sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O VAMPIRO DOMÉSTICO


(Fonte da imagem: Wikipedia)
É a foto dos fundos de casa!!!!

Pois bem. Hoje estava eu a revirar ideias para o quarto dos fundos, que depois de apodrecer ao longo de décadas, e mofar,  descascar, oferecer refúgio para insetos e aracnídeos possivelmente peçonhentos encontrou-se de repente em fase de recuperação/saneamento. Chega de escorpião, de baratas, de aranhas, de cheiro de cama vampírica - terra eternamente úmida. Tampamos o vazamento. Fomos mais fundos. Abrimos o misterioso caixão em concreto que envolvia o tanque. Eu tinha certeza de que ia encontrar os ossos de algum corpo emparedado. O que tinha, porém, era um monte de entulhos, de origem não sabia qual, até procurar os canos de saída do banheiro dos fundos, aquele banheirinho vagabundo que ninguém usa, pois ainda tem o cheiro da tristeza de alguém que, para trabalhar, teve que se espremer em um quartinho escuro, úmido, ornado com poucas caras coisas: era o "quarto da empregada". 
Parêntesis:
É possível medir o respeito com as empregadas domésticas em metros quadrados. O de casa é do tamanho de um quarto de solteiro comum de um apartamento pequeno em um prédio padrão MRV (isso é: pouco espaço, materiais de baixa qualidade...). Para a época da construção, década de setenta, não é dos piores que já vi, ainda considerando sua posição desqualificada, próxima da área de serviço, com acesso externo ao banheirinho,  e não pelo quarto. Na época, um quarto desse para uma empregada era algo luxuoso. Já vi quartos piores, em casas melhores. 
Fecha parêntesis.
E aí, já que quebra para sanear, vamos reaproveitar o espaço e fazer uma mini suite decente para hospedes. 
E descobri:
Debaixo do piso do banheiro não havia nada. O que deveria estar aí acabou debaixo do tanque. E o espaço vazio podia conter o corpo de um adulto médio, dentro de um caixão. Que não estava lá, claro, pois nosso vampiro doméstico percebeu que íamos encontra-lo e deu o fora. 
Moral da história: enchemos o buraco, não há mais como penetrar, não haverá mais bichos rasteiros nem vampiros invasores. Acho que ele era da família que morava aqui, e ficou depois que os vivos (e os mortos) deixaram a casa. Aí nós chegamos. Já no primeiro dia percebemos onde está o canto mágico, aquele que por iluminação, geografia e microclima é perfeito para perfeitas inspirações. A área externa, porém, é sempre meio terra de ninguém. Só se passa, por aí. Não tem nada legal, naquele canto. Parece mais uma área de serviço malfadada, como tem muitas, especialmente onde há infestações de vampiros domésticos (obviamente, por longas décadas, se alimentaram das moradoras dos quartinhos). 
Mas enfim. 
Sugou nossas forças nesses anos. Estamos dando um basta. Teremos um lindo banheiro renascentista português com plantinhas de batatinhas alegres na janelinha. Luminária com estrelas e lua. Um quarto pequeno, com uma parede amarela, uma cama, uma mesa de escritório, boas luzes e, claro, um saudável e fundamental ventilador de teto. 
A área de serviço não será mais a primeira coisa que um hóspede encontrará, levantando de manhã. A área de serviço vai ser em
Copacabana!!!!
Sim, nesse basta que demos ao sentimento de pântano que o fundo inspirava, solucionamos o problema das enchentes domésticas em caso de chuva. Todas as vezes que chove, a água cria uma piscina que deságua no corredor da malfadada área de serviço. Agora chega, abre de vez as entranhas podres por onde todo mal nos infesta e cobe com um piso novo.
Breve explicação:
Eu amo praia. Eu amo mar. Eu amo o Rio. Não, sério, se mi dissessem hoje para ir trabalhar lá, iria. Sem mas nem porém. Mas aqui, em Black Stream, o mar não é nem uma eco longínqua. Não existe mesmo. Aqui moram somente as ninfas de água doce, mas logo vão se mudar, pois rios & riachos estão ressecando.
Bom, fico pensando, a Alma adoraria passear pelo calçadão, no Rio. 
Bom, continuo pensando, também depositaria quotidianamente seus dejetos caninos no calçadão.
Alma, minha querida, não posso te mostrar o mar, enquanto descarta o que nem seu estômago digere, mas o calçadão eu posso te dar! Assim, o piso do cocôdromo será Copacabana. Me pareceu uma solução sensata à impossibilidade atual de morar no Rio.
Agora, resumindo a questão: 
Cuidado com os vampiros domésticos. Costumam ocupar as áreas de serviço de casas mais velhas. Sintomas de sua presença são insetos antipáticos, cheiro de umidade, buracos em caixas de tanques ou debaixo dos pisos... 
Agora acabou, aqui em casa, agora o vampiro está oficialmente desconvidado. Queremos que saiba que em casa tem alho, que sabemos usa-lo (em variados pratos da culinária da Fada de Preto) tem cruzes, santos, altares budistas, comigo-ninguém-pode, espadas de São Jorge, tem verbena para os vampiros mais moderninhos. Temos também uma gata dotada de extraordinários super poderes de proteção (ela me salvou de um escorpião ao lado da cama no meio da noite!), e uma cachorra devotada, atenta e guardiã.
Acima de tudo, vampiros não têm convite para entrar em um quarto que, agora, vai ser decente. Quem dormir aqui vai ter aconchego... além da possibilidade de dar uma volta em Copacana (mas cuidado para não pisar no cocô!!!).
Guerra aos vampiros domésticos, xô, xô, 
e muito axé para tod@s nós.
FdP



terça-feira, 30 de setembro de 2014

AOS LADRÕES QUE ENTRARAM (E ROUBARAM) DE NOVO EM MINHA CASA

Acho que estou cansada disso. Arrombaram DE NOVO a porta da minha casa, entraram DE NOVO em minha casa, reviraram minha vida do avesso DE NOVO revirando armários, gavetas e o que for em minha casa e roubaram DE NOVO em minha casa. Da primeira vez, tiveram muita sorte, pois roubaram "coisas" de valor (tipo dinheiro, jóias). Despojada disso, sem mais valores em casa, não é que aprendi a lição? Em casa não tinha mais nada. E realmente, dessa vez os ladrões revelaram ser pessoas com desejos bem burgueses: roubaram os vinhos de família. Aqueles vinhos que eu, mamãe e papai escolhemos para que todos, juntos ou separados, presentes e ausentes, pudessem compartilhar esses vinhos com quem nos é querido. Era uma dezena de garrafas, não mais. Também, nada de muito valioso, somente uns bons vinhos tradicionais da Itália, mas coisas que se repõem com muita mais facilidade, muuuuuita mais facilidade do que uma jóia. Bom, a ferida é emocional, nesse roubo, muito mais do que financeira, dessa vez. Al;em, claro, da sensação de invasão em minha privacidade. Roubaram também as taças, para sermos exatos, 4 taças bonitas, mas disponíveis nas prateleiras de uma loja mediana, diria burguesa, de Ribeirão Preto. Ainda bem: aqueles vinhos merecem ser tomados em taças, não em copo americano. Brindem com suas mulheres do jeito melhor. Se, por acaso, voltarem para a minha casa, saibam que: a TV vai continuar aquele trambolho gigante que ainda tem que aquecer antes de ligar. No dia em que quebrar, me recuso terminantemente a ter outra. Por outro lado, vocês que são profissionais já sacaram que a parte eletroeletrônica em casa deixa a desejar; não vai mais ter jóias nem dinheiro além do que pode caber na carteira de qualquer um de nós em um dia qualquer, pois mais do que isso não precisa. Qualquer outra coisa, não vai em dinheiro, óbvio; não ando mais com o lap-top há muito tempo, os computadores em casa, mais ou menos obsoletos, já foram devidamente doados, tanto os que funcionavam, como os quebrados, mas alguém sempre sabe o que fazer com as partes mais do que eu, eventualmente têm um valor. Eu ando com um tablet que, obviamente, acaba sendo uma mercadoria de algum valor, mas preciso de um mínimo eu também, até para trabalhar; meus celulares não fazem a menor ideia do que é whatsup, pois não conseguem baixar absolutamente nada da rede (são VELHOS); ENFIM: ser uma gringa que TRABALHA no Brasil não significa que o dinheiro sai de mim quando vou ao banheiro, nem que em minha casa está escondido o ouro. ESTAVA, aquele pouco que a gente ganha de presente na vida, dos pais, das avós falecidas, aquilo que eu sei o quanto trabalharam para ter, mas vocês já levaram tudo isso. A porta que vocês destruíram no primeiro roubo foi substituída por uma de ferro. Agora, vai a segunda. Não sei se dá para concertar ou não. Se der, não vou me dar ao trabalho de substitui-la por outra. E, com certeza, não escolherei mais nada de ferro, não adianta, se não é porta será janela, se não é janela será um buraco na parede, tanto faz, o fato é que não quero viver blindada. Escolhi morar em casa porque não suporto me sentir em uma cadeia voluntária, e não quero morar em um cofre. Bom, a minha casa não é um cofre, mas está ficando vazia de coisas que eu não posso repor. Ainda assim, SENHORES PROFISSIONAIS DO RAMO DO FURTO, eram "coisas", coisas de maior ou menor valor. Coisas. Eu, quando for morrer, não levo, com certeza. Se a distribuição de renda é nesses moldes, bom, para vocês acabou a festa e para mim ainda sobram as lembranças. Lembranças ficam melhor com coisas que ajudem a lembrar, mas eu as escrevo, assim me garanto que elas não tenham qualquer valor para vocês, pois não vendem tão bem como as "coisas" que roubaram da vez passada, que tenham ajudado, talvez, a pagar (ou não, mas espero que sim!) o aluguel de alguma moradia decente para suas mulheres, para seus filhos. Já os vinhos, bom, é memória mais transitória, a garrafa um dia ia acabar, mas com certeza iam ser momentos bons, também geradores de boas memórias, tenham-os vocês, esses momentos. Apesar de não ser cristã, acho o ato de compartilhar o vinho bom o mais digno de todos, o milagre das núpcias de Canãa é o mais bonito de todos: não é porque estamos embebedados de bom vinho que no final se oferece Sangue de boi... Bom, SENHORES PROFISSIONAIS DO RAMO DE FURTOS, bebam um bom vinho nas taças que minha mãe me deu de presente (porque gostava de um bom vinho bem tomado), porque as memórias antes grudadas às coisas roubadas ficam comigo. Não tem mais "coisas" desse tipo, em casa. As que têm, não tem valor venal. São fotos, são bibelôs, são cartas. Inúteis para qualquer "boa" vida, ou antes somente para uma vida melhor. Claro, tem um monte de sapatos (mesmo que alguns sejam memórias, vocês poderiam levar, vou ter que doar mesmo!), roupas e a parte mais rica, aquelas que vocês não roubam: em casa, agora, só pode ser roubado livro. É o que de mais precioso tenho, espero sinceramente que, caso vocês resolvam que vale a pena pega-los, seja para seu proveito e para os de seus amigos e familiares, e não somente para reciclagem. Por favor, se roubarem isso, que é o que sobrou de valor, deixem os livros em italiano, peguem somente aqueles em português, ainda que depois de lê-los vocês queiram aprender uma outra língua, vai demorar um pouco, então me deixem pelo menos isso, ok? Prometo que vou deixar uma garrafa de vinho para vocês, talvez não italiana, mas chilena, argentina, até têm ótimas qualidades brasileiras. Mas com seus gostos burgueses, provavelmente vocês já sabem. Por favor, permitam-me um pedido, já que paguei com algum valor venal e muitas moedas sentimentais essas suas duas invasões em minha casa: da próxima vez, não revirem os armários à toa, não joguem o conteúdo das gavetas espalhado no chão. Não vai ter nada mais do que tinha hoje, isso é: nada. Na primeira vez até que deu certo, Na segunda tomaram vinho bom, na terceira vou vender a casa, quem vai comprar vai querer fazer disso um forte armado em guerra com o mundo e vocês vão perder a chance de ter uma moradora um pouco mais pobre do que o novo morador, mas que tenta pagar o que deve pontualmente a quem presta serviços, que não enche o saco de ninguém, que quer ficar de boa. Na boa. Chega disso, tô gastando muito em portas e janelas!

