop sobre o assunto.
Então, preciso entender o que me pega nessa história dita "de vampiros", a saga Crepúsculo, que me faz assistir fascinada e, ao mesmo tempo, horrorizada, como se estivesse na frente de uma cobra?
Entrar no fantástico mundo de Bella e de seus amigos estranhos não é penetrar um mundo de escuridão, mas é como pular na sala de jantar de uma tranquila família americana da década de 1950, com o final feliz da donzela que amansa a fera. O vampiro, hoje em dia, poderia ser qualquer rapaz metido a rebelde, mas convencido de que o amor vence, sempre, sobre o mal.
Já essa história de vampiros vegetarianos, que só chupam sangue de Bambi e outros bichinhos inocentes é tudo que não pertence à imaginação clássica da literatura fantástica.
Depois, tem o lado racista: os lobisomens, realmente mais parecidos com pets de estimação, são os membro de uma tribo indígena. Apesar de sanguinários e poderosos, são pobres, vivem na reserva e o outro amigo roleiro da Bella, o lobinho apaixonado, anda de gol velho, enquanto o Edward só dirige carrão, de Volvo para cima.
Qual é a dúvida sobre a escolha entre os dois? Entre uma vida de trabalho até a morte e a imortalidade na riqueza? Para Bella, se há dúvida, é só porque o riquinho sumiu por um tempo. Tem uma cena emblemática, em que Edward se apercebe que Bella que virar vampira porque fascinada pela vida deles. É uma cena em que se articula a idéia de que ëu te amo, mas amo seu carro, seu luxo, sou seduzida pela idéia de ser a mulher que se encaixa nisso... inclusive porque a estrutura inteira da história se baseia no fortalecimento da moral heterossexual e patriarcal. Edward nunca quebra as regras, muito pelo contrário, as defende. É pior do que qualquer ser humano contemporâneo, pois:
1) Não está disposto a transformar a moça em uma criatura poderosa (EMPOWER HER NOW!!). Muito pelo contrário, quer que fique humana e se propõe a ser o "protetor". Remete ao arquétipo ideal da mulher-criança, indefesa e frágil. Não adianta falar que ela quer virar vampira desde os primeiros cinco minutos do filme: ela aceita as regras do jogo dele. Obedece.
2) Impõe abstinência sexual até depois do casamento. No mundo do horror a virgem sempre é sacrificada aos demônios, aqui só se assiste a uma cena adocicada que usa a já manjada metáfora de "afundar nas águas profundas". Não adianta falar que ela queria desde antes do casamento: é uma mulher que se deixa domesticar. Lá onde o vampiro, desde sempre, é portador de uma carga erótica, aqui esta carga é negada, postergada, disfarçada. O lado noturno, soturno dos vampiros, aquela escuridão que é o desconhecido, é completamente eliminada: o sol, indispensável aos humanos e fatal aos não-mortos, não somente não mata Edward, mas o faz brilhar pior que vitrine de joalheiro!
3) O destino biológico é mais forte que tudo. Bella será mãe, ainda que adolescente, e o será mesmo que possa custar-lhe a vida. Cuidado, se o mundo de nossos desejos é este, qualquer discussão sobre aborto será eliminada... legiões e legiões de adolescentes cresceram e crescem enfeitiçadas por Bella e Edward, com este conto de fada pequeno burguês e patriarcal... Pensem na apropriação voyerista de Edward em relação ao sono de Bella: ela nem sabia que havia um cara espionando-a havia meses enquanto se encontrava na intimidade de sua casa. Ah, fala sério! Ela não dá um soco na cara dele, mas se sente "amada", "desejada" pelo Edward quando este confessa ter entrado e ficado no quarto dela para...olhá-la! Ele se torna dono dela na medida em que é dono desse olhar que o satisfaz (voyer mil vezes), olhar voraz que não toca o objeto do desejo, mas o mantém em seu poder. Ela dorme, é indefesa. Ele olha, aprende a controlar a fera que existe nele, nega o saudável egoísmo dos vampiros que se apropriam dos humanos ainda que contra a vontade deles. Nega a sexualidade de Bella em nome de seus valores de homem nascido em outra época , no começo do século XX... se esquecermos disso, o rosto eternamente jovem de Edward nos enganará, nos fará esquecer que aquilo é um adulto, um velho na alma. Mas, sim, houve um engano. Uma recusa. os velhos, para existirem, devem parecer jovens. Edward Cullen é um velho, praticamente um pedófilo, a bem ver, mas a gente esquece pela carinha tão lisinha... ele tinha 17 anos em 1919... Mas não tem problema, homens de idade são expertos, quando comem a mocinha. É bom lembrar que no segundo episódio Bella se deprime porque faz aniversário... de 18 anos! E fica pensando que ela vai envelhecer e ele não... e, ao contrário dos homens velhos que são machões quando copulam com moças jovens, mulheres velhas fazendo o mesmo nos suscitam incômodo. Pelo menos, é isso que a cena em que Bella é uma senhora idosa ao lado de Edward deveria provocar. Seria um absurdo. O contrário, porém, não é. Edward é o sonho de gente como o ex-primeiro ministro italiano, Berlusconi , que se torna o proprietário de mocinhas que, talvez, tenham gostado de Crepúsculo... Berlusconi é um velho que acredita que para existir deve se parecer com um jovem (e trasplanta cabelos, e faz plásticas, e usa quatro dedos de base na frente das câmeras, além de outros recursos para não assumir sua idade. Os resultados suscitam riso e desprezo, mas só em uma parte das pessoas. Patético, sim, mas rico, muito rico, mas muito mesmo, este elemento tem eleitores, eleitoras, poder, mídia, dinheiro...