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A FÍSICA DA MISÉRIA E A RETÓRICA DA POBREZA


(Imagem retirada de: http://fisicamoderna.blog.uol.com.br/arch2006-06-11_2006-06-17.html)

Sabemos que existe a temperatura relativa dos graus Célsius, cujo termo de referência é o Zero relativo. Existe, porém, o chamado Zero Absoluto, que corresponde a  -273 °C.
Agora vamos para a economia fantasiosa do mundo globalizado do século XXI: Existe uma "coisa"chamada, genericamente, pobreza. Essa "coisa" genérica, que a gente fala com o senso comum, corresponde a Zero graus Célsius, que para todos nós é a referência da passagem entre o negativo e o positivo. Visto por essa perspectiva, na economia do senso comum, existe chama "pobreza digna" aquela que, com 724 R$, teoricamente consegue, com muitos sacrifícios, viver na dignidade de conhecer seus limites. Pode fazer planos futuros porque tem o que comer. Não é fácil, é um aperto que eu não consigo imaginar, mas dá pra comer todos os dias. Essa "Pobreza digna", atualmente fixada no valor do salário mínimo, corresponde, no nosso termómetro, ao Zero graus Célsius, o ponto de virada a partir do qual a temperatura se torna positiva.
O que acontece é que ninguém, no dia a dia, calcula o calor que sente utilizando, como referência, a "temperatura" Zero graus Kelvin, o zero absoluto. Ninguém fala algo do tipo: pôxa, hoje em Black Stream fez um calor insuportável, chegou a - 228 graus Célsius... e daí? É uma temperatura negativa em que não há possibilidade de vida alguma, ponto. Não faz sentido, uma diferença tão pequena entre algo negativo e outra coisa um pouco menos negativa. Nossa percepção continua negativa, se não percebemos diretamente que, no cotidiano, aquele negativo corresponde a  45 graus Célsius positivos. Não é compatível com nossa realidade essa abstração do "absoluto" e, nas estatísticas das grandes instituições econômicas, financeiras e o que for, significa "pior é impossível". O grau Zero absoluto da pobreza é a miséria sem futuro. É aquela miséria em que não se faz orçamento, não se escolhem sacrifícios, a serem feitos, porque não há nada a ser sacrificado. Esse ponto, o Zero absoluto, é a "morte térmica do universo", a entropia absoluta. A miséria absoluta é isso mesmo. Já com um grau a mais, ainda tem energia... Quando raciocina na escala de graus Célsius, sabe que, antes de chegar a esse ponto absoluto deve descer bastante, abaixo do zero. É um longo caminho que pode ser invertido, ou assim gostamos de pensar. Enfim, sempre pode ser pior, antes de chegar ao Zero absoluto, ao fim de linha da miséria.
Então, o que eu penso, quando a voz do marketing eleitoral fala, é que não nos contam que, na verdade, eles pensam a partir da referência da miséria calculada como Zero absoluto, mas aí eles a chamam com o nome errado, a chamam de pobreza (sem o adjetivo digna), mas não a chamam miséria. O que eu entendo é que eles têm uma retórica lastimável, através da qual conseguem afirmar, falando a verdade, a mais pura verdade, que a miséria não existe, mais ou menos em um jogo de prestidigitação lexical, dizendo que Senhoras e senhores, 1.00 R$ no bolso é tudo que precisa ter, é um degrau acima do Zero absoluto, é pobreza mas não mais miséria, venham e comprem a ilusão de que o tio Patinhas é você, com 1.00 R$ chegarão a ter seu próprio depósito de moedas de ouro, com essa moeda no bolso começa o caminho (íngreme, árduo, ardiloso) que os levará a conquistar... o Zero relativo, isso é: se vocês se esforçarem muito, mas realmente muito, um muito muito muito grande, poderão se tornar "pobres dignos". Andem, seus miseráveis, vocês ainda têm a chance de serem pobres! O pessoal do marketing, se sabe, é otimista. Com essa visão messiânica, o mundo é muito mais bonito e cor de rosa e os governantes do mundo inteiro se orgulham em eliminar do vocabulário a palavra miséria. Pena que, muuuuuitas vezes, se trate só de erradicação lexical...
Para mim, um dos grandes problemas nisso tudo é a dificuldade da maioria das pessoas, quando a língua se reduz a poucas palavras desgastadas de quem não desfruta de serviços culturais de amplo, amplíssimo espectro e qualidade (da escola ao teatro, da biblioteca ao cinema), em reconhecer a sutileza das campanhas em mistificar a "pobreza digna", aquela que (sempre teoricamente) oferece um futuro concreto e que é o nosso Zero graus Célsius, com a Miséria em que os sujeitos não reconhecem a si próprios nem mais as feições da humanidade. E  desculpem se isso é pouco!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

SÓ OS BIBLIOTECÁRIOS NOS SALVARÃO...


Ultimamente, deixei de organizar meus livros. Estão, simplesmente, onde tiver um primeiro livro na horizontal, sobre o qual empilhar os outros. Não é minha culpa. São eles que estão organizando algum tipo de barricada na frente, possivelmente, das estantes em que os parceiros deles estão na vertical em dúplice fileira. Caramba, não sei como isso foi acontecer, faz meses que observo, preocupada, o crescimento dessas paredes, tão parecida com os fenômenos suburbanos dos condomínios fechados: muros impenetráveis em que até conhecidos de boa vontade se encarceram.
Hoje, acabei de "horizontalizar" Guerras do Prazer, do Peter Gay, depois de nele encontrar não um, mas sim, dois capítulos sobre "gosto" estético e burguesia vitoriana e sobre colecionismo na mesma época. O livro está deitado feita uma Vênus desfalecida após sua conjunção com Marte sobre uma cama, cujo cobertor é uma tal de Semiótica Visual. Por travesseiro, Espaços da Recordação, enquanto o colchão é Gadamer com espuma de Gombrich. E ainda tem o estrado, os pés da cama... Enfim, um depósito que obstrui todos os meus volumes sobre memória, coleção, museu. Não consigo alcança-los. Acima, três cadáveres literários, só um presta, O drible, capaz de envolver no futebol alguém totalmente alienada no negócio como eu. Mas a Moscovitch e o Bellotto de Macchu Picchu massacraram minha paciência. Ufa. Não chegam a cobrir os pés dos vizinhos em pé, Manuell Castells e Garcia Canclini. Do outro lado, está uma pequena pira de livros sobre museus e monumentos. O pior é na estante da outra parede. 

Aí jazem, em estado de lido, semilido, nem começado, duas pilhas de mais de mais de dez livros cada uma.  Me sinto fragilizada. A desordem reina, absoluta. Têm policiais noruegueses, autores contemporâneos brasileiros, um livro gigantesco sobre Japão, terminando, no topo, de um lado com um angolano e do outro com Salinger. No meio, ensaios variados. No quarto se observa uma tendência lastimável a acumular duas pilhas muito alimentadas, são duas excrescências, duas monstruosidades bulímicas cada uma alta mais de 50 cm., SOBRE a estante já lotada ao lado da cama.

Murakami descansa, plácido, em sua versão inglês de Tsukuru Tazaki aqui, sobre a escrivaninha, pois eu não soube me conter e esperar por uma tradução em português ou em italiano. Debaixo dele, o tijolão de Donna Tartt vai para sua conclusão nesses dias.

Óbvio que, desse jeito, vou precisar de um sentido novo nas leituras. Toda essa desordem nada mais é do que minha perda de rumo, minha busca de caminhos. Os livros sabem disso, e tenho certeza de que eles estão buscando um novo arranjo entre si, ou simplesmente se esconder de mim.
Quem me dera tivesse nascido organizada! Me espanta ler sobre gente como Otlet ou Dewey, gente que vivia alinhando até as pantufas ao lado da cama, obsessivos-compulsivos da ordem... Eu confesso que fui derrotada pelas new-entries dos últimos meses, essas pilhas que não querem se encaixar, elas reclamam minha atenção e eu não sei de que lado me virar para "pescar" meu livro guia entre os outros!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

DIAS MELHORES VIRÃO?

Descobri que tem gente que acha que eu sou uma filhinha de papai mimada e que sou riquinha. Deve ser gente movida pela inveja. Não, não de uma riqueza que não existe, mas de como lidei com minha vida.
Vamos deixar algumas coisas "às claras":
1) Não sou filha de papai. Meus pais trabalharam a vida inteira. Em alguns momentos, tiveram que fazer uns sacrifícios. Agora, sem dúvida, fui privilegiada em nascer em um país onde estudar não era privilégio. Daí a dizer que sou mimada, passa um oceano. No sentido de que eu deixei meu país para enfrentar as dificuldades de ser estrangeira em terra estrangeira, pois não tinha trabalho para mim no meu país. Sou imigrante, ralei e tudo que tenho não me vem da família, mas de meu esforço. E não tive privilégio nisso, muito pelo contrário, às vezes me deparei com muitos, muitos obstáculos.
2) Não sou rica. Só tenho hábitos diferentes dos de muitas pessoas. No meu país, existe o hábito de "poupar". Isso é: não se compra se não se tem. Andei muito a pé por São Paulo. Dava aulas e ia de ônibus, chegando a demorar duas horas. Nunca reclamei disso. Quando consegui, comprei meu carrinho, um UNO, sem fazer dívidas. Depois, comprei outro, dando o primeiro de entrada. Sempre trabalhei, sempre paguei minhas dívidas, não gasto muito fora as despesas comuns de supermercado, de contas de luz e água. Saio pouco, quase nada, não vou à praia, portanto não gasto hotel e gasolina, não tomo cerveja com frequência, não tenho gasto com filhos, porque não tenho filhos, e isso ajuda a não ter muitos problemas, eu sei. Mas, ainda assim, os invejosos andam falando que sou mimada e riquinha. Esquecendo de que "nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça" para mim também. Não consigo que as pessoas que pediram algo emprestado para mim me devolvam, pois eu fiz para ajudar e agora estas pessoas, falando que eu posso, não devolvem o que devem.
Cansei um pouco, assim resolvi escrever este post para avisar: fiquem com suas vidas, não impliquem com a minha, tentei não perturbar ninguém. Se não gostam de suas vidas, não atrapalhem a minha. Não alimentem sua inveja à toa, aqui não tem dinheiro sobrando, não tem riqueza. Tem trabalho, tem uma história de solidão longe de casa (muito longe!), tem, também, como para todos, a necessidade de fazer escolhas nas despesas, tem perdas e ganhos. Se não gostarem de mim, por favor, fiquem longe, mas não andem falando por aí tantas besteiras!
Obrigada, tenham im bom dia.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

QUE ROUBADA!

Hoje fui. Já tentei, lá no começo de janeiro, mas tinha uma placa: abriremos dia 17 de janeiro. Aí, pensei que era uma besteira, fechar um lugar de exposições artísticas, com um acervo que, ao que eu li, é significativo da arte contemporânea brasileira, durante as ferias escolares.
Pensei: olha só, agora que na cidade não têm opções de lazer, seria legal um lugar culturalmente ativo, para dar uma volta, no ar condicionado, alimentando o meu cerebelo... Bom, resignada, marquei a data de reabertura e voltei para casa.
E.
Hoje fui. De novo. Debaixo de um sol escaldante, pensando a mesma coisa. Que seria legal bater pernas em um lugar culturalmente interessante, fresquinho (porque, é sabido, para conservar a arte o ambiente tem que ser climatizado). Queria alimentar meu cerebelo atrofiado pelo calor, pelas voltas inúteis em ambientes comerciais (oh, o tédio infinito do shopping, nem a graça de ver um rolezinho de gente diferente dos costumeiros frequentadores!), alienada pela falta de alternativas!
Fui. E voltei. Me xingando de boba e iludida. O lugar culturalmente ativo, o refresco cerebral tão desejado.... estava fechado. E assim permanecerá. Até dia 15 de março....
Mas aí, pergunto eu: abriu dia 17 para permitir a mudança da miserável folhinha A4 que diz que reabrirá em outra data??? Só??? E que miserável folhinha A4 é essa, oferecida aos que chegam procurando alimento cultural, lazer cultural, enfim, aquilo que me propagandearam como oferecido por esse lugar? Uma folhinha A4. Miserável.
Voltei para casa decepcionada, ferrada pelos mais de 37 graus de temperatura, frustrada e convencida de que Black Stream não tem nenhuma esperança de merecer o título de "Capital Cultural".
E não venham me dizer que a praça ao lado do shopping, de concreto escaldante debaixo do sol, com aqueles horrendos painéis cheios de textos que ninguém jamais lerá (pois: quem vai encontrar um jeito de atravessar o imenso cruzamento, debaixo do sol, para ler longas banalidades sobre um palhaço/quem ousa passear em lugar tão hostil/quem vai achar um jeito de estacionar em um ponto OBVIAMENTE pensado para transito de carros????), com imagens adocicadas de palhacinhos com asinhas de anjinhos é CULTURA! Cultura de quem, para quem? É notório que a praça foi um escambo: o shopping pediu a mudança do transito, o ministério público negou, aí negociaram. O shopping "inventou" essa praça sem noção em troca de passagem livre para os consumidores de maneira a favorecer os negócios.
E aí? Será que isso envolve as pessoas comuns, os sentidos estéticos ou memoriais delas?
E não venham me dizer que na esquina da Jerônimo com a Francisco J. o memorial às palmeiras, em concreto baixinho e com as fotos já apagadas, em outro lugar onde só se pode andar de carro, é significativo cultural e esteticamente!

Me sinto no coração das trevas desse mundo enganoso: É O HORROR, É O HORROR!!!
P.S. E o final, como todos sabem, é citação...
P.S.2 Não vou falar o lugar onde FUI e NÃO entrei, pois não se trata de lugar público. Portanto, como estamos nas mãos de privados, e eles têm direito de abrir e fechar do jeito que bem entender, não me cabe aqui dedurar. Agora, que me sinto ludibriada, me sinto!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

EU QUERIA...

Eu queria que 2013 não tivesse acontecido do jeito que aconteceu.
Eu queria que 2014 continuasse do jeito que começou.
Eu queria que levantasse o voo, depois dessa primeira estréia (que não foi tão ruim).
Eu queria realizar as poucas - e consistentes - metas que selecionei.
Eu queria escrever, e bem.
Eu queria mais autoestima.
Eu queria fazer um bom trabalho no trabalho.
Eu queria inspiração.
Eu queria para mim.
Eu queria inspirar.
Eu queria fazer bem feito - o que eu faço.
Eu queria ouvir boa música.
Eu queria ver bons filmes.
Eu queria ler bons livros.
(A propósito, tenho lido ótimos livros nesse começo de ano...).
Eu queria cozinhar bem.
Eu queria comer bem.
Eu queria aprender a falar coisa boas, na hora certa. As erradas, não queria mais falar.
Eu queria. Mas entre dizer e fazer há uma distância que...
Eu queria encurtar essa distância. 
Eu queria muito parar de querer, para fazer! 

sábado, 27 de abril de 2013

IO E MEDEA ANDIAMO A SIRENE





                                              http://www.foto-divertenti.it/la-sirena-scheletro/ 

Quindi, si, le sirene esistono e proprio l'altro giorno ne parlavo con la mia vicina Medea, mentre lei raccoglieva le uova d'oca da un albero d'oche...
Abbiam poi deciso che prendevamo io il mio maggiolino e lei la sua vespa per volare sulle spiagge della Sirenaica. A Sirene avremmo potuto passare una notte allegra al Nausicaa, e, chi sa, incontrare una qualche sirenetta con cui scambiare quattro chiacchiere... La musica, già in partenza, è la parte più appetitosa della serata, c’è la lira elettrificata sopra il battito di onde contro gli scogli e, soprattutto, c’è la voce suadente, sexy e roca di Melusina, il tutto live e accompagnato da un’ottima scelta di nettari e ambrosie, e l’ambiente è sempre interessante.
Insomma, vespa e maggiolino sellati, arriviamo in questa regione bellissima del nord Africa. La Sirenaica è la regione orientale della Líbia, la cui capitale è Bengasi, che anticamente era conosciuta come Bengodi. Per ragioni di trasformazione fonetica, che non starò qui a spiegare, oggi è conosciuta come Cirenaica e la città più antica è Sirene, oggi Cirene.
La grande fonte di ricchezza della Sirenaica è il turismo, specialmente a Sirene. Gioco e prostituzione sono la ricchezza del posto che il boss Nettonio gestisce e soprattutto i maschi umani, attratti dalle voci seduttrici delle indigene, finiscono per lasciarci il capitale. È una vera e propria Las Vegas africana, stretta tra il mare e le propaggini del Sahara.
Io e Medea arriviamo a Bengasi al tramonto e il colore del cielo ci lascia senza fiato. Tra le malie delle maliarde africane, ci scordiamo sempre delle arti di seduzione della nostra amica Shaba, boss potente che controlla quella zona, che ci sta aspettando e che ha creato l’incanto del primo tramonto color argento che abbiamo mai visto in vita nostra. Ci riceve nel suo palazzo Bengodiano, e per essere chiara sul posto dove entriamo dopo aver lasciato maggiolino e vespa alle cure degli stallieri, immaginatevi una straducola polverosa, non asfaltata, con quattro cani smunti che rigirano i monticelli di pattume.
E qui, Medea non si smentisce, entra in una macelleria dove compra quattro gobbe di cammello, le sminuzza e le da ai cani. Due cose: uno, le gobbe di cammello sono ricche in proteina e sono molto idratanti, quando sono gonfie, praticamente come il cocco verde. Due, Medea non è un tipo materno, ma con le bestie ci sa fare davvero. Una volta è riuscita a piazzare due draghi di Kommodo abbandonati sulle coste di Sumatra a una famiglia d’adozione di gnomi tedeschi. Ha un vero e proprio allevamento di vesponi che servono proprio al trasporto degli animali che devono essere adottati nei punti più distanti del globo. È l’unica persona che conosco che sia riuscita a trasportare pinguini neonati al polo nord e un gruppo di anziani orsi polari nella Terra del Fuoco. La parte dei pinguini l’ho vista anch’io, abbiamo viaggiato insieme e mi ha insegnato a dare il biberon ai pinguini senza ferirgli il becco.
Ma sto divagando. Allora, straducola, cani (ora alimentati da Medea) e uno stretto androne. Dietro, un palazzo che è l’equilibrio perfetto tra l’Alhambra e il Taji Majal.
Il palazzo di Shaba.
Da perdersi. Infatti, io e Medea ci perdiamo, finché Arianna, la figlia di Shaba, non viene a salvarci da quel dedalo di portici, vasche di fiori di loto, fonti della gioventù. Sono anni che non vediamo Shaba, così passiamo la serata attualizzandoci. Lei è appena uscita da una storia pesissima con un giudice, che però avrebbe preferito essere un cantante e ballerino professionista. Quindi, un frustrato, che quando Shaba è rimasta incinta di Arianna lui, semplicemente, con una sentenza storica sull’affidamento della prole ad una delle due madri di una coppia lesbica separata, ha mostrato che sarebbe stato un padre piuttosto complicato, pronto a risolvere le cose sul filo di lama.
Vabbe’, ci piange un po’ su, ma Medea prepara un narghilè ben carico e ci ritroviamo presto beate a fare battutacce sulla propensione di “giudici cantanti ballerini” che pontificano senza mai avere l’ombra di un dubbio, anche quando i loro atti possono essere interpretati solo come delle emerite cazzate..
Ci addormentiamo pian piano tra i cuscini del boudoire, tra i fumi e i profumi della mirra, che mantiene lontane le Aedis Aegypti, zanzare con la testa di tigre e un copricapo faraonico che volano in formazione geroglifica.
Il giorno dopo lasciamo Shaba e Arianna con la promessa di rivederci presto. Il mio maggiolino ha le ali che brillano e rutta soddisfatto dopo aver banchettato, la vespa di Medea mi ronza di lato, mentre ci dirigiamo verso Sirene.
Arriviamo e, chiaro, alloggiamo all’hotel Ulysses, il più antico della città. Ça và sans dire, il proprietario è sempre lo stesso, continua sordo come una campana. Anzi, è peggiorato. Passiamo la giornata sulla spiaggia, a fare le turiste, confuse tra i turisti. I troll abbondano, ma basta saperli trattare. Mi ricordo che quando ero una giovane fata ancora senza colore, cioè prima di diventare nera, una volta in un locale c’erano tre troll. Una di loro aveva letto una pergamena con feticci da quattro soldi, uno dei quali diceva “va’, dove il cuor ti porterà”, e l’altra troll, immediatamente, rispose “ma che cuore e cuore, va’, dove la gnocca ti porterà!”, mentre dall’alto dei suoi due metri e mezzo mi guardava con occhi tristi e libidinosi. Lavorava al mattatoio municipale. Le troll dovrebbero farci pensare a una certa crudeltà della vita.
Alla sera ci prepariamo per uscire. Sirene brilla di insegne luminose, le strade sono affollate di ogni creatura possibile. Al Nausicaa, alcune facce nuove, molte conosciute. Da un tavolo, lepida, Nereide si alza ondeggiante e si dirige verso di noi, chiamandoci con voce acuta. Sediamo al tavolo con lei e le altre: Fat-A-Maranta, la nostra amica rapper (secondo me, la sua più bella interpretazione è stata “Il volo del calabrone” urlata dall’ape appena domata).
Poi ci sono Grazia e Graziella, due delle tre Grazie. La terza ha sempre sofferto di crisi d’identità per il nome che le hanno imposto. Da quando ha cominciato a capire come funziona il mondo, si è resa conto di non essere mai stata voluta. Per cui, già in giovane età, ha scelto di fare la mercenaria nelle guerre africane alla ricerca dell’oblio. Grazia e Graziella, però, sono graziosissime, specialmente quando si scatenano in pista a ballare. Oddio, io e Medea abbiamo un po’ la sensazione che la terza sorella avesse un effetto positivo su una certa sdolcinatezza delle due, con la sua ironia tagliente. Al locale ci sono anche un bel po’ di troll e qualche altra figura interessante, Medea si sporge per prendere un succo di ginepro fermentato, mentre io mi guardo intorno, in attesa che entri la voce di Melusina ad intrecciarsi con il rock divino della lira elettrica scatenata di Nausicaa. So già che io e Medea ci porteremo via il Cd di queste due, da ascoltare per mesi in attesa di un fare un altro viaggio…


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

COTURNOS E LEMBRANÇAS



Encontrei, finalmente, os coturnos que mais amo, os verdadeiros e únicos, os Docs Martins. Comprei. Como sempre, o preço assusta, mas eu sei que se trata de um investimento, pois mesmo usando-os intensamente, chegam a durar até 10 anos. 
Amo estes coturnos. Desta vez, comprei bordeaux, não tinha pretos, mas já estou apaixonada. Quando era jovem, eram um mito. Eram um símbolo, algo muito marcante, em termos ideológicos. Representavam uma escolha de campo. Originariamente, eram os sapatos dos trabalhadores ingleses, mas acabaram sendo adotados como símbolo político. Não de direita ou esquerda, não, mas de classe. Apesar do precinho pouco amigável, os coturnos assim representavam o proletariado. Em oposição clara aos coturnos da Timberland, que eram os sapatos burgueses. Vai vendo...

domingo, 13 de janeiro de 2013

SOU GRINGA, NÃO BURRA!

Uma coisa me deixa muito muito cansada: que um monte de pessoas achem que, somente porque você é gringa, o dinheiro nasce entre seus dedos milagrosamente. Bom, queria deixar aqui registrado que não é assim. Sou o resultado de políticas econômicas e trabalhistas que, no país de onde eu venho, obrigaram muita gente com seu diploma universitário a sair em uma nova onda de emigração, que começou na década de 1990. Dito isso, quero que fique claro: não venho com apêndices de dinheiro, o que tenho ganho trabalhando & ralando como qualquer outro ser com boas capacidades cognitivas. Portanto, esta idéia de que chegou a gringa, vamos depena-la, devo dizer que tende a me afastar do convívio social por não agüentar esta mistificação.
Em segundo lugar, acho que tenho uma mentalidade afetivo/mafiosa muito grande. Deixem-me explicar: já ouviram o dito "para os amigos tudo, para os inimigos a lei"? Eu tenho uma elaboração disso, que me afasta da idéia de que eu separo meu "profissional" de meu "pessoal" de uma maneira que deve ser muito gringa, pois ultimamente não a vi nada nada compartilhada pelas terras blackstreaminianas.
Isto é: SE.
SE uma pessoa que NÃO conheço me pede algum serviço ligado ao meu profissional, o que eu faço? O melhor serviço possível.
SE uma pessoa AMIGA me pede algum serviço profissional, o que eu faço?
O SERVIÇO QUE FARIA PARA MIM MESMA.
Com certeza, não faria pior do que se uma empresa, ou uma entidade digamos "anônima" me contratassem.
Por que? Porque a pessoa amiga é também curtição além do trabalho, ocupa também meu tempo livre, é troca de carinho e de idéias. Porque os amigos são uma parte fundamental de nossa alimentação espiritual.
PORTANTO: quando uma pessoa amiga coloca com muita clareza que NÃO mistura amizade com profissional, para  mim é uma "traição", pois é exatamente em nome da amizade que ganhou minha "contratação", apesar de afirmações que, em termos de "retrato profissional" se manifestaram como ALERTAS bastante ruidosos.
Tipo: se não fosse amiga, vocês contratariam uma pessoa que diz o seguinte?
"Para que me esforçar para um dez, se um sete é suficiente?".
Bom, comigo, que trabalho na profissão que lida exatamente com notas, pelo resultado de não misturar a amizade com o profissional, a pessoa amiga que contratei para fazer um serviço não somente profissional, mas na base da amizade, depois de inúmeros problemas que surgiram e obtiveram más respostas ou nenhuma resposta, não somente não chega a sete, mas nem  sequer a cinco, nota mínima para a aprovação....

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

ACHO QUE ENTENDI ALGUMAS COISAS: EPIFANIAS TECNOLÓGICAS!

Ontem caiu uma ponte, aqui em Black Stream. Não adianta procurar as explicações sobre o porque caiu. Simplesmente, a ponte se "acomodou", cansada de ficar em pé. Muito estranho. O fato é que aí, hoje de manhã, eu tinha um monte de coisas para resolver e, obviamente, o trânsito me obrigou a passar um pouco mais de tempo na rua, assim tive um bom vazio mental para "pensar coisas".
Aí estava eu dentro do carro, debaixo do sol, quando me toquei que algumas teorias parecem mais complicadas e difíceis porque não dão muito exemplo. Fica meio "pairando" sobre nós, por exemplo, a noção de "inteligência coletiva". Quero dizer, mas o que significa "praticamente" isso?
E me veio uma epifania. Aliás, não, três:
1) Anteontem joguei em uma rede social uma dúvida: faz muito tempo que eu li um conto, e o conto me interessa muito agora, pois fala de uma biblioteca e de uma bibliotecária realmente aterrorizantes. Só sabia que era do Stephen King, mas vai lembrar onde recupera-lo! Enfim, joguei essa dúvida na rede e pedi ajuda para que, se alguém soubesse me dar as coordenadas deste texto, me enviasse. Tempo meia hora, o título (e o link com o conto na íntegra) estava em minhas mãos.
Assim, entendi que a gente não sabe, mas alguém sabe por aí e compartilha a informação. Achei bem mais claro do que, simplesmente, falar em uma identidade abstrata quase angelical, a "Inteligência Coletiva"...
2) Não consigo usar o dropbox. Esta coisa "chupa" o que eu peço para ela, mas não devolve. Parece o Leviatão das minhas informações... aí lembrei que tenho um colega que falou do dropbox como de algo super-funcional, e sei que com certeza compartilhará o conhecimento sobre este repositório virtual.
3) Uma rádio italiana, que ouço pela internet, tem programas interativos com os ouvintes. Por exemplo, tem um que chama "seis graus de separação", cujo conteúdo é feito a partir de um conjunto de seis músicas sugeridas pelos ouvintes, via mail/redes sociais, cujo "vínculo" é alguma relação até casual, sei lá, a data de composição, o primeiro nome do cantor, enfim, o fato é que há um compartilhamento, neste caso também, de conhecimentos, cujo "fluxo" e circulação são potencializados pela tecnologia.
A queda da ponte, hoje, foi proveitosa!!!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

CAMPANHA: "SACRIFICAR UMA MARIA-FUMAÇA EM PROL DE TODAS AS OUTRAS!