BerlusCullen????? Só isso para se pensar sobre velhice/juventude/vampiros/mocinhas.
Existem, ao longo da trilogia, inúmeras referências sobre quão totalmente e absolutamente perigoso e satisfatório seja o amplexo vampiresco. Os humanos não aguentam, mas as vampiras agradecem. pelo menos, é isso que a gente é levada a crer pelas falas suspensas das personagens... e depois, tudo isso, toda esta expectativa se reduz ao "dia depois": se vêem dois infelizes, Bella e Edward, nessa ilha paradisíaca no Rio de Janeiro, em várias sequências que parecem diretamente importadas do set de filmagem de Ingmar Bergman do Diário de um casamento: cenas torturantes de casal em crise, brigas, a maldita água que pinga da torneira... Enfim, cadê o amplexo vampiresco?????????
Ninguém se sentiu traído pela versão banal e chata dos dois que se olham sem qualquer vontade no dia seguinte????? Parece que o casamento não vai dar muito certo, a promessa toda dos fogos artificiais produzidos pelo sexo vampiresco parece que não vai se cumprir.... mas eis a salvação do casamento, a irredutível força da natureza da mulher: a gravidez! Somente enquanto mulher viva, e não como vampira, Bella pode ser mãe (adolescente). Ainda hoje, ao que se parece, o Destino Manifesto único e último para as mulheres, mesmo aquelas envolvidas com o sobrenatural.Ah. Bom. Então. Fala sério.
Precisa conhecer tudo isso, se trata, afinal, de um fenômeno editorial e de cinema. É necessário formular as palavras que permitam entender que esta saga é um pântano perigoso para um pensamento libartário, porque melhor adequação ao mundo humano de sonhos e desejos propostos às mulheres é impossível: os vampiros são o sonho patriarcal capitalista, corpo incrustado de jóias, mansões em ilhas particulares no Brasil, carros de luxo, cartões de crédito para conquistar a mocinha....
O que aconteceu que transformou o vampiro em sex-symbol, que transformou o medo em desejo de consumo, que a donzela escolhe ser aprisionada na cerca moralista e paternalista de um senhor de idade fantasiado de mocinho?
sexta-feira, 8 de junho de 2012
CAMINHÕES, MULHERES E LUTA DE CLASSE...
Querido diário,
ontem foi um feriado bem interessante. Fui almoçar em Camp Potatos, e a estrada de Black Stream para lá propiciou-me alguns pensamentos. Sabe, diário, que fui de caminhão? Não um dos grandes grandes grandes caminhões, um caminhão daqueles menores. Na direção: uma grande mulher que me explica sempre coisas bem interessantes, tipo que muitos compradores desse caminhão são mulheres. Gente tipo uma mãe e uma filha super chiques, que querem o veículo para seu negócio. O veículo será dirigido por uma funcionária da empresa delas. Achei magnífico. Quem circula por Black Stream sabe que há uma grande trabalhadora que anda com esse tipo de caminhões, que se rebatizou com o nome de Penelope Guincheira.
O caminhão é um objeto estranho: se viaja olhando de cima, inclusive vi os canaviais com essa nova perspectiva, que é diferente daquela propiciada por um ônibus. Modelos básicos, se sabe, não costumam ter muito conforto. Aí, pensei uma coisa, querido diário, que tem a ver com o capitalismo e com possuir os meios de produção. Coisas como os caminhões são meios de produção que alguém, possivelmente com um capital, compra visando lucro. Isso é: é uma máquina que deve aguentar até um peso X, que deve ter uma potência Y, um gasto Z, e assim por diante. Muitas vezes, quem dirige o caminhão não é o proprietário, mas um funcionário, alguém assalariado. E aí, pensei que, puxa, quem dirige, muitas vezes por longas horas, o faz em condições de conforto mínimo. Não adianta inventar, se trata da velha e boa exploração da força de trabalho, dos corpos dos trabalhadores. O que importa é a eficiência da máquina, não a saúde do peão na direção...
Adorei viajar de feminista com o bom velho Marx me acompanhando de Black Stream até Camp Potatos!