Depois de postar o post (postado ontem) pensei em melhor elaborar o plano "Harry Potter encontra o Sacî" através das viagens de trem.
Como disse, Black Stream possui uma Maria Fumaça enferrujada e deslocada perto da Rodoviária, como lembrança eternamente esquecida do meio de transporte que no local parava há algum tempo atrás (algumas dezenas de anos não representam "muito tempo atrás", pois há gente viva que lembra ainda disso...).
Black Stream possui outras Maria-Fumaça em vários pontos da cidade, algumas mais algumas menos lembradas pelas pessoas. Existe uma praça imensa, divertidíssima, com um longo e circular trilho e relativa miniatura do trem que percorre o espaço/tempo da aventura ferroviária e econômica da região. Enfim... áreas distantes que dificilmente podem ser visitadas em um único dia a pé por escolas, crianças, crianças escondidas na adolescência, adultos que curtem suas crianças... o que quero dizer é que é possível pensar em pequenas ações públicas altamente ligadas ao mercado que têm "consumidores" ou podem vir a ter "consumidores" nas figuras jurídicas das escolas (públicas-gratis/particulares-pagas = melhoria de ensino/pode ser calculado como imposto municipal e "descontado", esta parte eu não conheço, precisa de expertise, mas vou em frente com a idéia).
PROPONHO, aqui, uma forte parceria com o mercado para aproximar a cidade de sua história.
Vamos lá:
Podemos nos ajudar com audio visuais no começo do pacote.
Ainda nas escolas, antes do embarque na viagem mágica, vamos fornecer as coordenadas às crianças:
Conhecem Harry Potter?  Sabiam que Harry Potter veio ao Brasil? E como ele viajou? De trem, é claro! Hoje vamos ver qual é o trem que ele usava para ir a escola! E, principalmente, vamos ver como ele viajou por aqui. E aí contar que o inglês veio fazer um intercâmbio com as criaturas mágicas brasileiras (toma-se, aqui, uma linha de contação de contos da mitologia brasileira na qual se reflete a região).
Enfim, se levam as crianças para visitar o primeiro trem mágico descoberto/importado aqui no Brasil. E depois os outros, que viajavam pela ferrovia disfarçados de trem de gente e de carga... E de conto em conto se percorrem veredas locais... Eu tenho a sensação que é uma "contação de contos" que poderia ser realizada por gente preparada e voluntariosa que queira fazer experiência com algumas formas de mediação que obrigam a refletir sobre a hibridização das culturas não como hipótese remota, mas como fenômeno presente, quer se goste ou não, com o qual é necessário (e desejável) contar.
Estou então eu, FdP, lançando uma campanha para sacrificar uma Maria-Fumaça em prol da sobrevivência de outras... E vejam bem, nem precisa sacrifica-la materialmente, sei, lá pintando-a de vermelho e preto, não... é mais do tipo "um sacrifício espiritual", pois ela voltaria a ser inglesa (aliás como todas as Maria-Fumaça da época, diga-se de passagem...), mas permitiria muitas conversar sobre criaturas mágicas locais (mediadores preparados para ler/interpretar de Monteiro Lobato até Câmara Cascudo). Sobre trens e história, geografias e tempos (são, na verdade, muitos eixos possíveis, mas eu fico com o eixo literário, se alguém quiser podemos pensar também em um eixo mais histórico, e depois em um eixo artístico... tantuffass, um bom trem te leva onde quiser!).
Agora, me seja permitido refletir sobre meu pequeno mundinho de sonhos, (mas se alguém se interessar, que me contate)... Eu proponho, aqui, não um projeto em busca de disneyficação da história. Não pretendo transformar o parque de transporte ferroviário antigo de Black Stream em parque de diversão. Penso, porém, que a arte do conto é algo que merece ser praticada também em lugares diversos da biblioteca, e pelo pouco que conheço, as criaturas mágicas brasileira já ganharam, em outros momentos literários, vida própria que pode ser competitiva até com o Harry Potter. Mas como somos da paz, para quer competir? Não podemos construir uma colaboração/cooperação entre escolas de magia inglesa e brasileira?
E, é claro, o percurso dos trens permite tantas outras narrações!
Agora, querem saber o que as crianças (crianças, como alvo primário!) poderiam usar para deslocar-se de um ponto para outro do percurso? Trenzinhos mágicos! As crianças gostam de brincar, e o fazem com muita seriedade: eles vão poder sentar em um verdadeiro trem mágico que apita e que vai leva-los a conhecer as criaturas locais... E se o público for composto de gente que curte Neil Gaiman, um público mais metido que curte HQ e fantasy, que Neil Gaiman apareça entre as referências, e que os donos dos trenzinhos se sintam incentivados a enfeitiçar suas máquinas cada vez mais...
Bom, como este é um mero manifesto, não vou detalhar tudo, né? O fato é que podemos realizar uma operação como esta até com parcerias múltiplas: sei lá, se tivesse uma agência júnior de CI, poderia se ocupar de todas as várias partes (do "plano financeiro" ao marketing final, da seleção/organização das leituras necessária ao preparo das (muitas) mediações, pensando no feedback que podem obter antes da atividade (prévias com as escolas que permitem realizar uma pequena avaliação da proposta para costumizá-la para "aquele" público????) e interações possíveis que podem ocorrer ao longo da viajem inteira, que deverão/poderão ser discutidas para a melhoria da atividade bem como em meios acadêmicos, principalmente em suas vertentes de implicações teórica.
As implicações são muitas, a graça disso é que realmente poderia ser pensado não somente na perspectiva do que os poderes públicos devem/podem fazer, mas de novos modelos de parcerias. Não, porque a gente não vai mexer na estrutura nem na forma das "coisas" que se encontram pela cidade, pedir a preservação, a manutenção, porém, na medida em que as "coisas" são apropriadas pela frequentação, pode se tornar um passo menos significativo do que todo o duro trabalho de quem justamente pede que estas coisas não sejam abandonadas pelos caminhos das leis. É, porém, uma apropriação que, eventualmente, gera o desejo afetivo de garantir estas memórias, ainda que por razões puramente afetivas que podem vir a ser geradas pelos elos literários que se propõem. Esta apropriação desejante pode, quem sabe, em algum momento, se tornar decisiva nas escolhas dos "bambambans" que (nunca) decidem decididamente o que fazer com "as coisas"...
Quanto "food for mind" uma coisa assim pode proporcionar? Eu acredito que seria muito.
E aqui vai a "grande viajem para o mundo da mágia" que é possível fazer em Black Stream, lugar com alta taxa de presença de criaturas mágicas da região: muitos andam de beetle (nome inglês para fusca), que todos sabem ser inseto voador (tipo joaninha, sobre a qual cavalgam as fadas), há casas que, à noite, revelam pedras brilhantes nas paredes....
E se acreditamos na contação de histórias nas bibliotecas, por que não podemos realizar experiências em 3D?????
Eu sei lá, acho que nem tudo vira Disney somente porque quer entreter... contação de conto é entretenimento legítimo, certo? E é para ser divertido, certo?

domingo, 23 de setembro de 2012

PALHAÇOS & IRREVERÊNCIAS


De todos os elogios que já recebi em minha vida, ser chamada de irreverente porque considero culturalmente interessantes trabalhar "fora dos trilhos" utilizando de maneira insólita o que faz parte do panorama urbano da cidade onde resido me parece um resultado no mínimo interessante. Que bom que nem tudo que a gente leva a sério deve ser sisudo, que bom que não faço parte dos mumificados que se consideram iluminados e que olham sempre com muita reprovação as lascas nos olhos alheios sem se aperceber dos troncos de carvalhos que carregam cravados na alma...
Que bom poder passear por panoramas tidos como conhecidos sem olha-los como lastimáveis, mas procurando neles aquilo que constitui nossa vivência quotidiana. Que bom poder aproveitar também do mundo como ele é, procurando as secretas tramas que unem o passado ao presente, sem resmungar sobre a fantasia de um presente sem estética oposto a um passado idealmente ético... Que bom encontrar a ética dos grafiteros na sua estética!
Gostaria de ser mais irreverente ainda. Gostaria de transformar aquela Maria-fumaça que fica enferrujada e se tornou mictório de sem-teto lá perto da rodoviária de Black Stream no expresso vermelho de Hogwarths. Levaria todas as crianças que sonham uma escola como a de Harry Potter nesse trem dos sonhos deles, contando que, antes desta magia, aquele já era um trem dos sonhos, o trem dos sonhos de muitos imigrantes, e contaria esta história...
Irreverente, sempre, mas também, melhor isso do que o abandono atual das coisas no meio das brigas infindáveis de um poder público engessado, cego e elitista da cultura. Reverência se faz à monarquia, mas eu sou por natureza republicana e um pouco sacana e chafurdo com prazer na lama colorida da cultura mais pop de nossos tempos... Viva os palhaços, viva os bufões, irreverentes que sempre incomodaram os podres poderes de quem quer (m)andar em um único trilho do pensamento!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

MARCHIONNE, CROZZA & IL BRASILE




Vorrei contribuire a capire il personaggio Marchionne interpretato da Crozza, che a Ballarò ha espresso la sua personalissima opinione sul Brasile. Temo che il livello di preparazione della classe dirigente attuale su economia e società sia proprio questo. O meglio, che gente come Marchionne sappia benissimo distinguere realtà e fantasia, mentre l'elettore medio forse ancora non del tutto. Questo perché vive in un piccolo mondo campanilista, in cui la conoscenza storica, geografica e sociale non esiste. esiste, però, la fantasia creata da prodotti al limite della fiction, rivolti al turismo o al desiderio di evasione di telespettatori e fruitori di magazines.
Molti italiani non sanno cosa sia il Brasile nella sua realtà socio-economica, che spiega il perchè la FIAT, qui in Brasile, vende.
Attualmente, il Brasile ha più di 177.000.000 di abitanti. La popolazione che è stata descritta da Crozza come predominante rappresenta poche centinaia di migliaia di membri delle nazioni indigene. Il resto della popolazione (che nonostante le popolazioni indigene continua attestata oltre i 177.000.000) vota, se vuole, a partire dai 16 anni. In Brasile esiste una legge detta "ficha limpa", cioè: i candidati alle cariche pubbliche non devono avere, tra i requisiti minimi per concorrere, processi a carico. Per quanto il paese soffra perché i corrotti non sono un'esclusiva italiana, questo è più di quanto l'Italia offra.
Perché si produce e vende la FIAT in Brasile? Nonostante il delirio post-antropologico di Crozza, che ci racconta che gente nuda che vive nelle capanne compra la Panda per venerarla come un Totem,
Negli ultimi 15 anni, dal governo Fernando Henrique ad oggi, il Brasile è diventato una potenza mondiale. Ha fatto scelte economiche e sociali che fanno si che oggi sia un paese che offre credito invece di avere un debito così immenso da non saper neanche da dove cominciare a pagare gli interessi.
Le persone, in questo stato di cose, guadagnano di più. Non voglio dire che sono più ricche, dico solo che guadagnano di più. Il Brasile continua ad essere uno dei punti della terra di fortissime disuguaglianze sociali. Una fetta molto consistente di popolazione, anche se vota, si preoccupa con il ferro da cavallo, più che con il SUV. Comunque, specialmente nelle aree più industrializzate del paese, c'è gente che compra la macchina per la prima volta. Un proletariato entrato in questi anni in una classe di consumo medio-bassa.
E la FIAT, con la sua tradizione di una macchina per famiglia che porta alla creazione dell'antica 500, in un paese come questo ci marcia! É una marca competitiva, costa meno per chi compra. In Brasile c'è la UNO. Quella nuova, fashion, costa di più. Più di quella vecchia scassona che tutti conosciamo. Qui, è una macchina perfetta. È la jeep dei poveri: un carrozzone che non ha problema con le buche (è alta!), va sullo sterrato e ha un baule che, per la sua categoria, continua il migliore, nessun'altra marca permette un costo/beneficio uguale. Risultato: è una macchina usatissima per servizi telefonici, manutenzione rete elettrica, idraulici... e altri mestieri che vanno un po' dappertutto e con casse/cassette/fili/ammenicoli professionali vari.  Le revisioni e manutenzioni della FIAT costano molto meno delle altre. Nelle categorie popolari, vende un sacco la Palio (già permette una distinzione di classe rispetto alla UNO antica, quella nuova è un po' fighetta. La 500 è una macchina stupida, ma è considerata da ricchi - e in effetti, fa concorrenza soltanto al mggiolino contemporaneo, stupido e inutile. Quello antico qui va forte, in fondo era la 500 tedesca... ). La Palio, come la UNO, sono prodotte in Brasile. Quando Marchionne (quello vero) ha lanciato il SUV FIAT, non lo ha fatto pensando all'Italia, ma a un mercato col profilo Brasiliano. La FIAT, in Brasile, significa garanzia di incontrare pezzi di ricambio, di rivendere la macchina senza perderci troppo, di avere una macchina che, a tutti i livelli (dalla UNO al maledetto FREEMONT) costa sempre un po' meno delle sue concorrenti per categoria.
La nuova entrata nella classe C dei consumatori (e sono molti) con le origini nella classe D (non consumatori) mantiene la FIAT molto bene, grazie. Solo perché vi facciate un'idea: come docente universitario io gravito tra la classe C alta e la B bassa/media, dipende se c'è crisi in giro. Attualmente, sono B e ho appena rivenduto una Peugeot Escapade 1600 SW prodotta in Brasile per pagare una buona parte di una Palio Weekend Trekking 1600 (sempre SW). Quest'ultima è la sorella della prima in prestazioni/consumi/volumi, però: costa meno/ha più spazio/per la manutenzione in concessionaria spendo la metà.
Potete immaginare che, prima dell'acquisto, abbia valutato la concorrenza, e immaginate giusto.
La FIAT in Brasile funziona perché si vuole che funzioni! E finché avrà questa politica di vendite, il riflesso sulle politiche di produzione sarà, inevitabilmente, positivo, e gli operai di Betim, in Minas Gerais, dove ci sono gli stabilimenti FIAT, non si ritroveranno col culo per terra. Anzi, direi che da queste parti l'azienda non è in crisi. Gli operai della FIAT, da queste parti, riescono a comprarsi una FIAT, perché in Italia devono fare la fame?

domingo, 1 de julho de 2012

SHAKESPEARE EXPLICA...


A palavra família é uma palavra. Como gato, guitarra, casa... são palavras. Só que essa palavra, família, está se tornando objeto de disputas infindáveis, inúteis. Todos, políticos, cristãos e, em geral, as pessoas "cheias" de moral (tão cheias até se tornarem moralISTAS), querem colocar um excesso de pingos nos i dessa palavra, família. Querem declinar a palavra unicamente no singular mais monolítico possível.
A família, nessas infinitas discussões cheias de moral, é uma e sagrada.
Modelo bíblico. Ou melhor, uma interpretação reduzida e cheia de muros e limites.
A palavra família, engessada pela visão restrita dessa laia imensa, se tornou pequena, reduzida, estéril.
Se formos ver, no Antigo testamento família já é desfuncional:
Abraão está casado com Sarah, que não consegue ter filhos. Aí, dentro dessa "família exemplar", a esposa manda o marido ficar com a escrava Agar e ele tem um filho com esta última. Aí, para mim, tudo bem, a historinha oferece um modelo de família não tradicional, um modelo de "útero de aluguel". Só que quando Sarah fica grávida, Agar é abandonada com o filho no deserto.
Além disso justificar a bosta de inimizade entre irmãos (é com base nisso que se sustenta a guerra entre árabes e judeus, o filho de Agar dará origem a descendência árabe), o pai resolve obedecer a uma das ordens mais estapafúrdias que já se viram, a de matar seu filho. Isto que é pai de família tradicional: abandona um dos filhos e topa matar outro.
Uma beleza de modelo para esta palavra, família.
No Novo Testamento, a coisa é melhor ainda: um belo modelo de família não tradicional, pois a mãe fica grávida por "inseminação artificial" e o pai, José, é adotivo, não biológico. Vista por este lado, é uma família super interessante, muito moderna. Só que o povo prefere esquecer que a situação que se cria é muito, muito distante da idéia de um papai/mamãe/filhinho (é claro, macho, pois as filhas fêmeas nunca tem vez...) como núcleo fechado, como único que designa a palavra família.
Voltando à palavra família.
Como dizia Shakespeare (que era gente boa e inteligente), "uma rosa não mudaria seu perfume mesmo que tivesse outro nome".
Então, se eu escolho ter uma rosa em minha vida, mas alguém acha que a rosa pertence somente a quem entra em parâmetros restritos e enjaulados e me diz que eu não tenho uma rosa, pouco estou me lixando. Ficarei com esta flor, que tem o mesmo perfume, as mesmas pétalas aveludadas e os mesmos espinhos. A chamarei de jóia, a chamarei de felicidade, a chamarei de orquídea. Pouco me importa a palavra, a flor não muda.
Chamarei, assim, minha família de jóia, felicidade, topázio, diamante: ele não vai mudar como elo entre afetos, amores e dores.
Que os moralistas fiquem com as famílias desfuncionais,
Eu fico com a alternativa e com as muitas palavras coloridas e ricas, que representam minha família muito além dessa palavra da qual se apossaram, tornando-a um lugar que pouco representa a união entre pessoas que se escolhem, se amam, constroem uma vida juntas. Não tenho nada a ver com uma divindade maluca que pede para matar os filhos, com mães que impõem o abandono dos filhos e pais que topam subir o morro para degolar os filhos. Que as pessoas cristãs, que os políticos estúpidos fiquem na sua cegueira que lhe mostra somente um "sagrado" míope, incapazes de pensar em como seu modelo de família cristã é uma anomalia em relação às próprias representações de seus textos sagrados.
Eu fico com o Shakespeare, com as rosas perfumadas que chamarei por outros nomes, com minha família que é tal, mesmo que a chame de rosa.
Um bom domingo a todos.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

TWILIGHT: DEIXEM-ME CONTAR O QUE ENTENDI


Faz um bom tempo que ocupo uma parte da minha cuca com a história da Bela que amansa a Fera que se esconde por trás do rosto um pouco monótono de Edward Cullen.
E como não gosto dessa matéria grudenta em minha cabeça, vou fazer que nem Dumbledor que deposita suas preocupações em um "Pensador" externo. Assim me libero dessa "saga-chiclete" para pensar em algo positivo. Porque toda a história de Crepúsculo é construída para ter o efeito "areias movediças" em todos aqueles que, incautamente, se aproximam desse produto cultural de massa da MELHOR qualidade. Não estou brincando. Esta é que é habilidade em produtos & marketing. Marketing que encontra uma resposta mais que coletiva, diria de massa, na representação de anseios e desejos fortemente marcados pelo gênero. É construído de maneira magistral, com TODOS os ingredientes para nos aprisionar e sugar no lodo do pântano. Pântano do qual os verdadeiros cultores do horror-trash sabem estar prestes a sair o Monstro. Se continuar assim, próximo sucesso de venda será um filme onde até o monstro do pântano quer casar e viver feito um bom burguês... Oh, não, esqueci, já existe e chama Shrek... mas esta é outra história, vamos ficar no Crepúsculo.
Edward Cullen é absolutamente inexpressivo, e já isso deveria nos alertar de que algo muito errado é encenado. Aqui preciso marcar que a autora da série de romances pertence à espécie do gênio do mal, operando em um plano imaginário que nada tem a ver com o medo, mas com a domesticação do sobrenatural. Aquilo que nos é alheio provoca medo. O medo, para citar Stephen King, é uma outra dimensão do mundo que percola devagar na nossa realidade, contaminando-a. Os vampiros são mortos que voltam, revenants, algo que não pertence ao convívio social. São a melhor das representações encontradas ao longo do tempo do que é uma anomalia social, que se alastra por contágio, tornando cada um de nós vítima e carnífice ao mesmo tempo.
Para se ter uma idéia: os lobisomens são uma invenção da mitologia antiga. As bruxas eram muito conhecidas em Roma. Os mortos que voltam são encontrados na Bíblia, o tempo inteiro. Nos Evangelhos temos várias versões de mortos-que-voltam: Lázaro, o próprio protagonista e, no final de todos, todos os capítulos, no final da história, podemos dizer, o Apocalipse nós oferece material bem rico para tecer os corpos dos revenants que hoje tem nome de Zumbi. Sério. Os corpos que voltam no Apocalipse são desalmados, voltam exatamente para se juntar às almas. E nem para todos isso vai ser bom... E os vampiros são presenças derivadas de tudo isso. Eu já li O vampiro de Polidori, o primeiro grande clássico da literatura do gênero. Também amei Carmilla, destinada a se tornar ícone do trash-pop em filmes homônimos, podendo encenar um pop-imaginário sadomasolesbocamp (para a definição de CAMP, ver ECO, Umberto, História da feiura, tem um capítulo dedicado ao verbete Camp). Claro que li a obra prima de Stoker, que definiu de uma vez por todas as modalidades draculescas da vampiridade. Nosferatu me é conhecido na literatura e no cinema, na versão alemã e na atuação inesquecível de Klaus Kinsky. A rainha dos vampiros, Anne Rice, me satisfez até o volume três, A rainha dos danados, depois quis misturar outros ingredientes que tornaram a leitura muito chata.
Claro que Salem's Lot e todos os contos derivados dessa história vampiresca de autoria Stephenkinguiana foram devidamente lidas. Também já li os primeiros dois volumes da trilogia de vampiros (do mal) de Guilherme del Toro. Quero dizer, não tenho preconceitos contra a literatura e a filmografia sobre vampiros. Tenho uma boa dose de cultura pop sobre o assunto.
Então, preciso entender o que me pega nessa história dita "de vampiros", a saga Crepúsculo, que me faz assistir fascinada e, ao mesmo tempo, horrorizada, como se estivesse na frente de uma cobra?
Entrar no fantástico mundo de Bella e de seus amigos estranhos não é penetrar um mundo de escuridão, mas é como pular na sala de jantar de uma tranquila família americana da década de 1950, com o final feliz da donzela que amansa a fera. O vampiro, hoje em dia, poderia ser qualquer rapaz metido a rebelde, mas convencido de que o amor vence, sempre, sobre o mal.
Já essa história de vampiros vegetarianos, que só chupam sangue de Bambi e outros bichinhos inocentes é tudo que não pertence à imaginação clássica da literatura fantástica.
Depois, tem o lado racista: os lobisomens, realmente mais parecidos com pets de estimação, são os membro de uma tribo indígena. Apesar de sanguinários e poderosos, são pobres, vivem na reserva e o outro amigo roleiro da Bella, o lobinho apaixonado, anda de gol velho, enquanto o Edward só dirige carrão, de Volvo para cima.
Qual é a dúvida sobre a escolha entre os dois? Entre uma vida de trabalho até a morte e a imortalidade na riqueza? Para Bella, se há dúvida, é só porque o riquinho sumiu por um tempo. Tem uma cena emblemática, em que Edward se apercebe que Bella que virar vampira porque fascinada pela vida deles. É uma cena em que se articula a idéia de que ëu te amo, mas amo seu carro, seu luxo, sou seduzida pela idéia de ser a mulher que se encaixa nisso... inclusive porque a estrutura inteira da história se baseia no fortalecimento da moral heterossexual e patriarcal. Edward nunca quebra as regras, muito pelo contrário, as defende. É pior do que qualquer ser humano contemporâneo, pois:
1) Não está disposto a transformar a moça em uma criatura poderosa (EMPOWER HER NOW!!). Muito pelo contrário, quer que fique humana e se propõe a ser o "protetor". Remete ao arquétipo ideal da mulher-criança, indefesa e frágil. Não adianta falar que ela quer virar vampira desde os primeiros cinco minutos do filme: ela aceita as regras do jogo dele. Obedece.
2) Impõe abstinência sexual até depois do casamento. No mundo do horror a virgem sempre é sacrificada aos demônios, aqui só se assiste a uma cena adocicada que usa a já manjada metáfora de "afundar nas águas profundas". Não adianta falar que ela queria desde antes do casamento: é uma mulher que se deixa domesticar. Lá onde o vampiro, desde sempre, é portador de uma carga erótica, aqui esta carga é negada, postergada, disfarçada. O lado noturno, soturno dos vampiros, aquela escuridão que é o desconhecido, é completamente eliminada: o sol, indispensável aos humanos e fatal aos não-mortos, não somente não mata Edward, mas o faz brilhar pior que vitrine de joalheiro!
3) O destino biológico é mais forte que tudo. Bella será mãe, ainda que adolescente, e o será mesmo que possa custar-lhe a vida. Cuidado, se o mundo de nossos desejos é este, qualquer discussão sobre aborto será eliminada... legiões e legiões de adolescentes cresceram e crescem enfeitiçadas por Bella e Edward, com este conto de fada pequeno burguês e patriarcal... Pensem na apropriação voyerista de Edward em relação ao sono de Bella: ela nem sabia que havia um cara espionando-a havia meses enquanto se encontrava na intimidade de sua casa. Ah, fala sério! Ela não dá um soco na cara dele, mas se sente "amada", "desejada" pelo Edward quando este confessa ter entrado e ficado no quarto dela para...olhá-la! Ele se torna dono dela na medida em que é dono desse olhar que o satisfaz (voyer mil vezes), olhar voraz que não toca o objeto do desejo, mas o mantém em seu poder. Ela dorme, é indefesa. Ele olha, aprende a controlar a fera que existe nele, nega o saudável egoísmo dos vampiros que se apropriam dos humanos ainda que contra a vontade deles. Nega a sexualidade de Bella em nome de seus valores de homem nascido em outra época , no começo do século XX... se esquecermos disso, o rosto eternamente jovem de Edward nos enganará, nos fará esquecer que aquilo é um adulto, um velho na alma. Mas, sim, houve um engano. Uma recusa. os velhos, para existirem, devem parecer jovens. Edward Cullen é um velho, praticamente um pedófilo, a bem ver, mas a gente esquece pela carinha tão lisinha... ele tinha 17 anos em 1919... Mas não tem problema, homens de idade são expertos, quando comem a mocinha. É bom lembrar que no segundo episódio Bella se deprime porque faz aniversário... de 18 anos! E fica pensando que ela vai envelhecer e ele não... e, ao contrário dos homens velhos que são machões quando copulam com moças jovens, mulheres velhas fazendo o mesmo nos suscitam incômodo. Pelo menos, é isso que a cena em que Bella é uma senhora idosa ao lado de Edward deveria provocar. Seria um absurdo. O contrário, porém, não é. Edward é o sonho de gente como o ex-primeiro ministro italiano, Berlusconi , que se torna o proprietário de mocinhas que, talvez, tenham gostado de Crepúsculo... Berlusconi é um velho que acredita que para existir deve se parecer com um jovem (e trasplanta cabelos, e faz plásticas, e usa quatro dedos de base na frente das câmeras, além de outros recursos para não assumir sua idade. Os resultados suscitam riso e desprezo, mas só em uma parte das pessoas. Patético, sim, mas rico, muito rico, mas muito mesmo, este elemento tem eleitores, eleitoras, poder, mídia, dinheiro...
BerlusCullen????? Só isso para se pensar sobre velhice/juventude/vampiros/mocinhas.
Existem, ao longo da trilogia, inúmeras referências sobre quão totalmente e absolutamente perigoso e satisfatório seja o amplexo vampiresco. Os humanos não aguentam, mas as vampiras agradecem. pelo menos, é isso que a gente é levada a crer pelas falas suspensas das personagens... e depois, tudo isso, toda esta expectativa se reduz ao "dia depois": se vêem dois infelizes, Bella e Edward, nessa ilha paradisíaca no Rio de Janeiro, em várias sequências que parecem diretamente importadas do set de filmagem de Ingmar Bergman do Diário de um casamento: cenas torturantes de casal em crise, brigas, a maldita água que pinga da torneira... Enfim, cadê o amplexo vampiresco?????????
Ninguém se sentiu traído pela versão banal e chata dos dois que se olham sem qualquer vontade no dia seguinte????? Parece que o casamento não vai dar muito certo, a promessa toda dos fogos artificiais produzidos pelo sexo vampiresco parece que não vai se cumprir.... mas eis a salvação do casamento, a irredutível força da natureza da mulher: a gravidez! Somente enquanto mulher viva, e não como vampira, Bella pode ser mãe (adolescente). Ainda hoje, ao que se parece, o Destino Manifesto único e último para as mulheres, mesmo aquelas envolvidas com o sobrenatural.
Ah. Bom. Então. Fala sério.
Precisa conhecer tudo isso, se trata, afinal, de um fenômeno editorial e de cinema. É necessário formular as palavras que permitam entender que esta saga é um pântano perigoso para um pensamento libartário, porque melhor adequação ao mundo humano de sonhos e desejos propostos às mulheres é impossível: os vampiros são o sonho patriarcal capitalista, corpo incrustado de jóias, mansões em ilhas particulares no Brasil, carros de luxo, cartões de crédito para conquistar a mocinha....
O que aconteceu que transformou o vampiro em sex-symbol, que transformou o medo em desejo de consumo, que a donzela escolhe ser aprisionada na cerca moralista e paternalista de um senhor de idade fantasiado de mocinho?


sexta-feira, 8 de junho de 2012

CAMINHÕES, MULHERES E LUTA DE CLASSE...