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sexta-feira, 1 de junho de 2012
HISTÓRIAS (COM FOFOCAS) DE QUALIDADE GLBT
Outro dia, percebi, mais uma vez, que muitas pessoas precisam se informar sobre temas "quentes" na pauta da política global: a questão GLBT. Vejo isso como algo estranho: hoje o Papa está em Milão, para "celebrar a família", justo na cidade cujo prefeito está trabalhando para conceder o direito à União Civil; o Serra, no estado de Capital City, para vencer com o apoio da bancada cato-evengélica, se declara absolutamente contrário ao reconhecimento dos direitos GLBT. Há anos venho "construindo" um capital bibliográfico pessoal sobre a história, a literatura e a teoria GLBT, e me parece interessante começar a compartilhar essas informações com quem quer assuntos e argumentos culturalmente "diferentes". Os últimos livro que comprei foram um ensaio e uma biografia.
O ensaio é em espanhol (ou no original italiano), se chama Gay - la identidad homosexual de Platón a Marlene Dietrich, e o autor é Paolo Zanotti. A editora é o Fundo de cultura econômica, o ano da edição que tenho é 2010.
É um livro que recupera a representação GL através de suas personagens e suas "letras". É ótimo para saber quem era e quem não era, como se via, como mostrava e como era visto. É muito agradável, uma forma de fazer "fofocas intelectualizadas" sobre grandes personalidades GLBT na realidade, na literatura e no cinema. Um dos méritos do livro é de contemplar também as mulheres, mérito que, ao mesmo tempo, é também seu limite: o autor é um gay, então desconhece muito sobre as mulheres! Ainda assim, dentro do que pode ser encontrado por aí, já ajuda. No resto, eu tenho algumas sugestão para ampliar essa parte. Por exemplo, existe por aí uma biografia sobre Liane de Pougy, muito agradável de se ler, do qual não lembro nem autor, nem título, sorry.
Mas, quem era Liane de Pougy? Uma figuraça da Belle Epoque em Paris. Nascida no final do século XIX, essa mulher de rara beleza casou, mas logo resolveu que aquilo não era para ela. Fugiu para Paris e começou a se prostituir nas ruas. Teve muita, muita sorte, pois se deparou com uma talent scout, uma ex-prostituta, já senhora, que agora exercia como cafetina de luxo. Reconhecendo o talento de Liane, a levou para "outras esferas": Liane se tornou acompanhante dos grãos finos, atuando também no teatro de revista, não muito vestida. Na época, o rosto de Liane era postal de Paris. Ela teve uma grande rival, outra beleza do tempo, a Bela Otero. Bom, Liane frequentava grandes banqueiros e capitalistas, mas também artistas e escritores.
Antes de seguir com a história de Liane, um parêntesis: a cafetina, cujo nome nesse momento me foge, desculpem, também é uma figura interessante. Fez carreira no mundo do sexo a pagamento, frequentando também essas personalidades tão variadas. Não podemos esquecer que as mulheres proletárias ou burguesas da época não tinham assim um acesso muito fácil ao mundo artístico e intelectual e a "marginalidade" da prostituição de luxo permitia que elas tivessem contato com a alta finança e a cultura avant-garde do tempo. Isso tem a ver com a diferença de inserção social das mulheres... Bom, a senhora era conhecida de Emile Zola, que a utilizou como modelo para sua personagem Naná. Essa senhora, chegada a hora de se aposentar após uma vida de trabalho e de poupança comprou um casarão em uma avenida parisiense e gozou de boa vida até o final. Vez ou outra voltava à ativa, apesar da idade, "para não perder o treinamento", dizia. Zola, que é um homem no fundo um pouco moralista, desenha para Naná uma trajetória com um final diferente, pois a mata de varíola, deturpando o rosto e o corpo que foram a fortuna da moça. No romance Naná tem uma cena lésbica precursora de certas imagens eróticas para os olhos do mundo heterossexual, mas ao mesmo tempo vale conferir: Naná "faz coisas" com a amiga inglesa sobre um sofá, enquanto os potenciais clientes conversam e observam ao lado. Essa referência falta no livro de Zanotti, assim como falta a Liane, e já volto a ela e explico porque.
Liane, então frequenta o belo mundo, é "mundana" de verdade. É conhecida de Proust, e seu destino um pouco recalca o de sua antiga cafetina, pois ele (gay a não poder mais) molda em Liane, de maneira um pouco misógina, os traços de sua personagem leve/ leviana, Odette de Crecy.
Liane de Pougy e Nathalie Clifford Barney
No entanto, em Paris, reside Nathalie Clifford Barney, uma rica lésbica americana de muitos amores. Sabendo da fama e da beleza de Liane, Nathalie a convida para sua mansão e a coisa acaba com as duas juntas por um bom tempo. Depois se deixam, Nathalie terá um longo relacionamento com outra figura de destaque na Paris da época, Renée Vivien, enquanto Liane, chegada aos quarenta, se retira da profissão e garante seu futuro casando com um príncipe gay romeno. Uma história e tanto, que não merecia ser esquecida...
O outro livro que encontrei recentemente é Flores raras e banalíssimas A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop, deCarmen L. Oliveira, publicado pela Rocco, se não me engano em 20122. O livro conta não somente o relacionamento entre as duas, mas também revela a vida extraordinária e desconhecida de Lota, envolvida com a fina flor intelectual e artística brasileira.
Tenho mais duas sugestões literárias e cinematográficas, mas só amanhã, que hoje preciso trabalhar!
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