Querido diário,
ontem foi um feriado bem interessante. Fui almoçar em Camp Potatos, e a estrada de Black Stream para lá propiciou-me alguns pensamentos. Sabe, diário, que fui de caminhão? Não um dos grandes grandes grandes caminhões, um caminhão daqueles menores. Na direção: uma grande mulher que me explica sempre coisas bem interessantes, tipo que muitos compradores desse caminhão são mulheres. Gente tipo uma mãe e uma filha super chiques, que querem o veículo para seu negócio. O veículo será dirigido por uma funcionária da empresa delas. Achei magnífico. Quem circula por Black Stream sabe que há uma grande trabalhadora que anda com esse tipo de caminhões, que se rebatizou com o nome de Penelope Guincheira.
O caminhão é um objeto estranho: se viaja olhando de cima, inclusive vi os canaviais com essa nova perspectiva, que é diferente daquela propiciada por um ônibus. Modelos básicos, se sabe, não costumam ter muito conforto. Aí, pensei uma coisa, querido diário, que tem a ver com o capitalismo e com possuir os meios de produção. Coisas como os caminhões são meios de produção que alguém, possivelmente com um capital, compra visando lucro. Isso é: é uma máquina que deve aguentar até um peso X, que deve ter uma potência Y, um gasto Z, e assim por diante. Muitas vezes, quem dirige o caminhão não é o proprietário, mas um funcionário, alguém assalariado. E aí, pensei que, puxa, quem dirige, muitas vezes por longas horas, o faz em condições de conforto mínimo. Não adianta inventar, se trata da velha e boa exploração da força de trabalho, dos corpos dos trabalhadores. O que importa é a eficiência da máquina, não a saúde do peão na direção...
Adorei viajar de feminista com o bom velho Marx me acompanhando de Black Stream até Camp Potatos!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

HISTÓRIAS (COM FOFOCAS) DE QUALIDADE GLBT


Outro dia, percebi, mais uma vez, que muitas pessoas precisam se informar sobre temas "quentes" na pauta da política global: a questão GLBT. Vejo isso como algo estranho: hoje o Papa está em Milão, para "celebrar a família", justo na cidade cujo prefeito está trabalhando para conceder o direito à União Civil; o Serra, no estado de Capital City, para vencer com o apoio da bancada cato-evengélica, se declara absolutamente contrário ao reconhecimento dos direitos GLBT. Há anos venho "construindo" um capital bibliográfico pessoal sobre a história, a literatura e a teoria GLBT, e me parece interessante começar a compartilhar essas informações com quem quer assuntos e argumentos culturalmente "diferentes". Os últimos livro que comprei foram um ensaio e uma biografia.
O ensaio é em espanhol (ou no original italiano), se chama Gay - la identidad homosexual de Platón a Marlene Dietrich, e o autor é Paolo Zanotti. A editora é o Fundo de cultura econômica, o ano da edição que tenho é 2010.
É um livro que recupera a representação GL através de suas personagens e suas "letras". É ótimo para saber quem era e quem não era, como se via, como mostrava e como era visto. É muito agradável, uma forma de fazer "fofocas intelectualizadas" sobre grandes personalidades GLBT na realidade, na literatura e no cinema. Um dos méritos do livro é de contemplar também as mulheres, mérito que, ao mesmo tempo, é também seu limite: o autor é um gay, então desconhece muito sobre as mulheres! Ainda assim, dentro do que pode ser encontrado por aí, já ajuda. No resto, eu tenho algumas sugestão para ampliar essa parte. Por exemplo, existe por aí uma biografia sobre Liane de Pougy, muito agradável de se ler, do qual não lembro nem autor, nem título, sorry. 

Mas, quem era Liane de Pougy?  Uma figuraça da Belle Epoque em Paris. Nascida no final do século XIX, essa mulher de rara beleza casou, mas logo resolveu que aquilo não era para ela. Fugiu para Paris e começou a se prostituir nas ruas. Teve muita, muita sorte, pois se deparou com uma talent scout, uma ex-prostituta, já senhora, que agora exercia como cafetina de luxo. Reconhecendo o talento de Liane, a levou para "outras esferas": Liane se tornou acompanhante dos grãos finos, atuando também no teatro de revista, não muito vestida. Na época, o rosto de Liane era postal de Paris. Ela teve uma grande rival, outra beleza do tempo, a Bela Otero. Bom, Liane frequentava grandes banqueiros e capitalistas, mas também artistas e escritores. 
Antes de seguir com a história de Liane, um parêntesis: a cafetina, cujo nome nesse momento me foge, desculpem, também é uma figura interessante. Fez carreira no mundo do sexo a pagamento, frequentando também essas personalidades tão variadas. Não podemos esquecer que as mulheres proletárias ou burguesas da época não tinham assim um acesso muito fácil ao mundo artístico e intelectual e a "marginalidade" da prostituição de luxo permitia que elas tivessem contato com a alta finança e a cultura avant-garde do tempo. Isso tem a ver com a diferença de inserção social das mulheres... Bom, a senhora era conhecida de Emile Zola, que a utilizou como modelo para sua personagem Naná. Essa senhora, chegada a hora de se aposentar após uma vida de trabalho e de poupança comprou um casarão em uma avenida parisiense e gozou de boa vida até o final. Vez ou outra voltava à ativa, apesar da idade, "para não perder o treinamento", dizia. Zola, que é um homem no fundo um pouco moralista, desenha para Naná uma trajetória com um final diferente, pois a mata de varíola, deturpando o rosto e o corpo que foram a fortuna da moça. No romance Naná tem uma cena lésbica precursora de certas imagens eróticas para os olhos do mundo heterossexual, mas ao mesmo tempo  vale conferir: Naná "faz coisas" com a amiga inglesa sobre um sofá, enquanto os potenciais clientes conversam e observam ao lado. Essa referência falta no livro de Zanotti, assim como falta a Liane, e já volto a ela e explico porque.
Liane, então frequenta o belo mundo, é "mundana" de verdade. É conhecida de Proust, e seu destino um pouco recalca o de sua antiga cafetina, pois ele (gay a não poder mais) molda em Liane, de maneira um pouco misógina, os traços de sua personagem leve/ leviana, Odette de Crecy. 
                                                 Liane de Pougy e Nathalie Clifford Barney


No entanto, em Paris, reside Nathalie Clifford Barney, uma rica lésbica americana de muitos amores. Sabendo da fama e da beleza de Liane, Nathalie a convida para sua mansão e a coisa acaba com as duas juntas por um bom tempo. Depois se deixam, Nathalie terá um longo relacionamento com outra figura de destaque na Paris da época, Renée Vivien, enquanto Liane, chegada aos quarenta, se retira da profissão e garante seu futuro casando com um príncipe gay romeno. Uma história e tanto, que não merecia ser esquecida...
O outro livro que encontrei recentemente é Flores raras e banalíssimas A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop, deCarmen L. Oliveira, publicado pela Rocco, se não me engano em 20122. O livro conta não somente o relacionamento entre as duas, mas também revela a vida extraordinária e desconhecida de Lota, envolvida com a fina flor intelectual e artística brasileira.
Tenho mais duas sugestões literárias e cinematográficas, mas só amanhã, que hoje preciso trabalhar!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

PENSAMENTOS PRIVADOS, PALAVRAS PÚBLICAS.

Páginas escritas e lidas em ocasião do evento "Opressão: machismo e homofobia na Universidade" na Faculdade de direito, Ribeirão, 30 de maio de 2012.

Senhoras alunas e mulheres que me prestigiam com seu interesse nessa página de reality show de uma mulher de 43 anos. Senhores alunos e homens, que com sua presença revelam pelo menos uma possibilidade em abrir uma dialética da convivência digna com as amigas e as parceiras com as quais, quotidianamente, vocês devem conviver:

Gostaria de propor a vocês algumas questões em forma de diário. Pensei que uma coisa que está faltando, e muito, é a volta a um dos fundamentos das lutas pela emancipação feminina, que reside nas palavras “O privado é público”. No início da história do feminismo, as mulheres tinham suas conversas de mulheres, sobre seu dia-a-dia. Nada que, até hoje, esteja fora do comum. A grande diferença do feminismo foi a capacidade de traduzir as questões que envolviam o privado em ação e movimento. Levaram à praça pública as palavras que diziam o silêncio que cercava, no espaço público, suas vidas, necessidades e exigências.É nesse sentido que resolvi utilizar, hoje, um registro que me pertence não porque sou biologicamente mulher, mas porque fui criada como uma. A linguagem que posso tentar, aqui, hoje, é aquela que melhor traduz as minhas inquietações como feminista não somente acadêmica, mas na vida quotidiana. Não gosto de ser panfletária, quando me dedico a algo que tanto me diz a respeito, que é o meu próprio jeito de estar no mundo, e quero fazer o máximo para convidá-los a entender um dia de uma mulher burguesa de 43 anos, que trabalha na universidade, não tem filhos, é branca e estrangeira. Tudo isso deve ser colocado com clareza, explicitado, porque são as minhas identidades e diferenças com vocês. O que vou ler também busca provocar momentos de identificação e até de oposição. Ofereço-lhes meu dia para vocês medirem os seus, para procurarmos, de novo, palavras que permitam o sentido da ação.

Ribeirão Preto, 30 de maio de 2012.

Querido diário,

Hoje tem sido um dia daqueles que não dá para contar, pois envolve muitas coisas que, se colocadas em um lugar público, provocam um certo arrepio, coisas que pertencem à esfera mais íntima de uma pessoa, o corpo. Coisas que podem ser reveladas unicamente a um diário, no máximo, máximo, a uma amiga querida... Mas vamos com ordem, que depois essa matéria tão íntima fica tumultuada, meu caro diário, e se um dia eu for ler novamente essas memórias, vou querer lembrar direito. E imagine se alguém mais fosse ler, sei lá, esqueço você, meu diário, em alguma gaveta e, depois de morta, você é encontrado e folheado... bom, aí não vou querer mesmo que alguém fosse entender tudo errado! Sei lá, escrever é complicado, até em um diário, pois nunca se sabe onde pode cair. Pelo que sei, gostaria de saber misturar alguns gêneros literários... O que teria sucesso de vendas? O que os curiosos gostariam de saber, quando fossem ler esse diário? O que eu poderia querer que lembrassem de mim? Na verdade, a preocupação é secundária... Um diário serve para falar de mim, de meus acontecimentos e daquilo que me provocam, se um dia houver outro leitor, que se vire, tenho lá eu que me preocupar também depois de morta se e como sou “decorosa” ou “indecorosa”. Que palavras mais antiquadas, decorosa e indecorosa. O decoro como virtude. Então, não quero me preocupar muito se em um diário sou ou não virtuosa. Ah, não, um diário é um diário, essa sou eu, e se algum tiver a manha de ler, vai encontrar o que eu quero. Pausa... possível que nem em um diário eu encontre descanso sobre o que sou, ou o que digo ou, pior o que escrevo? Sei lá, de repente o vicio acadêmico toma conta de mim. Quando escrevo para a academia preciso usar uma linguagem que, um pouco, me estranha. Em um paper, em um artigo, em uma aula, preciso usar uma linguagem “neutra”, a boa, velha linguagem neutra da “ciência”. Sua capacidade de afirmar, de sustentar hipóteses de maneira clara, afirmativa, comprovada. Neutro. Certo. Só que eu não cresci educada totalmente a isso. Eu até que desde cedo procurei me entrosar no “neutro”, mas acabei me tornando... mulher. Desde que no jardim de infância tiraram o retrato fotográfico de cada um. Eu tinha quatro anos, e até hoje me lembro da cena. A cada menina e menino perguntavam se na foto queria aparecer com as bonecas ou com a bola, os carrinhos e os soldadinhos. Como eu desenvolvi uma certa bulimia simbólica e na geladeira (na tristeza existencial, frustração e infelicidade, comeria o mundo. Por isso minha geladeira fica um pouco fria, escura e vazia, que nem a origem do universo. Pois a frustração e a tristeza existencial não podem se traduzir em peso). O tempo passa, e ninguém, nesse mundo, presta atenção às senhoras acima do peso e enrugadas. Traduzindo: esta mundo não é para as velhas. Seria, então, eu também, fã de Ana & Mia? Transtornos alimentares para não assumir o tempo que passa. Uma mulher, ao que parece, só é mulher enquanto objeto desejável (nem sequer desejante). É mais difícil prestar atenção em uma mulher jovem o em uma velha? Que quando se envelhece, só podemos ser mães e avós...

Voltando à foto, justamente por essa tendência à bulimia existencial já desde criança, quase de imediato falei que queria tanto as bonecas quanto o resto. Sei lá, de alguma obscura maneira queria que, naquele momento, ficasse registrado que não, não me importava o objeto em sim, mas o ato de brincar. De me divertir com tudo que pode ser divertido para uma criança. Definitivamente, eu era uma criança cheia de esperanças e boas intenções, mas a realidade era que, mesmo tendo a sorte de um pai anarquista e de uma mãe feminista, quando recebia presentes muitas vezes eram Barbies. Tinha uma verdadeira coleção: aquela loira, branca, de cabelos escorridos, com as pernas que ainda não dobravam. Aquela outra loira que já dobrava as pernas, a terceira loira de cabelo babyliss, a quarta de biquíni e com bronzeado, depois tinha a Barbie negra (mas de cabelo escorrido, chamava Cara), a irmã (ou sobrinha, sei lá) da Barbie, a Skipper, que virava o braço e crescia o peito em um instante, se tornando uma outra Barbie baixinha. Depois tinha a Ginger, que não sei se era só amiga da Skipper ou o amor da vida dela, rigorosamente trancado no armário (acho que saquei muito mais tarde que as duas podiam ficar juntas, felizes para sempre, duas lésbicas fashion riquinhas e empolgadas com o surfe, as festas... mas não podia antecipar os tempos, o seriadinho The L Word veio muito, mas muito mais tarde). Só sei que tinha também um Ken, mas ele era muito chato, não sabia bem o que fazer com ele. Minhas amigas faziam ele beijar a Barbie, mas eu achava meio que uma perda de tempo, minha Barbie era e fazia muitas coisas: medica, astronauta, paisagista, e ao mesmo tempo tinha que construir sua casa, cuidar da irmã/sobrinha, cozinhar... enfim, uma vida dura que o Ken, me parecia, não levava (o cara, aparentemente, não tinha muita outra atividade a não ser beijar a Barbie. Um verdadeiro tédio, um homem sem ocupação definida que anda de carrão para um monte de festas. As meninas não gostam do Ken, vai ver que o instinto as alerta que se trata de um boneco que introduz ao mundo dos cafajestes). Então, na foto, está imortalizada uma criança: Eu. Cabelinho curtinho, enroladinho, cara de sorriso tímido. De um lado as bonecas, do outro o resto. E eu, no meio, com uma vida feita de dias muito cheios de tarefas para minhas Barbies. Eu era criança, minhas frustrações não eram muitas, cresci em um ambiente saudável com pais que me ensinaram a sempre questionar, não obedecer somente porque alguém manda, em nome de qualquer autoridade. Eles são os primeiros responsáveis pelo meu olhar sobre o mundo, no bem e no mal. Minha mãe, quando casou, deixou a faculdade e virou dona de casa. Depois de três anos, olhou para meu pai e comunicou que uma vida em casa, dedicada a uma filha e a um marido não a satisfazia plenamente. Voltou a estudar biologia, se formou em menos de quatro anos e se tornou pesquisadora na Universidade. Cuidou de mim e de meu irmão. Um modelo e tanto. Meu pai, professor de física, sempre na universidade, desde que me lembro dividiu todas as tarefas práticas e de decisão com a minha mãe. Devo dizer que tive sorte, em crescer nesse ambiente.

Infelizmente, o ambiente familiar afortunado e o mundo fora dos muros domésticos não concordavam plenamente com essa visão de mundo. Os primeiros problemas dessa educação, para mim, surgiram no primeiro grau. Estudei em uma escola de freiras, mas minha professora era uma jovem laica. Estudei nas freiras porque fui à escola com cinco anos, e na época as escolas públicas não aceitavam crianças com menos de seis anos. Tendo começado nessa escola, que desfrutava de dinheiro público (custando, assim, muito pouco), acabei continuando nela até mudar, no ginásio para outra escola, essa sim, pública.

A escola era somente feminina, tanto no corpo discente como as docentes. As coleguinhas vinham, na maioria, de famílias católicas abastadas. Eu, não. Meus pais não são católicos nem de outra religião. Eu, definitivamente, não sou católica. Meus avós paternos eram gente da burguesia trabalhadora, minha avó filha de um pequeno empresário têxtil, meu avô contador. Do lado materno, tenho origens proletárias: meu avô foi policial militar, uma profissão para os pobres, na época, e depois foi operário em uma indústria química. Minha avó foi boleira e, na década de 1950, meu avô saiu da fábrica e os dois abriram um restaurante/pizzaria na cidadezinha de praia onde moravam. Minha avó, que não era feminista, foi outro modelo importante, sempre, sempre me repetia que ela queria que eu trabalhasse: uma mulher que trabalhava, para ela, era uma cidadã que não dependia de ninguém, que podia sempre sobreviver sem compromissos que a colocassem em situações de humilhação. Eh, grande mulher, minha avó! A outra avó, que não trabalhava, gostava de ler, e me dava livros de presente, alimentando minha mente e curiosidade. Ela que me presenteou com minha primeira edição de Alice no aís das maravilhas, Tom Sowyer, Huck Finn. Bom, aí, vou eu à escola das freiras. Aprendendo que a mamãe é o anjo do lar e que o papai é o provedor, coisa que, pontualmente, provocava minhas perguntas em casa sobre o que era aquilo, pois todas as mulheres de minha vida não passavam o dia como na escola me ensinavam que elas deveriam fazer. E outra: as próprias freiras eram o quanto de mais distante eu podia ver do modelo que propagandeavam de mãe/esposa/anjo do lar: mulheres que não eram casadas, não tinham filhos, eram diretoras, professoras, dirigiam uma escola, um internato, um refeitorio... A confusão estava armada em minha cabeça.

É nessa época que eu sofri o que muitas mulheres sofrem, o abuso sexual. Falando claramente: abuso sexual não é estupro. Não precisa nem ser uma forma de violência física. O abuso sexual sobre uma criança começa quando um adulto aproveita de qualquer maneira do corpo ou da mente de uma criança para obter uma qualquer forma de satisfação sexual. No meu caso, foi um pediatra. Portanto, duplamente difícil de se apontar o dedo, com oito, nove anos, e falar com voz infantil: “Mamãe, o doutor me tocou onde faço xixi, enquanto você, confiando em sua autoridade de adulto e de medico, me deixou alguns minutos sozinha com ele, quando você foi buscar algo que esse homem te pediu”. Imaginem o sentimento de uma menina nessa situação. Bom, somente depois de adulta acabei descobrindo que a maioria das mulheres que conheço em algum momento tiveram algum tipo de invasão corporal mais ou menos dessa natureza. Eu só sei que deve ser por isso que gostaria, sempre, de poder escolher um medico mulher. Na época não gostei desse acontecimento, me assustei e isso, de alguma maneira, me marcou. Hoje, esta seria uma postura que poderia levar um medico a ter sérios problemas, mas na década de 1970, sem um adulto vendo isso acontecer, o que fazer? Nada. E é isso que eu, criança, fiz: nada. Somente anos, muitos anos depois contei isso para a minha mãe. Que, por sua vez, relatou de quando um oficial que devia fornecer os alvarás para o restaurante dos avós colocou as mãos onde não devia na minha mãe adolescente, ela fugiu do escritório e se recusou a voltar para lá sozinha. Minha avó deve ter intuído alguma coisa, pois não insistiu. Também, não tinha muito o que fazer, e nada foi feito: qualquer legislação a respeito é muito recente e, apesar de existir, muitas vezes é desconhecida ou de eficácia escassa.

Mas não me tornei uma mulher apavorada pelos homens. Se toda menina, adolescente ou mulher que passa por experiências dessa natureza tivesse uma reação de pavor generalizada, a espécie já teria se extinto há muito tempo.

Falando nisso, justo hoje abri meu feissbuc, o reino da inconsistência do espetáculo público, a terra da ilusão da multiplicação infinita de nossos 15 minutos de fama. Bom, nesse imenso parque de diversão da efemeridade global, a página jogou na minha cara uma obra prima da gráfica feissbuquiana. Era um quadrinho dividido em vários quadros, oferecendo a visão das formas de depilação das partes íntimas das mulheres desde 1940 até os nossos dias. Mas essa obra de arte, em si, não me preocupou tanto, pois podia apontar para muitos discursos possíveis. O que me deixou francamente incomodada foi a série de comentários ao lado, na maioria masculinos. Nos comentários se torcia claramente pelo modelo 2012, onde o pedaço de mulher oferecido aos olhos estava completamente depilado. Um verdadeiro hino à pedofilia, já que na Natureza o pedaço de carne, pardon, de mulher em questão somente nas meninas antes da puberdade se apresenta naquele estado. Fiquei me perguntando como me sentiria, olhando-me no espelho do banheiro, eu, com 43 anos, e uma periquita de criança.... mas por favor, economizem-me! Ridículo! Tenho mais o que fazer que imaginar uma coisa assim! Se alguém não gostar do jeito que uma mulher é quando adulta, a porta é aquela, saudações e te encontro de novo no dia 31 de fevereiro, sim, depois do carnaval, assim te explico melhor o que é quaresma. Mas, no feissbuc, a torcida pelo modelo criança está grande. Querido diário, você pode me entender, você é o único que pode: ver exposto por todos os lados o convite a escolher mulheres meninas já é desagradável para alguém que passou pela experiência de ser “manipulada” por um adulto. Mas não é só isso: fico pensando que as adolescentes de hoje vão odiar o fato de suas periquitas não se manterem infantis. E fico pensando que esta é somente uma das formas exteriores que vejo por aí de manter uma mulher em um estado de infância perpétua. Os homens se tornam, em um meio de circulação de idéias tão amplo como o feissbuc, os juízes de um objeto do qual, evidentemente, se consideram os donos e, como tais, dispõem a seu belo prazer. Agora: eu sei que isso não passa de uma bobagem, que é fácil responder que é só uma brincadeira, uma piada. Sei que se eu falasse aos colegas professores da faculdade de uma coisa dessa seria liquidada ou com caras de constrangimento ou com mais alguma piadinha infame. Assim, na faculdade não comentei nada. Comentar coisas de gênero não é considerado acadêmico, é papo de mulher infeliz que está envelhecendo e que olha com inveja para as representações que os jovens fazem do sexo.... Será, mas me parece que a academia não está muito se ligando no que acontece nas relações de gênero do dia-a-dia.

Acontece, porém, que uma postura desse tipo se transforma em mil outras maneira de tratar uma mulher e o corpo dela, isso é, do meu. Por exemplo, minha visita ao ginecologista, hoje. Infelizmente, não tive a possibilidade de escolher uma mulher, me impuseram um medico homem. Não que isso a qualifique necessariamente como melhor profissional. Mas me deixaria a ilusão de que poderia ter um pouco mais de respeito, sabendo o quão desagradável é ser paciente dessa especialidade.

Eu vivo trocando ginecologista. A visita ao ginecologista sempre tem um que de humilhante, afinal, apesar de estarmos no campo da ciência, aliás, nas mãos da ciência, é a intimidade mais complexa, aquela que estamos expondo a alguém que não é bem uma pessoa de nossa esfera íntima. Sabe como é, querido diário, questões culturais sobre expor minhas intimidades naquela posição que impossibilita qualquer fuga pesam sobre mim! Talvez somente um homem adulto e inteligente com mais de quarenta anos (que já foi, então, a uma visita com um proctologista que, às vezes, pode ser uma mulher) possa entender o quão desagradável o ginecologista possa ser.

Em primeiro lugar, a gente responde a perguntas protocolares: idade, primeira menstruação, já teve gravidez, abortos, doenças, se usa anticoncepcional. Aparentemente, são perguntas inócuas tanto quanto as de um oftalmologista, que pergunta se enxerga bem de perto, de longe, se teve algum trauma aos olhos, alguma operação... Eh, certo, aparentemente é a mesma coisa. Exatamente. Fora o fato que o protocolo parece impor uma certa heterossexualidade compulsiva. Nenhum ginecologista, até hoje, depois de conhecer meu nome e idade teve alguma dúvida sobre minha orientação sexual. Talvez, se o protocolo de perguntas mudasse, mudaria também a abordagem diagnóstica sobre mim. Acho que as perguntas não deveriam se formular a partir de uma única hipótese normativa e prescritiva. Uma vez, depois de todas as perguntas rituais, respondi que eu estava com um problema de perdas. O elemento de avental branco me olhou e disse: “Mas vocês mulheres não precisam de um medico, vocês precisam de um encanador”. Exatamente o que uma mulher preocupada com sua saúde precisa ouvir antes de ficar ser roupa nas mãos desse senhor gentil, de prosa elegante e francamente disposto a te deixar à vontade, se colocando no papel do encanador. Um verdadeiro horror. O melhor foi outro, que me visitou sem sequer avisar do que estava fazendo. Bem desagradável. Claro, entendo que os médicos, hoje, devem ser produtivos e não há como perder tempo com delicadeza e gentileza perante corpos despidos de desconhecidas mais ou menos intimidadas, mais ou menos desconfortáveis, mais ou menos preocupadas.

Enfim, falo isso porque existem os profissionais que se dispõem um pouco mais a te ver como uma pessoa que não corresponde unicamente ou exatamente aos órgãos que estão visitando. Eu não sou um cano que vaza, a linguagem é, sim, importante. Assim como é importante que um medico te explique o que está acontecendo em sua menina flor, periquita, vagina e útero, como quiser chamá-la. Só sei que este som lúgubre de Útero lembra uma coisa perigosa. A letra U nos desfavorece. Assim como todo o repertório de palavras que pontuam nossa vida sexual: menarca (querido diário, você deve saber que se trata da primeira menstruação de uma mulher), que soa uma espécie de monarca, mas que é menos, menarca. Sei que não tem nada a ver com a etimologia da palavra, mas soa tão ruim, que ninguém usa. Depois tem a menopausa, novamente algo a menos... Não conheço sinônimos de menopausa. É menos e ponto. Menos Mulher? E a própria palavra, impronunciável, menstruação, que parece um xingamento em polonês! Menstruação: uma palavra sempre substituída por eufemismos delicados, quase fosse uma ofensa (efetivamente, em termos de fonética, a palavra ofende os ouvidos...): aqueles dias/o Período... palavras que não significam nada disso, a não ser quando pronunciadas a meia voz, até com constrangimento.

A questão, você vê, meu diário, é de um desaconchego profundo, sempre, com esse corpo que não é neutro, nunca. Eu gosto muito das mulheres que me preparam para a mamografia: em geral ajudam você a espremer seus peitos em uma máquina com a postura de quem sabe que não é o momento mais agradável do dia de uma mulher. Sabem também que uma parte das mulheres que se submetem ao exame tem ou saberá que tem algum elemento de preocupação. Querido diário, vou te voltar ao útero. Uma mulher pode ter uma vida sexual plena e satisfatória sem usar o útero? Claro que sim. O útero serve unicamente para a gravidez. Fora isso, é extraordinariamente ativo uma vez por mês em nos tornar alvo de muita propaganda de absorventes. Na verdade, querido diário, nos últimos anos a frase do ginecologista a respeito de precisarmos de encanador se tornou evangelho do marketing. Ao que parece, nós mulheres não somente precisamos de absorventes com abas, sem abas, suaves, secos, perfumados de frutas cítricas, com dupla e tripla barreira anti-vazamento. Ao que parece somos um verdadeiro problema de saúde pública, piores que esgotos a céu aberto. Para o mundo, nos mulheres vivemos vazando trinta dias por mês. Portanto, precisamos sempre por mais uma barreira entre nossos vazamentos e a calcinha, imagino para proteger o mundo das enchentes que provocamos. Alem disso, as mulheres fedem. E não pouco. Pois todo dia, na publicidade, nossa menina flor contradiz esse seu nome, precisando de materiais saponáceos com cheiro de lavanda, de frutas vermelhas, de pinho sol. Tudo delicado, certo, mas para as mulheres um sabão neutro normal não é suficiente, como aparenta ser para os homens. Não, nós mulheres precisamos encobrir cheiros selvagens que são de nossa natureza, aparentemente inevitáveis com uma seria lavagem com produtos específicos. Já isso me deixa preocupada... será que realmente uma mulher precisa cheirar feita um chiclete, aroma artificial de cereja, depois de uma lavagem com um cheirinho delicado de lavanda, como se estivesse usando amaciante de roupa?

E nossa natureza revoltante está também nas axilas, é claro, que hoje em dia ficam gastas e escurecidas, novamente como roupas velhas, precisando de um tratamento clareador/antimofo/anticrescimento de pelo... Ah, meu diário querido, tudo isso faz sentir qualquer uma suja, mesmo depois de um belo banho de ofurô a gente fica se sentindo inadequada, me parece inevitável!

A Barbie não tinha tantos problemas com uma higiene pessoal voltada para torná-la uma criatura plastificada, sem perdas ou vazamentos, sem cheiros eventuais... ela já vinha assim, mesmo trabalhando muito, e como trabalha a Barbie, sem suar, sem menina flor, sem cansaço, uma verdadeira mulher ideal, pois ainda fala pouco e quando chega o Ken beija na boca sem se sentir fedida! O bom da Barbie era que não tinha nenhuma fissura com a limpeza do banheiro, como as mulheres que vejo na telinha parecem ter... o banheiro dessas coitadas está sempre em condições lastimáveis. Ou seja: a TV me diz que o cartão de visita da maioria das mulheres deve ser o banheiro. Que é regularmente invadido por troupes de TV que deixam a coitada constrangida e envergonhada.

Vi outro dia que hoje, em tempo de crise econômica, a Barbie mudou, novamente, de trabalho: vem com os apetrechos profissionais da Barbie professora. Sei lá, acho que comercialmente não vai emplacar muito: abaixo de Barbie Manager eu não vejo como possa ter um bom mercado... professora é uma profissão complicada na realidade de muitas mulheres. Ela é simples somente para os fieis escudeiros do Paulo Maluf, que dizia que não é professora que ganha pouco, o problema é que ela é mal casada. Certo, com um aproveitador como o Ken, a coitada da boneca é mal casada mesmo...

Querido diário, hoje, como todos os dias, acordei, tomei café, conversei com alunos e colegas, sem precisar saber exatamente o que significa ser uma mulher. Me sinto tal, e isso é tudo. Mas nem sempre é tão fácil. Quando devo dar aula, quando sou convidada a alguma mesa redonda, quando participo de alguma reunião, às vezes sou minoria ou, às vezes, sou a única mulher presente. Os gestos, os discursos e os olhares não são os mesmos daqueles de um ambiente composto unicamente de homens. Alguns homens pensam que, como sou mulher, podem interromper, fazer piadas, rechaçar minhas falas como fruto da TPM. Outros se sentem quase compelidos a serem galantes, condescendentes, mais ou menos paternalistas. Ontem, por exemplo, um colega de outra faculdade “homenageou” as mulheres por serem as responsáveis do sucesso masculino. Traduzindo: atrás de um grande homem tem uma boa mãe/esposa, que se ocupa das necessidades quotidianas do grande homem. Que nem a publicidade para as olimpíadas da Procter & Gamble, sobre as “grandes mães”. São, estas, criaturas cruéis que obrigam seus filhos a acordar quando ainda está escuro, vigiam os treinamentos dos futuros campeões, os alimentam, lavam suas roupas e se realizam unicamente no reflexo do sucesso deles. Um pouco me irrita, isso: a mãe que realiza o sucesso de seus filhos é 100% dedicada ao lar e ao cuidado deles. E aquelas mães que trabalham, que não se dedicam esse 100% ao lar e aos filhos, que lidem com seus sensos de culpa por não se dedicar 24 hs. por dia àquela que, evidentemente, continua sendo a tarefa que, oficialmente, devem desempenhar. Os homens são ausentes, no anuncio: provavelmente não existem, abandonaram o lar ou, enquanto provedores, trabalham... Belo modelo, me lembra minha infância, na escola das freiras na década de 1970... Só que em 2012! E alguém diz que as mulheres já alcançaram seus direitos, que podem ficar satisfeitas...

Querido diário, voltando ao meu dia... nos momentos em que estou na esfera pública percebo que preciso gastar uma energia para me lembrar de que meu valor não depende do olhar que os homens podem ter sobre mim. Devo me esforçar para ser ouvida sem paternalismos, concentrar-me em minha fala. Está excluída a possibilidade, porém, que queira me esquecer de ser uma mulher, alguém que não está em um lugar neutro mas, sim, engendrado.

Querido diário, meu problema é que hoje à noite devo participar de um debate sobre gênero, opressão e homofobia, na faculdade de direito. Mais uma vez, me encontro gerenciando meus medos e inseguranças. Autoconfiança. É algo que se constrói devagar a partir da infância, quando aprendemos a ter cuidado de si, longe da mãe. A confiança se constrói quando não somos constantemente desaprovados, quando os pais acreditam em nós, quando nossos amigos e parceiros não nos humilham. Assim, até hoje, continua mais fácil, para um homem, ter autoconfiança. Ainda hoje, apesar das mudanças, a maioria dos pais tende a estimular mais determinadas habilidades e criatividades dos meninos que as meninas. Os brinquedos, apresentados com fortes conotações de gênero nas publicidades, continuam sendo bonecas para as meninas e carrinhos, a guerra, a engenharia de brinquedo para os meninos. As meninas continuam com o repertório privilegiado de brinquedos para aprender a ser mães e donas de casa.

Depois, meu diário, não é de se espantar que uma mulher tenha dificuldades em tomar a palavra em público ou em expressar opiniões diversas daquelas dos homens!

Sempre fico surpreendida, quando observo o comportamento de meus alunos e alunas: elas, em geral, propõem pesquisas excelentes para seu TCC, mestrados e doutorados, mas sempre manifestam seus medos de não estar à altura, de não saber fazer pesquisa e poucas pretendem seguir os estudos. Por outro lado, os rapazes sempre estão convencidos de que suas idéias são ótima e têm mais dificuldades em aceitar as orientações.

Vou escrever de coração aberto, diário, sobre isso. Ainda não sei qual das duas posturas me deixa mais irritada. Às vezes, quero bater a porta na cara de todos, para que apreendam o que significa ser incapazes de avaliar suas próprias capacidades. Mas, é claro, não é isso que eu faço. Não seria educativo e, mais uma vez, seria uma postura que traria desvantagem para as moças. É então que, exatamente porque sou uma mulher (e sei, portanto, o que significa estar na Universidade, e ser aceita na comunidade científica – ainda machista – ), procuro ficar calma e explicar, pacatamente, meu ponto de vista, que basicamente é este:. a autoestima é muito importante, falo para um aluno cheio de si, mas em geral não é suficiente. Pensar um projeto interessante não equivale a escrever um TCC/mestrado/doutorado. Vou te orientar desde que você reflita sobre as criticas que você recebeu. Depois vamos conversar com base nisso. 80% dos rapazes não volta.

Quando falo para alguma aluna realmente boa, por outro lado, meu discurso é diferente. Não quero ser maternal, nem lhe explicar o que deve fazer. Será ela, sozinha, que escolherá seu investimento acadêmico futuro. Me limito a explicar que, na vida, é necessário aprender a lutar e que se falo que o projeto é ótimo, não é para agradá-la, mas porque o penso. Não posso injetar nela a autoestima: se a aluna não tem autoconfiança, não serei eu que vai conseguir lhe dar isso. Posso, porém, dizer-lhe que confio nela e que tenho certeza de que conseguirá. Recebendo confiança de outros pode, aos poucos, aprender a acreditar em si e se aventurar nesse território masculino que é a academia, realizando escolhas não machistas.

Querido diário, o que quero dizer é que, até quando as mulheres não vão parar de se aperceber como os homens as vêem, não conseguirão fundar em si mesmas a auto-estima. Para eu mesma encontrar confiança em mim não foi suficiente eu decidir fazê-lo. Tive que aprender a ser independente do olhar masculino (com isso, querido diário, não quero dizer somente dos homens, quero mesmo dizer masculino, que é problema de gênero, e não de sexo). Tive que aprender que não sou bonita somente quando parâmetros masculinos dizem que sou. Tive que aprender que sou boa também quando ninguém me diz que sou. Já não é fácil obter isso na universidade para um homem! Para uma mulher, é pior ainda. A competição é sempre muito grande, nossos egos docentes ficam, às vezes, tão inflados que não podemos permanecer em dois na mesma sala. E as mulheres, nisso? Em uma universidade que nada tem de neutro, pois a freqüentamos há pouco tempo, em comparação com o prazo anterior que ela teve para se instituir e instituir suas linguagens e regras, nós, as mulheres, não participamos dessa origem, que é masculina e patriarcal. Nós precisamos nos adequar ao existente. E cada uma procura sua estratégia de sobrevivência, se afastando ou se aproximando das expectativas que ela imagina a universidade tenha para ela. É triste e cômico ao mesmo tempo, lidar com nossas posturas de mulheres presas entre os exercícios de feminilidade aguda, de maternidade expandida e de machismo absoluto na maioria do tempo. Querido diário, este me parece um ponto bem complicado, porque todas as vezes que tropeço nele me pergunto em que medida eu mesma, para sobreviver, flutuo entre um modelo e outro? E todas as vezes me proponho me inspirar aos poucos modelos de mulheres admiradas que encontrei no caminho. E me pergunto quanto consigo realmente ser uma mulher que possa ser uma boa medida para as jovens mulheres (e os homens) que encontro todos os dias na faculdade.

Já está tarde, preciso me arrumar para o evento. Pensei em falar algumas coisas sobre a qual todo mundo concorde, tipo que precisa tomar providências para que ninguém discrimine e oprima essa entidade cuja vida metade do universo desconhece. Que humilhar alguém através de “brincadeiras” que envolvem a sexualidade das mulheres muito se parece com assedio sexual, pois nos deixa nas mãos de alguém que, naquele momento, possui a força física ou a autoridade moral de nos subjugar, de nos deixar impotentes. Somente a minoria GLBT sabe o que é isso. Os homens heterossexuais não chegam muito bem a imaginar, precisariam de uma boa oficina. Falar em estupro acho que não vou. Querido diário, a respeito do estupro eu tenho uma pergunta à qual todos riem, mas ninguém responde. A pergunta é essa: “Os homens, desde a Antiguidade, tem reservado para as mulheres um conjunto de atributos construído a partir de ideais que eles colocaram para si. Por exemplo, construíram a oposição Cultura/Natureza, reservando às mulheres a segunda categoria. Decorre disso uma lista infindável de atributos dualistas de gênero. “Razão VS. Emoção” é um deles. Aí estava eu hoje esvaziando minha geladeira durante um ataque de fome compulsivo/bulímica e formulei a segunda parte da pergunta: O masculino (portanto, não somente os homens, mas mulheres também), muitas vezes, utiliza formas de “justificar” ou “amenizar” o estupro com algumas formulas mágicas, entre as quais duas me interessam em particular:

1) A culpada é a mulher, pois era provocante/estava provocando

2) O homem não tem culpa, pois se uma mulher provoca, ele não tem como resistir: é um homem, tem suas necessidades hormonais.

São afirmações iguais, a primeira só subentende a segunda parte da segunda afirmação, que recita que os homens, fundamentalmente, são animais irracionais incapazes de controle, e como isso faz parte da natureza deles, não merecem, de certa maneira, uma punição dura. Mas então, pergunto eu, aquela dicotomia Razão/Emoção pode ser rediscutida? Ou aceitamos sem discutir que, na hora da violência, do assedio, eles voltem a ser criaturas emocionais e naturais, enterrando toda razão e cultura das quais tanto se orgulham e do cume das quais nos olham como criaturas menores?.

Enfim, querido diário, talvez não seja o caso de recorrer às grandes filosofias, pois o tempo vai ser curto e não sei muito bem que público participará.

Somente mais uma coisinha, querido diário, antes de te deixar. Mas amanhã escreverei mais, no segredo dessas páginas. Páginas do diário de uma mulher quarentona que, com certeza, ninguém, nunca, vai achar interessantes.

A última coisa é que, mais uma vez, às vésperas de ir para esse encontro, sinto a indizível sorte de ter nascido mulher. Indizível, pois as palavras para meus dizeres ainda são poucas, as palavras que uma mulher escreve são para diários, para literaturas poucas vezes livres do gênero até nas capas. Sorte, pois nesse meu perambular pela universidade fui obrigada a me apropriar das linguagens e dos gestos do neutro, que não me inclui plenamente. Esse neutro masculino eu conheço, é uma segunda língua que uso todos os dias. Mas tenho uma arma que somente a subalternidade me fornece: alem desse equipamento que não é meu, possuo minhas vivências, linguagens e gestos que advêm do meu pertencer ao gênero feminino. Desse patrimônio, ainda por muitas circunstâncias silencioso e silenciado, sou portadora, dele não abdico. O masculino ignora minhas potencialidades, só me atribui limites. É como conhecer duas línguas: a língua materna, feita de voz e palavras e a língua paterna, feita de escrita. O masculino não possui ambas as línguas, pois considera a primeira um acessório secundário. Minha tarefa, meu papel de mulher docente, é ser portadora critica de ambas e mostrar, principalmente às jovens mulheres, mas também aos jovens homens curiosos, como funcionam os mecanismos da opressão, da desigualdade de direitos, da noção de diferença e de reconhecimento dela. Em parte, faço isso dentro da neutralidade oficial. Mas outra parte, aquela que não se publica, reside em meus gestos, palavras e práxis.